quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Igualdade de Direitos e Deveres


Hoje é tão notória a atuação da mulher nos mais diversos setores, que ninguém, a não ser por machismo ou por sentimentos menos dignos, nega o grau de competência delas, em atividades antes ocupadas somente por homens.

Até a vinda de Jesus à Terra, a mulher era considerada simplesmente um “zero à esquerda”, classificação pejorativa dada àqueles que nada representam. O Mestre, no entanto, dispensou-lhe tratamento nobre, em igualdade com o homem.

O Evangelho registra a participação de várias mulheres. Como Maria de Nazaré, a mãe de Jesus; Isabel, mãe de João Batista e prima de Maria de Nazaré; Maria Madalena, a quem o mundo oferecia todas as vantagens, mas que palmilhou, junto ao Mestre, os caminhos da redenção espiritual; Maria de Betânia, que lavou os pés do Mestre com lágrimas e com perfumes e enxugou-os com seus cabelos.

Cabe registrar, também, o exemplo de Joana de Cusa, a intendente de Herodes Antipas; ela, que possuía verdadeira fé, não conseguiu livrar-se das amarguras domésticas, pois o seu esposo não compartilhava das verdades do Evangelho. Segundo Humberto de Campos, no livro Boa Nova, psicografado por Francisco Cândido Xavier, quando as lágrimas da fogueira rodeavam o seu corpo, um dos algozes, ante a sua serenidade, perguntou-lhe: “O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer?” Ela ainda teve forças para responder: “Não apenas a morrer, mas também a vos amar!...”

E ainda: Salomé e a própria esposa de Pôncio Pilatos, que teve um sonho revelador, quando do julgamento de Jesus. Segundo Mateus, 27:19, “E, estando ele assentado no tribunal, sua mulher mandou lhe dizer: Não entres na questão desse justo, porque num sonho muito sofri por causa dele”.

O Espiritismo, doutrina que segue os passos de Jesus, considera a mulher com nobreza. Ela desempenha as mesmas funções exercidas pelo homem, com o mesmo grau de dedicação e responsabilidade.

Em O Livro dos Espíritos, perguntas 817 a 822-a – Igualdade dos direitos do homem e da mulher –, vemos que perante Deus o homem e a mulher são iguais e têm os mesmos direitos, pois Deus deu a ambos a inteligência e a faculdade de progredir.

A pretensa inferioridade entre o homem e a mulher, considerada em determinadas regiões, como acontece em países africanos, é próprio do domínio que o homem sempre exerceu sobre ela.

Fisicamente – e só fisicamente – a mulher pode ser considerada mais fraca que o homem, não para ser sua escrava, mas para caracterizar funções particulares: “O homem se destina aos trabalhos rudes, por ser o mais forte; a mulher aos trabalhos suaves; e ambos a se ajudarem mutuamente nas provas de uma vida cheia de amarguras”.

O Livro dos Espíritos explica que “Deus deu a força a uns para proteger o fraco e não para o escravizar”. A organização de cada ser foi apropriada por Deus conforme as funções a desempenhar. Se a mulher tem menor força física, “deu-lhe ao mesmo tempo maior sensibilidade, em relação com a delicadeza das funções maternais e a debilidade dos seres confiados aos seus cuidados”.

As funções conferidas à mulher têm tanta importância quanto as funções conferidas ao homem e até maior; “é ela quem dá as primeiras noções da vida”.

Perante a lei humana este deve ser o primeiro princípio de justiça: “Não façais aos outros o que não quereis que os outros vos façam”. Para que se tenha uma legislação justa, deve-se consagrar a igualdade de direitos entre o homem e a mulher.

O capítulo em referência de O Livro dos Espíritos diz que “todo privilégio concedido a um ou a outro é contrário à justiça. A emancipação da mulher segue o processo da civilização, sua escravização marcha com a barbárie. Os sexos, aliás, só existem na organização física, pois os Espíritos podem tomar um e outro, não havendo diferença entre eles a esse respeito. Por conseguinte, devem gozar dos mesmos direitos”.

Na tradução de O Livro dos Espíritos feita por J. Herculano Pires, ele coloca a seguinte nota de rodapé, no capítulo em referência: “Há mais de cem anos este livro indicava a solução exata do problema feminino: igualdade de direitos e diversidade de funções. Marido e mulher não são senhor e escrava, mas companheiros que desempenham uma tarefa comum, com a mesma responsabilidade pela sua realização. O feminismo adquire um novo aspecto à luz deste princípio. A mulher não deve ser a imitadora e a competidora do homem, mas a sua companheira de vida, ambos mutuamente se completando na manutenção do lar, que é a célula básica da estrutura social”.

ALTAMIRANDO CARNEIRO

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Educação Religiosa: Função do Estado ou da Religião?


Quando questionado pelos judeus se era lícito pagar tributo a César ou não, Cristo, conhecendo a intenção de seus inquisidores, respondeu: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Cristo aproveitava uma circunstância específica, de forma clara e prática, para ministrar um ensinamento que podemos estender, como todos os ensinamentos do Cristo, como um princípio geral. Podemos entendê-lo como a obrigação do cumprimento dos deveres contraídos para com a família, a sociedade, as autoridades, bem como para com os indivíduos.

De acordo com a Constituição e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, são permitidas aulas de ensino religioso desde que não sejam obrigatórias e que a instituição assegure o respeito à diversidade de credos e proíba o proselitismo, isto é, a tentativa de impor um dogma ou converter alguém. O Estado é laico.

Laicidade significa que o Estado deve proteger amplamente a liberdade religiosa, tanto em sua dimensão pessoal como social, e não impor, por meio de leis e decretos, nenhuma verdade especificamente religiosa ou filosófica, mas elaborar leis com base nas verdades morais naturais. O fundamento do direito à liberdade religiosa encontra-se na dignidade da pessoa humana.

