sábado, 24 de agosto de 2024

Espiritismo e Umbanda

 


Espiritismo e Umbanda

Por Jackelline Furuuti

Você já deve ter notado em alguns textos, reuniões ou livros espíritas, a presença de espíritos que identificam-se como “Pretos Velhos”, “Caboclos”, “Exus”, “Pombagiras”, entre outras denominações mais comuns na Umbanda. Esse fato causa certos questionamentos nos Espíritas e, este artigo vem humildemente, trazer um breve estudo das similaridades e diferenças entre o Espiritismo e a Umbanda para que você possa entender O QUE LIGA uma à outra.

Claro, não há a menor pretensão de impor tais informações como verdades absolutas, mas sim, aproveitar a oportunidade e compartilhar informações encontradas sobre este assunto em livros, sites e, PRINCIPALMENTE, VIVÊNCIAS em ambos os campos doutrinários, para que você possa ter uma base interessante sobre o assunto e buscar entender cada vez mais sobre o tema.

Mas será que existe alguma ligação entre Espiritismo e Umbanda?

A resposta é SIM!

Para respondermos esta pergunta de forma mais profunda, precisaremos voltar um pouco no tempo...

No ano de 1908, um jovem chamado Zélio Fernandino de Morais passou a apresentar “sintomas” estranhos. Ele assumia uma postura arqueada, com caminhar e fala lentos como uma pessoa idosa ou de maneiras diferentes do que era comum à sua personalidade. Foi levado ao médico e sem sucesso no diagnóstico, a recomendação feita foi a de que Zélio fosse levado a um padre, pois descartada a hipótese de distúrbio psiquiátrico, a suspeita era de que tratava-se de possessão. O exorcismo tampouco surtiu efeito, então seus pais o levaram em uma senhora curandeira que, com a mediunidade de incorporação, incorporou um Preto Velho, que orientou o jovem e a família, que estes fenômenos se tratavam de mediunidade.

O pai do jovem já tinha conhecimento básico da doutrina e o levou à Federação Espírita de Niterói. A convite do dirigente da Instituição, Zélio se sentou à mesa em que ocorreria a reunião mediúnica.

Quebrando o “protocolo”, Zélio levantou-se e disse que faltava uma flor na mesa e foi buscar. Em meio a este ato “novo”, houve uma movimentação diferenciada, e Zélio incorporou um Caboclo enquanto, simultaneamente, os médiuns da mesa, começaram a incorporar espíritos de Caboclos e Pretos Velhos, ao que prontamente o dirigente da sessão fez advertência.

Foi quando indagou o espírito do Caboclo que se manifestou em Zélio:

"Por que repelem a presença desses espíritos, se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens? Será por causa de suas origens sociais e da cor?”

Havia um médium vidente na mesa que, inquieto, questionou o que via. Sua mediunidade mostrava a ele um espírito iluminado de um Jesuíta e isso lhe causava estranheza, pois, por que um espírito de tanta luz se manifestaria com vocabulário tão “deficiente”?  Queria saber qual o nome seria dado e assim perguntou sendo prontamente respondido:

“Se julgam atrasados esses espíritos dos negros e dos índios, devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho para dar início a um culto em que esses negros e esses índios poderão dar a sua mensagem e assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados.

O que você vê em mim são restos de uma existência anterior. Fui padre e o meu nome era Gabriel Malagrida. Acusado de bruxaria, fui sacrificado na fogueira da Inquisição em Lisboa, no ano de 1761. Mas em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como Caboclo brasileiro. E se querem saber meu nome que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque não haverá caminhos fechados para mim”.

Muitas dúvidas foram esclarecidas e, dentre elas, como essa nova religião se propagaria, e como ela seria. Ao que ele também respondeu:

“Colocarei uma condessa em cada colina que atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei.”

