115. Dos Espíritos, uns terão sido criados bons e outros maus?
“Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade, para aproximá-los de si. Nesta perfeição é que eles encontram a pura e eterna felicidade. Passando pelas provas que Deus lhes impõe é que os Espíritos adquirem aquele conhecimento. Uns aceitam submissos essas provas e chegam mais depressa à meta que lhes foi destinada. Outros só a suportam lamentando e, pela falta em que desse modo incorrem, permanecem afastados da perfeição e da prometida felicidade.”
a) Segundo o que acabais de dizer, os Espíritos, em sua origem, seriam como as crianças, ignorantes e inexperientes, só adquirindo pouco a pouco os conhecimentos de que carecem com o percorrerem as diferentes fases da vida?
“Sim, a comparação é boa. A criança rebelde se conserva ignorante e imperfeita. Seu aproveitamento depende da sua maior ou menor docilidade. Mas a vida do homem tem termo, ao passo que a dos Espíritos se prolonga ao infinito.”
As questões 115 e 115-a de O Livro dos Espíritos são fundamentais para compreender a visão espírita sobre a origem dos Espíritos, a responsabilidade moral e o sentido da evolução espiritual.
Ao perguntar se existem Espíritos que sejam bons ou maus por natureza, Allan Kardec conduz-nos a uma das mais consoladoras verdades ensinadas pela Doutrina Espírita: nenhum Espírito é criado destinado ao mal.
Na questão 115, os Espíritos superiores esclarecem que Deus criou todos os Espíritos “simples e ignorantes”, isto é, sem conhecimentos adquiridos e sem desenvolvimento moral, mas com a mesma possibilidade de crescimento e aperfeiçoamento.
Isso significa que ninguém nasce espiritualmente condenado ao erro, à maldade ou ao sofrimento eterno. Todos possuem diante de si o mesmo caminho de evolução. A diferença que encontramos entre os Espíritos decorre do grau de desenvolvimento que cada um alcançou através de suas experiências, escolhas e esforços.
Alguns já percorreram um longo caminho de aprendizado e apresentam grande desenvolvimento moral; outros ainda permanecem presos ao egoísmo, ao orgulho e às paixões. Entretanto, mesmo aqueles que hoje praticam o mal não foram criados maus. O mal é uma condição transitória, resultante da ignorância e do afastamento voluntário das leis divinas, e não uma característica permanente da criatura.
É justamente nesse ponto que a questão 115-a se torna profundamente esclarecedora. Kardec pergunta se os Espíritos, em sua origem, possuem algum vínculo com o mal. A resposta é clara: não. Eles são destinados ao bem e, desde o princípio, possuem a capacidade de evoluir.
Podemos compreender, portanto, que Deus não cria Espíritos bons e Espíritos maus. Deus cria Espíritos com o mesmo potencial de aperfeiçoamento, concedendo-lhes o livre-arbítrio para escolher os caminhos que desejam seguir.
Essa compreensão modifica profundamente a maneira como devemos enxergar as pessoas ao nosso redor e, principalmente, aqueles que ainda cometem erros. Se todos fomos criados com a mesma destinação divina, ninguém deve ser considerado irremediavelmente perdido.
A Doutrina Espírita não justifica o mal, mas explica sua origem e apresenta sua superação como possível. O Espírito que hoje erra poderá, através das experiências, das consequências de seus próprios atos, do arrependimento, da reparação e do esforço no bem, transformar-se gradualmente.
É por isso que a evolução espiritual não acontece de uma só vez. Somos todos aprendizes. Cada existência representa uma oportunidade de desenvolver aquilo que ainda nos falta: compreensão, amor, humildade, fraternidade, paciência e responsabilidade.
Para a criança, esse ensinamento pode ser traduzido de maneira muito simples: ninguém nasceu para ser mau e ninguém está condenado a permanecer no erro.
Assim como uma pequena semente possui dentro de si a possibilidade de tornar-se uma árvore, cada Espírito traz consigo as potencialidades divinas que deverão ser desenvolvidas ao longo de sua caminhada. Algumas sementes germinam mais rapidamente; outras precisam de mais tempo, cuidado e experiências. Mas todas possuem a mesma finalidade: crescer.
As questões 115 e 115-a nos convidam, portanto, a olhar para nós mesmos com esperança e para os outros com mais compreensão. Nossas imperfeições atuais não representam aquilo que somos destinados a ser. Representam apenas o ponto em que nos encontramos em nossa jornada evolutiva.
A mensagem é profundamente consoladora: Deus não cria Espíritos para o mal. Todos fomos criados para alcançar a perfeição relativa e a felicidade, através do nosso próprio esforço e das experiências que a vida nos oferece.
Por isso, diante de nossas próprias dificuldades, não devemos pensar: “Eu sou assim e nunca vou mudar.” E diante das imperfeições de alguém, não devemos pensar: “Essa pessoa nunca vai melhorar.”
À luz da Doutrina Espírita, podemos substituir essas ideias por uma esperança muito maior:
Ainda estamos aprendendo. Ainda podemos melhorar. E todos, sem exceção, temos diante de nós o caminho da evolução.