Historicamente, no Brasil, todas as redes de ensino públicas ou privadas têm dificuldades e conflitos em ministrar as aulas de ensino religioso, dada a complexidade do conteúdo e o pluralismo religioso. Uma parcela dos professores insiste em catequizar e educar em sua fé sem levar em conta a diversidade religiosa de seus alunos.

O ensino religioso deveria ser estudado como história das religiões, do ponto de vista cultural, de sua influência na filosofia, na arquitetura, na medicina, no comportamento, na legislação, nas artes. Fé não se impõe, mas se conquista com base na observação, no estudo, no senso crítico, no conhecimento. A razão é sua maior incentivadora, é a maior conquista da consciência livre.

Se formos capazes de ministrar o ensino religioso, como qualquer área do conhecimento, em seu contexto transdisciplinar, sou favorável a ele, pois assim contribuiria para a educação em seu sentido pleno. Caso contrário, devemos deixar para as religiões cuidarem desta disciplina.

Kardec afirma que, se a religião “tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos, porque está na própria natureza do homem a necessidade de crer, e ele crerá desde que se lhe dê o pábulo espiritual de harmonia com as suas necessidades espirituais”.


MARIA ANGELA MIRANDA

sábado, 13 de agosto de 2016

O Espiritismo no Mundo


O Espiritismo se espalhou pelo mundo desde a publicação das Obras Básicas de Allan Kardec e ele faz referências significativas na “Revista Espírita”. Durante os Congressos Espiritualistas Internacionais, iniciados em Barcelona em 1888, com atuação de Amália Domingo Soler, e prosseguindo por vários países ocorreram apresentações marcantes de Léon Denis (inclusive representando a FEB), Gabriel Delanne, Cesare Lombroso e outros pioneiros destacados.

Depois das grandes guerras e final dos regimes autoritários europeus, com base no interesse pela expansão do Espiritismo no Brasil, o presidente da FEB, Francisco Thiesen, liderou a realização do 1º Congresso Espírita Internacional, em Brasília, no ano de 1989. Durante o evento recebeu a solicitação de dirigentes espíritas europeus para se formar uma organização espírita internacional. Iniciadas as várias articulações e reuniões na Europa e no Brasil, finalmente foi criado o Conselho Espírita Internacional em novembro de 1992, em congresso espanhol realizado em Madrid. O primeiro Congresso Espírita Mundial promovido pelo CEI ocorreu em Brasília no ano de 1995.

Nossas homenagens aos secretários gerais Rafael Molina, Roger Perez e Nestor João Masotti. Este último estimulou a formação de órgãos federativos nacionais em vários países, ampliando a representatividade do CEI, a promoção sistemática dos Congressos Mundiais e de muitas visitas e seminários em vários países, a criação da TVCEI e da EDICEI, com a publicação de livros em vários idiomas.

A convite do presidente Thiesen, atuamos no Congresso de 1989 e, depois, por solicitação de Nestor Masotti participamos da organização de Congressos Mundiais, eventos e ações do CEI, desde algumas reuniões preparatórias para a criação do organismo, em São Paulo, no ano de 1991. Entre muitas representações do amigo, estivemos em seu lugar no lançamento dos primeiros livros editados pelo CEI – três obras de André Luiz em francês –, em Paris no ano de 2005.

Desde a viagem histórica de Chico Xavier e Waldo Vieira aos EUA e Europa em 1965 – que gerou o livro Entre irmãos de outras terras (1) – e logo depois o início de maratonas de viagens de Divaldo Pereira Franco a dezenas de países, muitos companheiros têm colaborado com atuações no movimento espírita de diversos países. A Associação Médico-Espírita Internacional tem realizado importante trabalho na área acadêmica e profissional.

Recentemente, o CEI promoveu no Rio de Janeiro o 12º COLÓQUIO FRANÇA-BRASIL, com o tema ESPIRITISMO: ELO DE DUAS CULTURAS, em comemoração aos 150 anos de O Céu e o Inferno, no início de agosto de 2015. O secretário geral do CEI, Charles Kempf, e membros da Comissão Executiva, Fábio Vilarraga e Vitor Feria, além de nós, estivemos no Congresso Espírita da Bahia, em Salvador, em novembro passado.

No Boletim do CEI (4º. trimestre de 2015) há notícias de várias ações do CEI e dos movimentos espíritas de diversos países, oferecendo um panorama do movimento espírita no mundo. (2,3)

O próximo evento maior do CEI será o 8º. Congresso Espírita Mundial, com temas centrais: “amar a vida; amar o próximo”, programado para Lisboa (Portugal), de 7 a 9 de outubro de 2016. (4)

A produção de livros em vários idiomas prossegue e descentralizada, desde abril de 2013, com edições e distribuições feitas pelas EDICEIs da Europa e da América. (5) O CEI também edita a “Revista Espírita” em francês e em inglês. (6) Durante programa de atividades na Europa, estivemos na sede da EDICEI europeia. (7)

Embora não sejam vinculados a entidades espíritas ocorrem movimentos marcantes em Defesa da Vida, esclarecendo-se sobre a inoportunidade do aborto. No Brasil este Movimento surgiu há quase 10 anos e com atuação de espíritas. (8) Nos EUA o movimento é mais antigo e, em janeiro de 2016, promoveu-se uma grande marcha em Washington. (9) Aliás, o tema está relacionado com o Congresso Mundial próximo.