E na noite seguinte, pontualmente às 20h, quando já estavam presentes na reunião membros da Federação Espírita, amigos e familiares, o Espírito do Caboclo se manifestou e disse:

“Aqui se inicia um novo culto em que os espíritos de pretos velhos africanos, que haviam sido escravos e que desencarnaram não encontram campo de ação nos remanescentes das seitas negras, já deturpadas e dirigidas quase que exclusivamente para os trabalhos de feitiçaria, e os índios nativos da nossa terra, poderão trabalhar em benefícios dos seus irmãos encarnados, qualquer que seja a cor, raça, credo ou posição social. A PRÁTICA DA CARIDADE no sentido do amor fraterno será a característica principal deste culto, que tem base no Evangelho de Jesus e como mestre supremo Cristo.

Assim como Maria acolhe em seus braços o filho, a tenda acolherá aos que a ela recorrerem às horas de aflição; todas as entidades serão ouvidas, e nós aprenderemos com aqueles espíritos que souberem mais e ensinaremos aqueles que souberem menos e a nenhum viraremos as costas e nem diremos não, pois esta é a vontade do Pai”.

Após esta data a Umbanda foi amplamente disseminada.

QUAL A ORIGEM DA PALAVRA “UMBANDA”?

Estudos mais aprofundados apontam a origem do nome “Umbanda”:

"Umbanda" ou "embanda" são oriundas da língua quimbunda de Angola, significando "magia", "arte de curar". Há também a suposição de uma origem em um mantra na língua adâmica, cujo significado seria "conjunto das leis divinas" ou "Deus ao nosso lado".

Também era conhecida a palavra "mbanda" significando “a arte de curar” ou “o culto pelo qual o sacerdote curava”, sendo que "mbanda" quer dizer “o Além, onde moram os espíritos”.

Após o Congresso de 1941, declarou-se que "umbanda" vinha das palavras do sânscrito aum e bhanda, termos que foram traduzidos como "o limite no ilimitado", "Princípio divino, luz radiante, a fonte da vida eterna, evolução constante" (WIKIPEDIA).

Como se pode notar, embora a anunciação desta religião seja relativamente recente, sua origem pode ser considerada muito antiga.

A Umbanda é UNIVERSALISTA, portanto, possui diversas ramificações como as católicas, indígenas, orientais, africanas e ESPÍRITAS, trazendo o acolhimento para quem a buscar, por meio da familiarização de crenças e acolhendo o que cada religião tem para contribuir com a evolução espiritual e moral da humanidade.

Agora que já sabemos um pouco mais sobre a Umbanda, podemos continuar nossas “comparações” e entender porque os terreiros utilizavam o termo “Espírita” em seus nomes, porque foi em uma sessão Espírita que ela foi anunciada em maiores proporções.

Hoje ainda existem terreiros que adotam este termo, porém, o correto seria, por exemplo: Tenda Espiritualista (ou de Umbanda) Caboclo Pena Branca ao invés de Centro Espírita Caboclo Pena Branca. Compreendamos que estas são adequações que gradativamente ocorrerão, no ritmo que a espiritualidade entender que deve seguir.

Apesar de ter sido anunciada em uma sessão Espírita, a Umbanda possui muitas DIFERENÇAS do Espiritismo.

Vejamos algumas DIFERENÇAS:

A UMBANDA:

-Tem culto ritualístico

RITUAL: conjunto de gestos, palavras e FORMALIDADES, geralmente imbuídos de um valor simbólico, cujo desempenho é, USUALMENTE, prescrito e codificado por uma religião ou pelas tradições da comunidade.

O Espiritismo não possui ritual, mas a organização diária do Evangelho no lar, em horário sempre igual, com início e fim com preces específicas, não deixa de ser um ritual, uma organização de atos. Iniciar e finalizar um passe ou uma palestra com uma prece, também não deixa de ser uma espécie de rito.

