sábado, 7 de março de 2015

A Importância do Livro “O Céu e o Inferno”

Entrevista com Milton Felipeli sobre a importância do livro “O Céu e o Inferno” esclarecendo e destacando os seus principais aspectos doutrinários e educativos.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Parábola de Lázaro e o Rico



Por Leda Maria Flaborea


É um ensino alegórico, representativo do que se passa no plano espiritual, para afirmar que a nossa vida além-túmulo é uma consequência justa e equitativa da nossa existência na Terra.

A parábola fala do abismo entre os que livremente pautam suas escolhas no bem, no nobre e no belo, e os que, também, livremente, insistem em permanecer em atitudes de desequilíbrio, deboche e insensatez frente aos convites de mudanças propostos por Jesus.

É a escolha de cada um e, por isso mesmo, o Mestre nos fala das imutáveis leis divinas e de como o homem é o próprio criador do seu céu e do seu inferno.

Eis a parábola:

Um rico vivia luxuosamente em seu palacete, vestindo-se com finas roupas e banqueteando-se esplendidamente todos os dias. À porta de sua residência, jazia um pobre homem de nome Lázaro, coberto de feridas e com fome. Desejava catar as migalhas que caíam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava, e ele não podia mover-se para apanhá-las.

Um dia, o pobre Lázaro morreu e foi levado pelos anjos, ao seio de Abraão. Algum tempo depois, o rico também morreu e “foi sepultado”.

O texto conta que, no inferno, o rico “levantou os olhos”, não os olhos materiais, mas os do Espírito (destaque nosso), seguindo-se estranho diálogo entre ele e Abraão – representante do mundo espiritual, das regiões mais elevadas.

No meio dos seus sofrimentos, o rico pede a Abraão que mande Lázaro refrigerar-lhe a língua com uma gota de água, para aliviar um pouco suas agonias. Abraão, porém, nega-lhe o pedido, acrescentando que há um “abismo” entre os do inferno e os das alturas, de maneira que não há possibilidade de trânsito entre os dois níveis.

Em seguida, pede que mande Lázaro à casa de seu pai, para que conte aos cinco irmãos o que está acontecendo, para que não tenham que vir para o mesmo lugar. Mais uma vez, Abraão diz que eles têm Moisés e os profetas e que se eles não conseguem ouvi-los, como escutarão alguém que já morreu?

Como todas as parábolas de Jesus, esta também tem endereço certo.

O que se faz necessário, antes de qualquer coisa, é compreender o conceito de rico, segundo o ponto de vista do Mestre, pois a parábola fala de um rico egoísta e avarento, que não sabe aplicar de forma justa a riqueza que Deus colocou, transitoriamente, em suas mãos.

Em momento algum, refere-se aos ricos que fazem com que suas fortunas sejam fonte perene de bens, e que favorecem a todos que estão ao seu redor.

E o Evangelho adverte-nos que o homem não possui de seu senão aquilo que pode levar deste mundo. O que ele encontra ao chegar e deixa ao partir, goza durante sua permanência na Terra; mas, desde que seja forçado a deixá-los, é claro que só tem deles o usufruto.

Por ser mero depositário, administrador dos bens que Deus, por misericórdia, colocou em suas mãos, terá de prestar contas de como esses bens foram empregados.

Para entender melhor essa parábola, precisamos separar seus trechos.

1 – Assim, quando Jesus narra que há um abismo entre o inferno e o céu, não se refere, certamente, à impossibilidade de uma conversão após a morte, como se os sofrimentos fossem eternos e os gozos dos habitantes celestes sem-fim.

O texto não menciona uma só palavra, algo como “conversão” do sofredor. O que o rico pede é somente alívio das penas; não se mostra arrependido. Pensa em aliviar seu mal, sem se converter da sua maldade. Continua igual a como era na vida planetária.

Segundo o ponto de vista de Jesus, o que o rico sofredor pede não é possível em face da Lei de Justiça. Enquanto a maldade perdurar no seu íntimo, o mal persistirá nos seus atos e pensamentos.