O movimento espírita tem se expandido em países de vários Continentes. (3) Do Editorial do Boletim do CEI, intitulado “Paz no mundo”, transcrevemos um trecho: “Neste último ano ocorreram vários fatos que conturbaram a paz no mundo. Os desrespeitos à vida humana se manifestaram em guerras, atentados, fomes, privações de liberdade, desconsideração com o meio ambiente. Emmanuel (Vinha de Luz, cap. 105) relaciona algumas causas: ímpios, caluniadores, criminosos, ignorância endinheirada, a vaidade bem-vestida e a preguiça inteligente, e a indiferença. [...] Paz, fraternidade e solidariedade nas irradiações mentais e nas ações!”. (2)

O importante é sempre o ambiente fraterno e solidário, de respeito à diversidade e à autonomia das instituições de cada país. Emmanuel lembrou em Paulo e Estêvão: “Jesus afirmou que seus discípulos viriam do Oriente e do Ocidente”. (10)

 ANTONIO CESAR PERRI DE CARVALHO

Fontes:

1) Xavier, Francisco Cândido. Espíritos diversos. Entre irmãos de outras terras. FEB; Among brothers of other lands. EDICEI.
10) Xavier, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Paulo e Estêvão. 2ª parte, cap.1, FEB.

Antonio Cesar Perri de Carvalho é ex-presidente da USE-SP, ex-presidente da FEB, membro da Comissão Executiva do CEI e do Grupo de Estudos Espíritas Chico Xavier.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A Corrupção dos Outros


Quando avaliamos a situação geral do nosso país, ou talvez pudéssemos afirmar, do mundo, existe uma variação de opiniões entre as pessoas, uns dizem que o grande problema é a educação, outros a saúde, uns afirmam ser a violência e outros ainda que é a falta de emprego...

Porém, dentro de uma análise mais ampla e sem que cada um veja suas necessidades pessoais, na base de todos esses pontos de conflitos e misérias, estaria a corrupção, afinal é ela que consome os recursos da saúde, da educação, da violência, da segurança e por aí vai.

No entanto, fica fácil identificar a corrupção nos outros, principalmente na classe política, afinal, quanto mais poder, maior a capacidade de fazer o bem ou o mal.

Mas, se a corrupção é tão sistêmica e instalada em nossa cultura, chegando ao ponto de nos orgulharmos de “ser espertos”, não deve estar a corrupção apenas num determinado grupo ou partido.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, em Bem-aventurados os que são Brandos e Pacíficos, no capítulo Obediência e Resignação, lemos um registro que evidencia a idade desse problema moral, dizendo que: “Ele (Jesus) veio no momento em que a sociedade romana perecia nos desfalecimentos da corrupção”.

Assim, entendemos que a corrupção é um antigo desafeto da verdade e da paz, o que deve nos alertar para o fato de que devemos combatê-la, com muito mais ênfase e determinação.

Mas a questão capital é: antes de combatê-la nos outros, devemos eliminá-la em nós. Sem essa regra sendo respeitada, não existirá o fim para a corrupção, apenas cada um vai esconder a sua, para evidenciar a dos outros.

Quando o Evangelho fala sobre os “Falsos Profetas”, o que são eles senão corruptores da moral e da fé? Sempre a corrupção.

O caminho a seguir é o da eliminação total da corrupção em nós, não admitir o troco que veio a mais, não aceitar vantagens ou favores que não sejam legais, nem meios para conseguir nossos objetivos que não sejam morais.

Combater a corrupção é não vender ou trocar nosso voto, é não fazer algo ilegal, justificando que todos fazem, é não vender um produto e entregar outro ou adulterar as leis de trânsito ou de convivência.

Mesmo que nossas leis também sejam equivocadas, devemos utilizar dos meios possíveis para buscar a regularização, adequação ou moralização delas – a isso se chama progresso.

Ainda em O Evangelho segundo o Espiritismo, no Resumo da Doutrina de Sócrates e Platão, lemos no item III: “Enquanto o nosso corpo e a alma se acharem mergulhados nessa corrupção, nunca possuiremos o objeto dos nossos desejos: a verdade”.

Enquanto que a corrupção é mantida pela ideia de que podemos fazer errado, porque todo mundo faz, a moral do Cristo nos ensina a fazer o que é certo, mesmo se ninguém o fizer.


ROOSEVELT ANDOLPHATO TIAGO

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Evangelização Infantil


“Encarnando, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir aqueles incumbidos de educá-lo.” (O Livro dos Espíritos, 383)

O Movimento Espírita Brasileiro ainda não despertou completamente para a importância da evangelização infantil. Nas primeiras décadas do século passado, as atividades dos centros espíritas se restringiam quase que só à mediunidade. As portas dos centros eram abertas ao público que, em geral, comparecia para assistir ao espetáculo da comunicação mediúnica, por sinal, bastante movimentada. Com o passar do tempo, foram introduzidas as palestras públicas. Vagarosamente, foram aparecendo os grupos de estudos, visando à preparação de trabalhadores para atuarem na mediunidade, na exposição doutrinária, nos passes. Foram surgindo também grupos de estudos das obras de Kardec, das obras de André Luiz, até de estudos bíblicos. Mas ainda é flagrante a pouca atenção dada ao tema evangelização infantil em livros, em revistas, na internet e em programações de estudo de muitas casas espíritas.

O preparo de médiuns é muito importante, pois vão atuar nas reuniões de desobsessão, no encaminhamento de Espíritos desencarnados que se encontram desamparados, desorientados ou voltados à perseguição de pessoas, através da obsessão. A esse trabalho poder-se-ia dar o nome de evangelização de desencarnados. Trata-se, inegavelmente, de um trabalho meritório que, frequentemente, requer larga dose de compreensão, de bondade, até mesmo de abnegação. É uma terapêutica levada ao Espírito enfermo que, se tivesse sido evangelizado na infância, possivelmente não teria escolhido caminhos tortuosos para seguir. Trata-se de um trabalho de cura, funcionando a reunião mediúnica como um hospital para almas.