-A Umbanda tem liturgia própria;

-Possui organização hierárquica;

-Na maioria dos terreiros, vestem-se de branco e trabalham de pés descalços, alguns trabalham calçados, em outros, trabalham vestidos com cores representando as respectivas linhas de trabalho;

-Pode trabalhar com imagens;

-Serve-se dos mecanismos da mediunidade podendo utilizar como ferramentas de trabalho objetos como: talismãs, amuletos, patuás, guias, velas, alimentos e elementos da natureza;

O Espiritismo não trabalha com sacralização de objetos, mas o processo de fluidificação da água muito se assemelha ao ato dos umbandistas consagrarem seus banhos, objetos, alimentos e chás.

-Tem uso de grafias sagradas (ponto riscado);

-Tem orações em forma de músicas (pontos cantados);

-Pode aliar ou não aos pontos cantados, o uso de instrumentos musicais como, por exemplo: berimbau, agogô, atabaque (uso mais comum), pandeiro entre outros;

-Trabalha com defumação de espaço e aura dos consulentes;

-Emprega vocabulário adaptado para diversas solenidades, atos, cerimoniais, sacralização, benzimentos, ritos, objetos e a tudo que se relaciona a seu culto.

A Umbanda, diferentemente do Espiritismo, não possui uma codificação. Por ser universalista, em alguns terreiros (templo, casa ou centro), a base mais forte pode ser a Espírita, em outros, pode ser a base africana, alguns terreiros (menos comum), sequer são Cristãos.

QUAIS SÃO ENTÃO, AS SEMELHANÇAS ENTRE O ESPIRITISMO E A UMBANDA?

Deixemos claro que o umbandista PODE ser Espírita ou NÃO, mas TODAS as vertentes da Umbanda são ESPIRITUALISTAS, ou seja, acreditam na vida fora da matéria.

Trataremos com maior ênfase nas semelhanças do Espiritismo com a Umbanda que se baseia nos princípios Cristãos que é a mais comum entre os adeptos desta religião, mas informar-se a respeito das outras vertentes é extremamente recomendável, pois o saber nunca é demais e contribui para a extinção da intolerância.

SEMELHANÇAS ENTRE O ESPIRITISMO E A UMBANDA:

-Crença na imortalidade da alma e reencarnação;

-São Monoteístas. A Umbanda também acredita em um Deus supremo. Diferente do que muitos pensam, os Orixás na Umbanda são considerados os Engenheiros Astrais, as forças das emanações de Deus na Terra através da natureza;

-Trabalha com a manifestação de fenômenos espirituais e extrafísicos;

-Realiza o desenvolvimento das faculdades mediúnicas;

-Acredita na Lei de Causa e Efeito;

-Ensinamentos através de Espíritos de consciências mais elevadas que a nossa;

-Doutrinação de almas e espíritos sofridos, obcecados, revoltados, desorientados, atrasados, estacionados, adormecidos, perturbados, viciados.

-Cura através de passes espirituais e/ou magnéticos;

-Doação e manipulação de ectoplasma;

-Uso de água fluidificada;

-Estudo de amplo alcance religioso, físico, filosófico, psicológico e doutrinário por diversos meios como: livros, internet, vídeos, palestras, ensinamentos através da mediunidade, vivências interpessoais e “interespirituais” em desdobramentos, o que ocorre quando a alma se emancipa e, livre do peso da matéria corpórea, interage naturalmente com o plano espiritual.

-Reforma íntima;

-Não cobram pelas sessões, passes, atendimentos e trabalhos de qualquer natureza;

-Respeita a Lei do Livre Arbítrio, logo, amarrações, aconselhamentos ou qualquer trabalho que venha a prejudicar quem quer que seja, infringe a Lei Divina e foge dos princípios da Umbanda e também do Espiritismo. Existe uma frase muito famosa de um Caboclo no meio umbandista que diz: “A Umbanda não é responsável pelos absurdos praticados em seu nome, assim como Jesus Cristo não é responsável pelos absurdos que foram e que são praticados em seu nome e em nome de seu Evangelho”

-NÃO REALIZA O SACRIFÍCIO ANIMAL (os templos que possuem raízes africanas mais fortes, sem ligação cristã, podem ou não realizar o sacrifício). Sobre este assunto, o LIVRO DOS ESPIRITOS DE ALLAN KARDEC, NOS ORIENTA DA QUESTÃO 669 À QUESTÃO 673.

