A questão 459 de O Livro dos Espíritos é
especialmente importante para compreender a influência espiritual sem cair na
ideia de que somos meros instrumentos passivos dos Espíritos. Kardec apresenta
uma resposta que precisa ser lida em conjunto com o princípio do livre-arbítrio
e da responsabilidade individual.
Questão 459 — A influência dos Espíritos em nossos
pensamentos e atos
Pergunta Allan Kardec aos Espíritos:
“Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos
atos?”
E os Espíritos respondem:
“Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto, que de
ordinário são eles que vos dirigem.”
À primeira vista, essa resposta pode causar certa
preocupação. Se os Espíritos influenciam nossos pensamentos e atos a ponto de,
muitas vezes, nos dirigirem, significaria isso que somos governados por forças
espirituais e que não somos responsáveis pelo que pensamos ou fazemos? A
Doutrina Espírita demonstra que não.
A resposta da questão 459 deve ser compreendida à luz de
todo o ensinamento espírita acerca do livre-arbítrio, da vigilância e da
responsabilidade moral.
Os Espíritos desencarnados podem exercer influência sobre
nós por meio dos pensamentos, sentimentos, sugestões e inclinações que procuram
despertar. Espíritos bons podem inspirar-nos ao bem, à paciência, à caridade,
ao perdão e à renovação interior. Espíritos ainda ligados ao erro e às paixões
podem, por sua vez, estimular pensamentos de orgulho, egoísmo, revolta,
vingança ou outros comportamentos que estejam de acordo com suas próprias
tendências.
Entretanto, influência não significa domínio absoluto.
O Espírito encarnado conserva a capacidade de escolher. Uma
sugestão espiritual pode ser acolhida ou rejeitada. Um pensamento pode surgir
em nossa mente sem que sejamos obrigados a transformá-lo em palavra ou ação. É
justamente nessa possibilidade de escolha que se manifesta o livre-arbítrio e,
consequentemente, a nossa responsabilidade.
Por isso, a questão 459 também nos convida a uma profunda
reflexão sobre a nossa vida mental.
Nem todo pensamento que surge em nossa mente representa
necessariamente aquilo que somos ou desejamos conscientemente. Podemos receber
influências, perceber ideias repentinas, experimentar determinadas emoções e,
ainda assim, decidir o que faremos com tudo isso.
É nesse ponto que a vigilância se torna tão importante.
Quando cultivamos pensamentos elevados, sentimentos de
fraternidade e hábitos voltados para o bem, tornamo-nos mais receptivos às boas
inspirações. Da mesma maneira, quando alimentamos continuamente o orgulho, o
ressentimento, o ódio, a vaidade ou outros sentimentos inferiores, podemos
favorecer a aproximação e a influência de Espíritos que se encontram em
sintonia com essas disposições.
Assim, não devemos interpretar a questão 459 como um convite
ao medo dos Espíritos, nem atribuir a eles a responsabilidade por nossas
escolhas.
A influência espiritual existe, mas a responsabilidade
pela direção que damos à nossa vida permanece conosco.
Podemos comparar essa influência a uma sugestão recebida.
Alguém pode nos aconselhar, estimular ou tentar convencer-nos, mas a decisão
final depende de nós. Da mesma maneira, a presença ou a influência de um
Espírito não elimina nossa liberdade de escolha.
Essa compreensão também nos ajuda a evitar um erro bastante
comum: justificar nossas imperfeições dizendo que determinado Espírito nos
levou a agir daquela maneira. A Doutrina Espírita nos chama justamente para o
caminho oposto: conhecer nossas próprias tendências, vigiar nossos
pensamentos e assumir a responsabilidade pela nossa transformação.
A pergunta de Kardec, portanto, é também um convite ao
autoconhecimento.
Quando um pensamento negativo surgir, podemos perguntar:
“Estou alimentando esse pensamento?”
“Esse sentimento corresponde ao bem que desejo cultivar?”
“Que tipo de influência estou permitindo que encontre
espaço em minha intimidade?”
E, diante de uma inspiração para o bem, podemos igualmente
perguntar:
“Estou disposto a transformar essa boa inspiração em
atitude?”
O ensinamento da questão 459 mostra, assim, que a vida
espiritual não está separada da vida cotidiana. Nossos pensamentos, sentimentos
e escolhas estabelecem relações e afinidades que podem favorecer determinadas
influências espirituais.
Por isso, a melhor defesa contra as más influências não é
o medo, mas a renovação interior.
A oração sincera, o estudo, a prática do bem, a caridade, o
perdão, a vigilância dos pensamentos e o esforço perseverante para superar
nossas imperfeições constituem recursos importantes para elevar nossa sintonia
espiritual.
A grande lição da questão 459 pode ser resumida desta
maneira:
Somos influenciados, mas não somos escravos da
influência.
Os Espíritos podem sugerir, inspirar e estimular; porém,
cabe a nós acolher ou rejeitar suas sugestões e escolher o caminho que
desejamos seguir.
Compreender isso é assumir uma das mais belas
responsabilidades ensinadas pelo Espiritismo: a transformação espiritual
começa dentro de nós e depende das escolhas que fazemos todos os dias.