Fazendo-se um paralelo com a Medicina, vemos que os processos preventivos visando à preservação da saúde vêm aumentando sensivelmente com o passar do tempo, pois é melhor vacinar do que esperar que a criatura adoeça e tratá-la mais tarde. Por que, então, não se adota a mesma prática no Movimento Espírita? Por que não vacinar a criança na Escola Espírita de Evangelização Infantil?

O Espírito reencarna com o objetivo de se aperfeiçoar, conforme resposta que os Espíritos Superiores deram a Kardec. Por que não aproveitar a encarnação na sua fase infantil, quando ainda estão mais vivos, embora inconscientemente, os projetos formulados no Mundo Espiritual, no sentido de aperfeiçoar-se, de servir, de caminhar no Bem? Por que esperar que a criança cresça com a possibilidade de adquirir hábitos não condizentes com os ensinamentos do Evangelho, para recebê-la, já adulta, no atendimento fraterno, no trabalho de passes, ou, já na condição de Espírito desencarnado, na mesa mediúnica?

Na escola espírita de evangelização infantil, a criança, desde cedo, é conscientizada de que é um Espírito reencarnado, como seus pais e seus evangelizadores o são, mas que, no momento, seu corpo ainda está em processo de crescimento, de adaptação à vida na Terra.

Ali a criança aprende a libertar-se do misticismo do templo; a libertar-se do problema racial; a ter consciência de que deve colaborar na melhoria do mundo; a ter fé no amparo de Deus, de Jesus, dos Bons Espíritos. Mas aprende também que deve fazer a sua parte.

O aprendizado nessa escola vai levá-la a conscientizar-se de que está numa família que a acolheu, mas que foi escolhida por ela própria, levando-a a concluir que o compromisso é mútuo. Vai levá-la a conscientizar-se de que é a construtora do seu próprio destino. Vai levá-la a saber que a melhor religião é a prática do Bem. E a reconhecer no Espiritismo a volta dos ensinamentos de Jesus, conforme sua promessa.

Àqueles que dizem não desejarem forçar a criança a comparecer ao centro espírita, temendo que ela crie uma rejeição ao Espiritismo, deixando-a escolher sua religião na idade adulta, deve ser perguntado se também deixam ao livre-arbítrio da criança o comparecimento à escola a fim de alfabetizar-se. Ou se deixam também ao seu arbítrio as vacinas próprias da infância.

Os pais realmente responsáveis devem acompanhar de perto o aprendizado da criança, comparecendo à Escola de Evangelização, a fim de dialogar com os evangelizadores.

O Culto do Evangelho no Lar, levado a efeito com responsabilidade, em dia e hora estabelecidos, é grande colaborador na tarefa de evangelização dos pequeninos. No lar onde há crianças, as leituras e os comentários devem ser feitos em nível de compreensão delas. As crianças devem ter preferência absoluta nas reuniões evangélicas domésticas. Os pais devem perguntar o que aprenderam na aula de evangelização, valorizando o conhecimento adquirido.

Os pais devem esforçar-se no sentido de que Evangelho, Espiritismo, evangelização infantil sejam assuntos comentados não somente no Centro Espírita ou durante o Culto do Lar, o que possibilitará à criança fazer a transferência, para o lar, do respeito ao templo religioso vivenciado noutras encarnações, podendo dizer: “meu lar, meu santuário maior”.

É necessário que os pais estejam profundamente convencidos de que são os maiores responsáveis pelo encaminhamento do Espírito imortal que lhes chegou às mãos em forma de criança, competindo-lhes por isso o dever de encaminhá-lo, não só através de palavras, mas principalmente de exemplos dignificantes. São muito oportunas as palavras do Benfeitor Alexandre, no cap. 18 do livro “Missionários da Luz”: O companheiro que ensina a virtude, vivendo-lhe as grandezas em si mesmo, tem o verbo carregado de magnetismo positivo, estabelecendo edificações espirituais nas almas que o ouvem. Sem essa característica, a doutrinação, quase sempre, é vã. Mateus, que observava nas pessoas o efeito dos ensinamentos de Jesus, encerra seu relato de “O Sermão da Montanha” com essas palavras: Porquanto ensinava como tendo autoridade; e não como os escribas. (Mateus, 7: 29)


JOSÉ PASSINI

domingo, 7 de agosto de 2016

O Vértice mais importante do Espiritismo


Sintetizando o fruto das civilizações, a humanidade é construção religiosa

“Em seu ambiente natural, a história do Evangelho é todo um poema de luz, de amor, de encantamento e de alegria.” - Emmanuel

O célebre escritor inglês Sir Arthur Conan Doyle, criador do personagem Sherlock Holmes, afirma(1) que o não menos célebre e eminente naturalista Dr. Alfred Russel Wallace, “(...) foi um dos poucos homens cuja mentalidade grandiosa, avassaladora e sem preconceitos viu e aceitou a questão da comunicabilidade dos Espíritos e da imortalidade da Alma com os corolários daí decorrentes, em sua maravilhosa inteireza, desde as humildes provas físicas de uma força exterior até ao mais alto ensino mental que essa força podia trazer, ensino que ultrapassa de muito em beleza e credibilidade tudo quanto a mente moderna tem conhecido.

A aceitação pública e o decidido apoio desse grande homem de ciência, um dos primeiros cérebros do seu tempo, foram de grande importância, desde que ele teve o espírito para compreender a completa revolução religiosa que estava por detrás dos fenômenos paranormais. Foi um fato curioso que, salvo algumas exceções, em nossos dias, como no passado, a sabedoria tenha sido dada aos humildes e negada aos doutos. Sentimento e intuição triunfaram onde falhou o cérebro”.