Importante esclarecer que os espíritos que se manifestam na Umbanda, utilizam-se de ARQUÉTIPOS populares e organizam-se em LINHAS que trabalham em áreas edificantes de diversas formas. A ESPIRITUALIDADE É UMA SÓ e de inteligência ilimitada, usufruindo de didática fantástica para que a mensagem de Deus tenha alcance em todos os níveis de consciência. Por isso, um espírito evoluído pode escolher trabalhar com o arquétipo de um Preto Velho, por exemplo. Para trazer ensinamentos de maneira simples e eficaz, com a rica oportunidade de utilizar de suas experiências nestas encarnações humildes e muitas vezes sofridas, grandes lições de superação, crescimento moral e espiritual.

Em verdade, os espíritos que trabalham na Umbanda, assim como os que trabalham no Espiritismo (muitos espíritos atuam nos dois), não precisam de nenhum item material, quem precisa SOMOS NÓS, mas eles respeitam nossas necessidades. Se eles percebem que precisamos de uma vela para nos conectar com a espiritualidade, eles usarão a vela, se eles percebem que precisamos ter conosco um objeto magnetizado pelo poder do pensamento, eles irão manipular sim, amuletos e talismãs com seus fluídos que a Física Quântica vem nos esclarecendo a sua potencialidade para que todo e qualquer instrumento contribua com auxílio do necessitado. Dizer que não precisamos mais de nada ainda é uma ilusão. Todos nós, uns mais outros menos, ainda somos apegados à matéria. Um exemplo bem simples são as fotografias que utilizamos para matar a saudade e rememorar pessoas ou acontecimentos. São meios facilitadores de conexão. Ainda são importantes pra gente.

Em resumo, a grande e mais bonita SEMELHANÇA que estes dois divinos ELOS com Deus possuem é a PRÁTICA DO BEM E DA CARIDADE!

Nós, enquanto médiuns, podemos contribuir com a evolução uns dos outros, seja em qual religião for, com amor e atitudes verdadeiras.

Devemos em qualquer situação, RESPEITAR AS DIFERENÇAS e nos APEGAR às semelhanças, confiando nos desígnios da misericórdia e justiça divina para o que sair dos propósitos de Deus.

TODA RELIGIÃO É IMPORTANTE, em todas elas existem espíritos de todas as ordens, todos possuem utilidades importantes para o progresso e nenhuma porta que se abre em nome do amor deve ser desprezada.

Cabe a cada um de nós em nossas crenças, seguir a mais sublime e poderosa LEI:

Amarmos uns aos outros como a nós mesmos e termos sempre as portas abertas a todos os nossos irmãos, ainda que ele seja ateu, pois em tudo e em cada um de nós, sem exceção, está Deus.

Fontes e referências:

Curso gratuito de Iniciantes da Umbanda - Casa D.E.U.S. anos 2015 e 2018, presidido pela médium dirigente Sônia Cadenazzi e Tacilla Cadenazzi;

Wikipédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Umbanda#cite_note-FOOTNOTEBARBOSA_JR.201418-21)

O Livro dos Espíritos de Allan Kardec – FEB;

A Bíblia Sagrada;

Ensinamentos de diversos espíritos trabalhadores da Umbanda por manifestação mediúnica de incorporação.

 Considerações Espíritas




quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Espiritismo e protestantismo

 


A reforma Protestante e o Espiritismo

Por André Luiz Alves Jr.

O processo das reformas religiosas teve início no século XVI em decorrência dos abusos cometidos pela Igreja Católica e uma mudança na visão de mundo, fruto do pensamento renascentista que emergia na época. A burguesia comercial estava em plena expansão e a igreja condenava os lucros do crescente capitalismo. Por outro lado, os reis europeus estavam infelizes com o papa, que cada vez mais interferia nas decisões políticas dos países do velho mundo. A igreja estava perdendo sua identidade e acabou cedendo espaço para uma reforma que mudaria o curso da história.

No século XVI uma grande revolução eclesiástica ocorreu na Europa Ocidental, levando a mudanças consideráveis na esfera religiosa que, durante todo o período medieval, estivera sob o domínio da Igreja Católica. Essa revolução nas mentalidades teve tanto causas políticas como religiosas. Muitos monarcas estavam insatisfeitos com o enorme poder que o papa exercia no mundo, ao mesmo tempo que muitos teólogos criticavam a doutrina e as práticas da Igreja, sua atitude para com a fé e seu feitio organizacional. Ideias e razões distintas deram origem a diversas comunidades eclesiais novas. (HELLEN, V., NOTAKER, H. E GAARDER, J. O Livro das religiões. Item: A reforma protestante.)

Há 500 anos, novas doutrinas religiosas surgiram trazendo outras perspectivas para o Cristianismo, que até então era monopólio da Igreja Católica. Essas doutrinas atravessaram os séculos e permanecem vivas até hoje, com novos desafios e em plena expansão.

A Pré-reforma

A pré-reforma foi o período que antecedeu a Reforma protestante. Teve início no final do século XIII e se estendeu a meados do século XVI. Suas bases ideológicas serviram como referência para a Reforma de Martinho Lutero. Podemos destacar nomes como o de Pedro Valdo, que se converteu ao Cristianismo e viveu ajudando os pobres, tomando por base apenas os ensinamentos bíblicos. Seus seguidores ficaram conhecidos como Valdenses e se reuniam às escondidas para evitar a perseguição da Igreja.

O teólogo e professor da Universidade de Oxford John Wycliffe reivindicava o retorno da Igreja primitiva limitando o clero apenas a questões religiosas, deixando a política para o Estado. Wycliffe defendia a pobreza dos padres e os organizou em grupos para divulgar os ensinos de Cristo.

Outro grande pré-reformador foi o sacerdote e intelectual da Universidade de Praga Jan Huss (última reencarnação de Hippolyte Léon Denizard Rivail, antes de retornar como Allan Kardec). Ele lutou pela verdade cristã e contra a corrupção na Igreja. Defendia que o poder papal só podia ser obedecido se estivesse de acordo com as leis divinas e que a fé deveria ser baseada apenas nas escrituras do Novo Testamento. Seus seguidores ficaram conhecidos como Hussitas; dentre eles, enfatizamos Jerônimo de Praga. Huss foi excomungado, julgado e morto na fogueira, na cidade de Constança. Morreu cantando o cântico de Davi [Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim].

Em plena época de preconceito e intolerância, Jan Huss foi considerado o primeiro mártir da liberdade religiosa, dezesseis anos antes de a francesa Joana d’Arc (1412-1431) ser queimada viva pelo mesmo motivo, e mais de cem anos antes do teólogo alemão Martinho Lutero apresentar suas 95 Teses, em 1517.

A Reforma

Em 31 de outubro de 1517, o sacerdote Martinho Lutero havia pregado 95 teses contra o Catolicismo, em frente da igreja do castelo na cidade alemã de Wittenberg. Essas teses eram contestações às leis e dogmas da Igreja que Lutero considerava abusivas. O monge propunha uma disputa escolástica[1] sobre a venda de indulgências[2] e defendia o fim do celibato, da adoração de imagens e das missas rezadas em latim.

Com o advento da imprensa gráfica na época, as ideias luteranas foram rapidamente reproduzidas e difundidas na Europa, o que evidentemente incomodou a Igreja, que logo se voltou contra Lutero. Inicialmente o sacerdote foi condenado por heresia e em agosto de 1518 o processo foi alterado para heresia notória. Finalmente em janeiro de 1521, Lutero foi excomungado. O monge se exilou na igreja de Wittenberg por um ano e nesse período dedicou-se a traduzir a Bíblia para o idioma alemão.