Utilizando a técnica da maiêutica socrática, Doyle conduz o raciocínio lógico na seguinte direção: “estabelecemos contato com a inteligência dos que morreram? - Sim. Deram informações sobre a nova vida que levam e como esta foi afetada por sua vida terrena? - Sim. Acharam que corresponde à descrição feita por todas as religiões da Terra? - Não. Mas, se é assim, não está claro que a nova informação seja de vital importância religiosa? O humilde espiritista vê isto e adapta a sua religiosidade aos fatos”.

Poderíamos ainda, socraticamente, continuar pelos caminhos da maiêutica, da seguinte maneira:

A quem compete o estudo das assertivas de Jesus? - Evidentemente às religiões. Ora, se, segundo afirmam(2) os Espíritos Superiores, Jesus é o Modelo e Guia mais perfeito que o Pai Celestial oferece à humanidade para servir-lhe de condutor, não fica difícil concluir que o Espiritismo, além dos segmentos filosóficos e científicos, necessariamente terá um segmento religioso, onde possam os seus profitentes se aprofundar nos meandros de seus sublimes ensinamentos.

O Espiritismo, em sua primordial função de revivescer os áureos tempos apostólicos, trazendo-nos “in natura” e escoimada de jaças a alcandorada Doutrina do Pai Celestial da qual Jesus foi o Vexilário Maior e Singular, não poderia, (sob pena de fracassar em sua missão), negligenciar o aspecto religioso de que está investido...

Parafraseando o Apóstolo dos Gentios, podemos com Hermínio C. Miranda afirmar sem rebuços: “Sobressaem-se três vértices principais na novel Doutrina dos Espíritos: científico, filosófico e religioso, mas entre os três o mais importante é o vértice religioso”.

Sem a dinamização oferecida por este último segmento, em pouco tempo a Doutrina Espírita estaria estiolada na atmosfera glacial dos laboratórios...

Com incrível lucidez e discernimento, Doyle argumenta: “o simples ato da comunicabilidade dos Espíritos, na sua solenidade, desperta o lado religioso das criaturas”.

Ajuntemos às nossas ilações, o sempre lúcido raciocínio de Emmanuel(3): “(...) os espiritistas sinceros devem compreender que os fenômenos acordam a Alma, como o choque de energias externas que faz despertar uma pessoa adormecida; mas somente o esforço opera a edificação moral, legítima e definitiva.

É uma extravagância de consequências desagradáveis, atirar-se alguém à propaganda de uma ideia sem haver fortalecido a si mesmo na seiva de seus princípios enobrecedores. O Espiritismo não constitui uma escola de leviandade. Identificado com a sua essência consoladora e divina, o homem não pode acovardar-se ante a intensidade das provações e das experiências. Grande erro praticariam as Entidades espirituais elevadas, se prometessem aos seus amigos do mundo uma vida fácil e sem cuidados, solucionando-lhes todos os problemas e entregando-lhes a chave de todos os estudos.

É egoísmo e insensatez provocar o plano invisível com os pequeninos caprichos pessoais. Cada estudioso desenvolva a sua capacidade de trabalho e iluminação e não guarde para outrem o que lhe compete fazer em seu próprio benefício.

O Espiritismo sem Evangelho pode alcançar as melhores expressões de nobreza, mas não passará de atividade destinada a modificar-se ou desaparecer, como todos os elementos transitórios do mundo. E o espírita, que não cogitou da sua iluminação com Jesus, pode ser um cientista e um filósofo, com as mais elevadas aquisições intelectuais, mas estará sem leme e sem roteiro no instante da tempestade inevitável da provação e da experiência, porque só o sentimento divino da fé pode arrebatar o homem das preocupações inferiores da Terra para os caminhos supremos dos páramos espirituais.

(...) É certo que o planeta já possui as suas expressões isoladas de legítimo evangelismo, raras na verdade, mas consoladoras e luminosas... Essas expressões, porém, são obrigadas às mais altas realizações de renúncia em face da ignorância e da iniquidade do mundo. Esses apóstolos desconhecidos são aquele “Sal da Terra” e o seu esforço divino será respeitado pelas gerações vindouras, como os símbolos vivos da iluminação espiritual com Jesus, bem-aventurados de Seu Reino, no qual souberam perseverar até o fim.

(...) Urge, contudo, que os espiritistas sinceros, esclarecidos no Evangelho, procurem compreender a feição educativa dos postulados doutrinários, reconhecendo que o trabalho imediato dos tempos modernos é o da iluminação interior do homem, melhorando-se-lhe os valores do coração e da consciência.

Dentro desses imperativos, é lícito encarecermos a excelência dos planos educativos da evangelização, de modo a formar uma mentalidade espírita-cristã, com vistas ao porvir.

Não podemos desprezar a caridade material que faz do Espiritismo evangélico um pouso de consolação para todos os infortunados; mas não podemos esquecer que as expressões religiosas sectárias também organizaram as edificações materiais para a caridade no mundo, sem olvidar os templos, asilos, orfanatos e monumentos. Todavia, quase todas as suas obras se desvirtuaram, em vista do esquecimento da iluminação dos Espíritos encarnados.

A Igreja Romana é um exemplo típico: senhora de uma fortuna considerável e havendo construído numerosas obras tangíveis, de assistência social, sente hoje que as suas edificações são apenas de pedra, porquanto, em seus estabelecimentos suntuosos, o homem contemporâneo experimenta os mais dolorosos desenganos.