As manifestações de apoio a Matinho Lutero foram imediatas. Sacerdotes de diversas localidades renunciaram ao voto de castidade, acabaram com as missas e adorações de imagens, dentre outras ações. A Igreja começou a sofrer golpes mais fortes porque alguns príncipes ambiciosos se aproveitaram do movimento das massas para confiscar bens preciosos da instituição religiosa. Numerosos camponeses empolgados pelos direitos do pensamento livre iniciaram grande campanha contra a Igreja exigindo reformas agrárias e sociais em nome do Evangelho. Essa rebelião ideológica provocou o conflito armado que ficou conhecido como a Guerra dos Camponeses (1524-1525). Em 1525 Lutero casou-se com Catarina de Bora, monja cisterciense apóstata, e teve seus filhos.

Alguns anos mais tarde, Ulrico Zuinglio iniciou a Reforma na Suíça, posteriormente João Calvino tratou de consolidá-la, surgindo daí o Calvinismo. Na Inglaterra a Reforma foi proferida pelo monarca Henrique VIII, que desejava satisfazer suas necessidades políticas. Henrique era casado com Catarina de Aragão, que não lhe havia dado um filho homem. O imperador então solicitou ao papa Clemente VII a anulação do seu casamento. Perante a recusa do papado, Henrique fez-se proclamar, em 1531, protetor da Igreja inglesa. O Ato de Supremacia, votado no parlamento em novembro de 1534, colocou Henrique e seus sucessores na liderança da Igreja, nascendo assim o Anglicanismo.

Posteriormente a Reforma chegou aos países baixos, estendendo-se por todo o continente europeu.  Nascia naquele tempo o protestantismo com seus princípios fundamentais: Sola scriptura (Somente a Escritura), Sola gratia (Somente a Graça ou Salvação), Sola fide (Salvação Somente pela Fé), Solus Christus (Somente Cristo), Soli Deo gloria (Glória somente a Deus).

A Contrarreforma

A Contrarreforma foi o movimento iniciado pela Igreja Católica a partir de 1545 em resposta à Reforma protestante. Também é denominada Reforma Católica. Houve um esforço teológico, político e militar para conter a expansão do protestantismo. Seus objetivos eram espalhar a fé católica em regiões não cristianizadas, conter o avanço dos protestantes e modernizar a Igreja.

Foi um período marcado por conflitos que envolveu metade da Europa, como a Guerra dos 30 anos (1618-1648), que demarcou os territórios e fronteiras políticas e religiosas das duas vertentes do cristianismo (catolicismo e protestantismo).

A Contrarreforma se destacou pela convocação do Concílio de Trento, que determinou a retomada do Tribunal do Santo Ofício (Tribunais de Inquisição), além da criação do Index Librorum Prohibitorum, uma lista que relacionava os livros proibidos pela Igreja (livros de ciências, bruxaria e, claro, literatura protestante). O Concílio reafirmou a autoridade papal, a manutenção do celibato e a confirmação da Bíblia Vulgata (em latim) como a versão oficial da Igreja. Determinou ainda o incentivo a catequese e a criação de novas ordens religiosas, dentre elas a Companhia de Jesus (os Jesuítas), fundada por Inácio de Loiola.

Nesse período de Contrarreforma, a Europa atravessou um tempo sombrio proporcionado pela Igreja Católica, que foi a expansão da Inquisição, que já existia desde o século XIII na França, com o objetivo de combater heresias. Com a chegada dos Tribunais do Santo Ofício à Espanha e Portugal, milhares de protestantes foram perseguidos, torturados, julgados e mortos pela Igreja.

A perseguição não se limitou aos protestantes, pois se estendeu aos judeus, muçulmanos, artistas, pensadores e cientistas, ou seja, a qualquer pessoa que fosse capaz de contestar publicamente as ideias da Igreja.