As obras de caridade material somente alcançam a sua feição divina quando colimam a espiritualização do homem, renovando-lhe os valores íntimos, porque, reformada a criatura humana em Jesus Cristo, teremos na Terra uma sociedade transformada, onde o lar genuinamente cristão será naturalmente o asilo de todos os que sofrem.

Depreende-se, pois, que o serviço de cristianização sincera das consciências constitui a edificação definitiva, para a qual os espiritistas devem voltar os olhos, antes de tudo, entendendo a vastidão e a complexidade da obra educativa que lhes compete efetuar, junto de qualquer realização humana, nas lutas de cada dia, na tarefa do amor e da verdade.

(...) Fácil concluir que sendo a religião o sentimento divino, cujas exteriorizações são sempre o amor, nas expressões mais sublimes, ela tem a função de edificar e iluminar os sentimentos, enquanto a Ciência e a Filosofia operam o trabalho da experimentação e do raciocínio.

A Ciência e a Filosofia se irmanam na sabedoria, a religião personifica o Amor, as duas asas divinas com que a Alma humana penetrará, um dia, nos pórticos sagrados da Espiritualidade”.

É ainda Emmanuel, através da abendiçoada mediunidade de Francisco Cândido Xavier quem nos enviou esta esclarecedora página intitulada:

“RELIGIÃO

A Ciência multiplica as possibilidades dos sentidos e a filosofia aumenta os recursos do raciocínio, mas a religião é a força que alarga os potenciais do sentimento.

Por isso mesmo, no coração mora o centro da vida. Dele partem as correntes imperceptíveis do desejo que se consubstanciam em pensamento no dínamo cerebral, para depois se materializarem nas palavras, nas resoluções, nos atos e nas obras de cada dia.

Na luta vulgar, há quem menospreze a atividade religiosa, supondo-a mero artifício do sacerdócio ou da política, entretanto, é na predicação da fé santificante que encontraremos as regras de conduta e perfeição de que necessitamos para o crescimento de nossa vida mental na direção das conquistas divinas.

A Humanidade, sintetizando o fruto das civilizações, é construção religiosa.

Desde os nossos antepassados invertebrados e vertebrados caminhamos nos milênios, de reencarnação em reencarnação, adquirindo inteligência, por intermédio da experimentação incessante, mas não é somente a razão o fruto do nosso aprendizado, no decurso dos séculos, mas também o discernimento ou luz espiritual, com que pouco a pouco aperfeiçoamos a mente.

A religião é a força que está edificando a humanidade. É a fábrica invisível do caráter e do sentimento.

Milhões de criaturas encarnadas guardam, ainda, avançados patrimônios de animalidade. Valem-se da forma humana, como quem se aproveita de uma casa nobre para a incorporação de valores educativos. Possuem coração para registrar o bem, contudo, abrigam impulsos de crueldade. O instinto da pantera, a peçonha da serpente, a voracidade do lobo ainda imperam no psiquismo de inumeráveis inteligências...

Só a religião consegue apagar as mais recônditas arestas do ser, determinando nos centros profundos de elaboração do pensamento a alteração gradativa das características da Alma, elevando-lhe o padrão vibratório, através da melhoria crescente de suas relações com o mundo e com os semelhantes.

Nascida no berço rústico do temor, a fé iniciou o seu apostolado, ensinando às tribos primárias que o Divino Poder guarda as rédeas da suprema justiça, infundindo respeito à vida e aprimorando o intercâmbio das almas. Dela procedem os mananciais da fraternidade realmente sentida, e, embora as formas inferiores da religião, na antiguidade muita vez incentivando a perseguição e a morte, em sacrifícios e flagelações deploráveis, e apesar das lutas de separação e incompreensão que dividem os templos, nos dias da atualidade, arregimentando-os para o dissídio em variadas fronteiras dogmáticas, ainda é a religião a escola soberana de formação moral do povo, dotando o espírito de poderes e luzes para a viagem da sublimação.

A Ciência construirá para o homem o clima do conforto e enriquecê-lo-á com os brasões da cultura superior; a filosofia auxiliá-lo-á com valiosas interpretações dos fenômenos em que a Eterna Sabedoria se manifesta, mas somente a fé, com os seus estatutos de perfeição íntima, consegue preparar nosso espírito imperecível para a ascensão à glória universal”.

Provavelmente, por não desconhecer estas questões é que Casimiro Cunha – poeticamente – escreveu: “Religião é caminho/De Sublime comunhão/ Que o Céu abre, a cada dia/À marcha do coração”.


ROGÉRIO COELHO

Referências:

[1] - DOYLE, Arthur Conan. História do Espiritismo. S.Paulo: Editora Pensamento.
[2] - KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 88. Ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2006, q. 625.
[3] - XAVIER, F. Cândido. O Consolador. 23. Ed. Rio [de Janeiro]: 2001, questões: 236, 238, 255 e 260.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Jogos Pan e Parapan


Considerada a 2ª competição mais importante do mundo, atrás apenas das Olimpíadas, é um evento que ocorre a cada 4 anos, desde 1951, do qual participam várias bandeiras, cada qual com as cores representativas de seu país.

Pan – 42 países, 34 esportes, 5.500 atletas.
Parapan – 26 países, 10 esportes, 1.300 atletas.

É um desfile de caracteres, de expressões, de culturas, de etnias, que nos leva a acreditar que o mundo é uma aldeia e nós somos cidadãos do mundo.

Fiz parte dessa festa como voluntária, e estive ciente da importância de meu trabalho, no sentido de garantir o sucesso desse marco para nosso país.

Fiquei locada pelo Comitê Olímpico para trabalhar no Pan, junto ao expectador no vôlei (Maracanãzinho), e, no Parapan, de suporte ao atleta no atletismo (Ginásio João Havelange – Engenhão).