A importância da Reforma Protestante e seus impactos políticos e religiosos

A reforma protestante teve um impacto significativo na história, traçando os novos rumos políticos, econômicos e religiosos da humanidade. A Igreja, até então, exercia um papel controlador na política, na economia, nas ciências e nas artes. O papa era uma figura religiosa e política e opinava em diversas decisões. Após a grande Reforma o poder da Igreja se declinou entre as monarquias europeias. Houve um fortalecimento dos princípios sociais e econômicos da burguesia, que passaram a ser sustentados pela aprovação do lucro, que antes a Igreja combatia.

No campo religioso a reforma de Lutero proporcionou o surgimento de outras vertentes do Cristianismo. A Igreja Católica, na época, dividia espaço apenas com a Igreja Ortodoxa, que tinha seus maiores domínios na região oriental. Com o advento do protestantismo nasceram as Igrejas Luterana, Anglicana, Presbiteriana e Batista, que se multiplicaram e se ramificaram em outras denominações. Hoje os protestantes contabilizam 40% dos cristãos em todo o mundo.

A Reforma Protestante e o Espiritismo

Os espíritas compreendem que a Reforma Protestante foi uma preparação para a chegada da Doutrina Espírita, o Consolador Prometido. Assim como o Cristo veio para cumprir a Lei professada por Moisés, a Doutrina Espírita não veio desdizer os ensinamentos do Mestre, mas desenvolvê-los, completá-los e explicá-los, sem alegorias.

A Reforma e os movimentos que se lhe seguiram vieram ao mundo com a missão especial de exumar a “letra’’ dos Evangelhos […] a fim de que, depois da sua tarefa, pudesse o Consolador prometido, pela voz do Espiritismo cristão, ensinar aos homens o “espírito divino’’ de todas as lições de Jesus. (XAVIER, F.C. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. Questão 295).

O espírito Humberto de Campos através da mediunidade de Chico Xavier, em uma mensagem publicada pela revista “Reformador” na edição de setembro de 1978, narra que o espírito de Jan Huss (1369-1415), um dos mais importantes pré-reformadores, recebeu instruções de Jesus antes de retornar ao plano físico como Allan Kardec (1804-1869), para codificar a Doutrina Espírita.

“Não serás portador de invenções novas, não te deterás no problema de comodidade material à civilização, nem receberás a mordomia do dinheiro ou da autoridade temporal, mas deponho-te nas mãos a tarefa sublime de levantar corações e consciências. É indispensável estabelecer providências que amparem a fé, preservando os tesouros religiosos da criatura. Confio-te a sublime tarefa de reacender as lâmpadas da esperança no coração da humanidade.

O Evangelho do Amor permanece eclipsado no jogo de ambições desmedidas dos homens viciosos! …. Vai, meu amigo. Abrirás novos caminhos à sagrada aspiração das almas, descerrando a pesada cortina de sombras que vem absorvendo a mente humana. Na restauração da verdade, no entanto, não esperes os louros do mundo, nem a compreensão dos teus contemporâneos.”

[…]

(Jesus dirigindo-se a Jan Huss no plano espiritual, antes de Huss reencarnar como Allan Kardec, como narra o Espírito Humberto de Campos em mensagem publicada pela revista “Reformador” em setembro de 1978).

Traçando um paralelo entre as duas personalidades, encontramos várias semelhanças que reafirmam a doutrina da reencarnação. Jan Huss foi reformador da língua do seu país, como lexicógrafo emérito, tradutor do idioma tcheco. Já Allan Kardec, além de talentoso educador, foi também tradutor de livros para diferentes idiomas. Huss viu algumas de suas obras serem queimadas pela Igreja em praça pública, assim como Kardec teve 300 exemplares de obras espíritas incineradas em um ato que ficou conhecido como o auto da fé de Barcelona. Observemos também o período exato de 500 anos entre a data de nascimento de Huss e a de desencarnação de Kardec. Portanto, estamos convencidos de que o mesmo espírito, em diferentes épocas, esteve comprometido com a Doutrina do Cristo, primeiro trabalhando em defesa do Novo Testamento e posteriormente na edificação do cristianismo redivivo, através da codificação da Doutrina Espírita, o que nos leva a crer que a Reforma Protestante foi necessária para o surgimento do Espiritismo.