O mascote, representado pelo sol, foi escolhido, também para representar a igualdade, traduzido pelo dito popular “o Sol nasce para todos”, e recebeu o nome de Cauê, derivado da saudação tupi Auê, que quer dizer “Salve”!

O Pan e Parapan que vi!


É valoroso podermos falar de nossas próprias experiências, por isso gostaria de falar do Pan, Parapan, relacionado ao Egoísmo (competição, vaidades), tema de nossa palestra.

A competição saudável ”hoje ser melhor de que ontem e amanhã melhor do que hoje”, se faz pelo esforço, pela dedicação, pela renúncia... O atleta aprende a renunciar, pois a idade das competições, onde se consegue o melhor tempo, é na fase da juventude... e opções precisam ser feitas, ao invés de sair e beber, dorme-se, descansa-se, para que no dia seguinte se encontre no esplender do físico.

E o atleta que não tem uma perna, um braço ou os dois, é cego, com deficiência, ou ter só o tronco (até o umbigo)... O que será que o faz se expor e provar aos nossos olhos que ele é normal, igualzinho a nós, ao invés de ficar em casa se lastimando, reclamando de quanto a vida foi ingrata com ele?

Olhei em seus olhos, e percebi que ele, no fundo de seu coração, aceita a justiça divina e sabe que nada é por acaso!... se assim ele não pensasse, ele não seria um guerreiro da luz.

Vi beleza física, inclusive sensualidade... vi uma moça linda, cuja perna direita se resumia num “toco”, até o meio da coxa – no entanto ela estava competindo e ficou treinando a manhã inteira (meus olhos a acompanhavam)... correndo com uma perna de corrida, de titânio, que lhe dava elegância e leveza nos passos, que ora corriam, pulavam, saltavam, intercalava passos, corria lateralmente, esticava, dobrava... incansavelmente num sol de 35º...

Que prótese linda! Como a capacidade tecnológica humana está sempre se superando, como ela mesma se autossuperava... testando... obtendo dados para novas e melhores próteses.

Como a tecnologia é maravilhosa! Como a razão é nossa realidade hoje! Como os Espíritos estão se superando em virtudes, como coragem, paciência etc.!

Não vi egoísmo.

Garanto que vi brilho nos olhares, mesmo naqueles que tinham a pálpebra fechada, como no caso daquele, que além da cegueira, tinha uma deformidade severa no rosto, com marcas de inúmeras cirurgias... Não perguntei, mas com certeza foi acidente, pois vi seu corpo saudável, forte, com os músculos bem trabalhados, no entanto, os olhos brilhavam... mas, não tinha olhos!

O que será que vi brilhar?

Sim, só podem ser os olhos da alma!!!

Vi benevolência, tolerância, perdão, para consigo mesmo e para com o mundo “perfeito” que estava ao redor.

O atleta, daqui para frente, quando falar “atleta”, já não o estou separando... eles me mostraram que só existe um Pan e só um atleta. (Antigamente o Parapan era realizado em outra época diferente da realização do Pan; hoje é realizado a seguir ao término do Pan, e com certeza, amanhã, serão no mesmo momento: o Pan e Parapan, e se chamará apenas Pan.)

O atleta que vi?

Vi abraçar com carinho o adversário que levou a medalha de ouro e ele próprio não.

O atleta que vi?

Não levar nenhuma medalha, mas aprender a chegar ao seu limite, que é sua própria vitória... que é ir até o final. Vi coragem!

Vi o público infantil (devo abrir um parêntesis e dizer que no Parapan a entrada foi grátis, e o Ginásio João Havelange, o Engenhão, maravilhoso, iluminado com seus arcos de luz, estava com suas arquibancadas ocupadas por escolas, com muitas crianças...).

As crianças que vi?

Vi numa competição de 10.000m, onde havia um atleta retardatário, que não enxergava, com seu guia, atrasado em 3 voltas na pista do ginásio, cansado, embaixo de um sol forte... numa competição solitária, pois os outros já haviam cruzado a chegada. Vi o resultado de seu preparo físico, sua luta íntima e treino físico, fazendo as longas voltas sozinho (às vezes achava que ele estava esmorecendo... mas ele continuava).

Vi que as crianças, homens do futuro, que ali aprendiam a benevolência, batiam palmas e gritavam palavras de força, e quando o corredor solitário chegou ao final, as crianças se levantaram, gritando e batendo palmas... Isso é história de vencedores!

Aprendi que perdendo ou ganhando, a vitória sobre si mesmo é que vale. Aprendi que o companheirismo não enxerga diferenças e nem resultados.


O aplauso que vi?


Vi subir a bandeira de outro país para medalha de ouro, com seu hino... e as crianças perfiladas respeitando e, após, batendo palmas ao vitorioso... Elas são vitoriosas! É assim que se aprende a ser cidadão do mundo!


O jogo que vi?


Vi o “fair play” que significa solidariedade, o “jogo leal”, que me mostrou gestos de amor, em plena competição entre adversários, o pedido de perdão se um toque foi mais pesado numa jogada mais dura... pequenos contatos físicos com grandes significados!

Percebe-se, assim, um despertamento para o “tratar seu semelhante como gostaria de ser tratado”...

E nós?

Nós também somos atletas, iguais em nossas diferenças, que temos de vencer, e como diz o Dr. Célio Costa, psiquiatra do Hospital Espírita Bom Retiro, em Curitiba, “vencer é difícil, mas mais difícil ainda é vencer-se”, e continua ele: “vencer os outros, abandonar as coisas que nos agridem, fugir daquilo que não gostamos, ou virar as costas para as pessoas que têm defeitos, que não concordamos, é fácil. Porém, grandes dificuldades temos ao enfrentar a nós próprios, engolir nossas falhas, superar nossos temores, e prosseguir lutando e vencendo”.

Digo que ser espírita me dá largueza de visão, consciência de que sou eterna aprendiz desta escola chamada Terra, onde aprendemos a tolerância, a paciência, a humildade... para fazer a leitura das Leis Divinas que estão na consciência, com a bagagem própria, e ser vitorioso, que é chegar à felicidade maior, que é a paz e a certeza de que caminhamos para o PAI... e que a dor, a companheira nesse orbe, existe para nos educar, com o papel de verdadeira justiça divina.

Vejo quanto nós já crescemos! Tem muito chão, ainda, é claro!... Mas já andamos bastante, se não, basta que lembremos os esportes na Roma antiga, os gladiadores, o enfrentamento de homens versus leões... onde a finalidade era ver sangue!...

Hoje, se alguém se machuca numa competição, há um “Óhhhh!!” – da plateia – e todos param de falar e, estáticos, esperam o atleta se levantar... e, após, soltar o corpo num alívio... Vi isso!

Assim que vi o atleta!

Assim que vi o expectador!

Vi benevolência, tolerância e perdão, verdadeiro sentido da palavra caridade!

Esse evento que vi é representativo da futura sociedade (lembrar que o mal é a ausência do bem, portanto, o bem sempre vence), numa atmosfera de amor, onde o forte realmente ajuda o fraco, onde é respeitado o limite de cada um, e lembramo-nos do que Jesus nos disse: – “Vós sois deuses!”.

Vejo também a união entre os povos, onde ninguém morre de fome... Dividem-se a comida, a cultura, numa festa de eterna fraternidade!


MARIA ÂNGELA MOREIRA

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Ética Mundial para a Paz


Há fases da vida em que toda a pessoa tem legítimas aspirações que nessas épocas são consideradas utópicas, porém, ninguém pode garantir que, num futuro mais ou menos remoto, se não possam tornar realidades ainda que, relativizadas, em face de uma outra dimensão absoluta que necessariamente se busca e, desesperadamente, se reconhece a incapacidade para a alcançar.

Defronta-se a humanidade com uma realidade que lhe é dada pela natureza das coisas, como um fenômeno, que é interpretado segundo os conhecimentos da ciência e da técnica de cada época, mas cujo núcleo mais profundo ainda se ignora, pese embora, e a favor, o fato de se avançar imenso na descoberta e explicação de tais realidades.

O mistério do insondável persiste e até as coisas mais simples: uma árvore, uma pedra, o movimento das águas, a montanha, o vento, o fogo, o ar, os povos nas suas organizações mais rudimentares e primitivas contêm aspectos que o homem ainda não conhece total e absolutamente.

A sociedade humana, que é uma construção do gênio humano, continua complexa, apesar de toda a evolução da sua estratégica organização, da proliferação e aplicação de regras, complexa, difícil e conflituosa, gerando situações que já não são compatíveis com o estatuto superior que deveria corresponder à dignidade da pessoa humana, numa sociedade que tem a obrigação de se conduzir pelos valores e princípios referenciais desta superior espécie.

O homem (abrangendo, obviamente, os dois gêneros: feminino e masculino), que ao longo da sua história, a partir do seu mais remoto antepassado cientificamente denominado por “hominídeo”, considerando, ainda, a sua evolução nas abordagens filogenética e ontogenética, certamente que tem sido objeto de um progresso a todos os títulos notável, que nenhuma outra espécie animal terá conseguido.

O novo século iniciou-se com as esperanças que transitaram do século anterior, à cabeça das quais se coloca a paz, podendo esta ser entendida como: «A paz, vale dizer a tranquilidade, nascida da ordem, é o mais elevado desses bens desejáveis, pois inclui todos os outros» (SIMÕES, 2000:85), a saúde, o trabalho, a felicidade, entre outras igualmente desejáveis, que se encontram bem identificadas num documento subscrito pela esmagadora maioria dos países do mundo: Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Neste documento universal, resultante do sofrimento provocado por duas guerras mundiais que marcaram negativamente o século XX, aprovado em 10 de Dezembro de 1948 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, estão plasmados, em trinta artigos, os direitos humanos fundamentais, a que lhes correspondem outros tantos deveres, porque cada pessoa que usufrui de um direito tem o dever de proporcionar igual oportunidade ao seu semelhante.

As causas, as soluções e a comprovação dos resultados, para a situação das pessoas, das comunidades e das nações, não cabem no âmbito da presente investigação-reflexão, qualquer que seja a abordagem: científica, técnica, política, social, econômica, religiosa, cultural ou outra.

Pretende-se, isso sim, refletir sobre a possibilidade de se instituir ou melhorar uma filosofia dos deveres individuais institucionais, comunitários e universais, com o objetivo de se idealizar e implementar uma “Nova Ordem Ética Mundial”, tal como já se avança para a “Nova Ordem Econômica Mundial”, para a globalização do capital, da economia, do comércio e em tantos outros setores das atividades humanas. É preciso divulgar, insistir e incrementar, com boas práticas, uma nova ordem ética, para a pessoa nos seus vários papéis, para a comunidade e para o mundo.


DIAMANTINO LOURENÇO RODRIGUES DE BÁRTOLO

Bibliografia:

SIMÕES, M. C. (2000). Ética e Antropologia em Agostinho. In Phrónesis – Revista de Ética, Campinas: PUC-Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Vol. 2 (1) Jan/Jun. Pp. 75-86

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Especial do Mês



Nesse mês, com o especial “Artigos Espíritas”, o Manancial de Luz dedica-se a divulgação em suas postagens de artigos com abordagens de temáticas atuais de caráter espírita doutrinário.
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