A grande reforma foi a origem da retomada do cristianismo que estava sendo desvirtuado pelos representantes católicos da época, em decorrência da depravação da natureza humana. A Igreja utilizava a fé como instrumento de dominação e foi capaz de cometer atrocidades em nome de Deus para manter o seu poder. Entendendo todo esse contexto, a plêiade dos espíritos de luz, sob a égide de Jesus, julgou ser necessária a divisão do cristianismo para garantir a sua expansão e mais tarde, através do Espiritismo, trazer de volta a ideia principal da doutrina cristã, como nos tempos dos discípulos de Jesus. Certamente, se a filosofia cristã permanecesse apenas sob os domínios da igreja romana, o pensamento cristão estaria comprometido. Eis que então a espiritualidade organizou a vinda de missionários para restaurar o cristianismo e garantir sua propagação.

O plano invisível determina, assim, a vinda ao mundo de numerosos missionários com o objetivo de levar a efeito a renascença da religião […]. Assim, no século XVI, aparecem as figuras veneráveis de Lutero, Calvino, Erasmo, Melanchton e outros vultos notáveis da Reforma, na Europa Central e nos Países Baixos. XAVIER, F.C. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. Cap. 20.

Não somente no campo religioso, mas também na ciência, na política e nas artes (renascimento e iluminismo, retornavam ao plano físico espíritos encarregados de trazer novas ideias e mudar a visão distorcida que se tinha sobre diversos assuntos. Nicolau Copérnico (1473-1543), por exemplo, foi o primeiro a contradizer a Igreja ao afirmar que a Terra não era o centro do universo, teoria confirmada mais tarde por Galileu Galilei (1564-1642).

A […] ideia da reforma não estava só na cabeça de Lutero, mas na de milhares de cabeças, de onde deveriam sair homens capazes de a sustentar. KARDEC, Allan. Revista espírita. Jornal de estudos psicológicos. Ano de 1866, agosto, p. 321

Referências

XAVIER, Francisco Cândido. A caminho da luz: história da civilização à luz do Espiritismo. Pelo Espírito Emmanuel, de 17 de agosto a 21 de setembro de 1938. 33. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Trad. de Guillon Ribeiro da 5. ed. francesa. 48. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

SEFFNER, Fernando. Da reforma à contra-reforma. Coleção História geral em documentos. São Paulo: Atual.

MARTINA, Giacomo. História da Igreja: de Lutero aos nossos dias. V. 1: A era da Reforma. São Paulo: Loyola, 1997.

XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

JOSTEIN, Gaarder. O Livro das Religiões. Jostein, Gaarde; Hellern, Victor; Notaker, Henry. Tradução: Isa Mara Lando; Revisão Técnica e Apêndice: Flávio Antônio Pierucci. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

CHAUNU, Pierre. O tempo das reformas (1250-1550): a Reforma protestante.Lugar na História, v. 49-50, Edições 70, 1993.

KARDEC, Allan. Revista espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano 12, n. 9, p. 372-374, set. 1869. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Precursores do Espiritismo – Jan Huss.

XAVIER, Francisco C. Lembrando Allan Kardec. Pelo Espírito Humberto de Campos. Reformador, ano 96, n. 1.794, p. 25(293)-26(294), set. 1978.

Nota

[1] Além de ser uma corrente filosófica, a Escolástica pode ser considerada um método de pensamento crítico que influenciou as áreas do conhecimento das Universidades Medievais. Nasceu nas escolas monásticas cristãs, de modo a conciliar a fé com um sistema de pensamento racional.

[2] Concessão de perdão divino para qualquer pessoa que pagasse por isso.

Espiritismo e protestantismo

Reflexão espírita


 

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