O interessante é que ele não solicita nova encarnação para a remissão dos seus enganos; não solicita que seus irmãos mudem a conduta diante de Lázaro redivivo, mas que eles não venham a sofrer o que ele está sofrendo.

Diante da solicitação, Abraão fez ver que eles não estão com vontade de se converterem, pois sequer atendem a Moisés e aos profetas.

2 – podemos perceber que a pretensa dissociação entre culpa e pena, entre causa e efeito, entre maldade e mal, é absolutamente impossível em face das leis divinas. Por isso, Abraão diz existir um grande abismo entre uns e outros.

É importante salientar que esse abismo não é criação de Deus, mas é cavado pelo próprio homem. Deus não fez nenhum céu e nenhum inferno para o homem. É o livre-arbítrio humano o responsável por eles.

Por essa razão, céu e inferno não são lugares geograficamente localizados no além-túmulo, mas, sim, estados da consciência, criações humanas que determinam sofrimentos ou bem-aventuranças.

Jesus nos disse que o Reino dos Céus está dentro de nós e o reino do inferno também pode estar. Portanto, é tolice imaginar que desencarnados tornam-se anjos, se não mudarem a mentalidade enquanto estiverem encarnados. Somos o que somos, aqui e além.

A morte do corpo não destrói os sentimentos inferiores, negativos, que abrigamos no Espírito. Quem vivia ligado às coisas da matéria, sem se incomodar com as coisas de Deus, continuará, no plano espiritual, a ser alguém ligado à matéria e, agora, sofrendo.

Por essa razão, existe esse abismo entre os dois mundos da parábola. Então, enquanto esse homem materialista não modificar seus sentimentos, retornará ao círculo da matéria tantas vezes quantas forem necessárias, até que se modifique.

A cada nova vivência, será despertado para novos valores. “Somente um novo compreender, um novo querer, um novo viver é que podem redimir o homem de suas maldades, e, finalmente, de todos seus males.” (Huberto Rohden)

3 – A parábola do rico avarento e do pobre Lázaro encerra, ainda, outra visão:

Há quem pense que o sofrimento seja fator de redenção. Nenhum sofrimento em si redime o homem, mas, sim, a atitude do homem face ao sofrimento: desespero, revolta ou aproveitamento da lição bendita. Dois caminhos e uma escolha...

Um encara as dificuldades com otimismo, porque tem fé na Providência Divina, nos bons Espíritos e em si mesmo. Sabe que é filho de Deus com infinitas possibilidades de vencer, em cada fase evolutiva, apesar das dificuldades inerentes a ela.

O outro revolta-se ante os problemas: não aceitação, desesperança, transfere para os outros, inclusive a Deus, as responsabilidades que nos são próprias.

Com isso, acabamos por acrescentar um quadro de desequilíbrios, forjados por nós mesmos, frutos das nossas escolhas descabidas, com desejos e caprichos de todas as ordens. Com essa atitude, perde-se o fruto da bênção que poderia aliviar e até mesmo anular as penas em reencarnações vindouras.

O Mestre nos ensina, então, a entender o valor educativo das aflições. No início doem, machucam a alma, como o aluno que é reprovado. Mas, após vencer as primeiras provas, as lutas seguintes transformam-se em alimento espiritual, porque entendemos que só através do trabalho diário de renovação, contra nossas imperfeições, podemos nos melhorar.

Portanto, “o simples fato de ser rico não constitui obstáculo irremovível para os Espíritos que descem à Terra, assim como as palavras de Jesus não representam a proclamação automática da salvação dos pobres de bens materiais” (P. Alves Godoy). O “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus” não significa o rico de bens materiais, mas o rico em orgulho, egoísmo, avareza, cobiça.

Quantos ricos há que podem ser considerados Lázaros da parábola; e quantos pobres podem ser considerados os ricos.

O sofredor da parábola não se converteu com os sofrimentos pelos quais passava. Podia querer e não o fez. A alma sem o corpo físico pode converter-se quando quiser, pois o livre-arbítrio – o direito de escolhas – é atributo do Espírito e não da matéria.

A ideia comodista e irresponsável de que “a carne é fraca” sucumbe diante dessa afirmação. A carne não é fraca; fraco é o Espírito que não luta contra as tentações.

E onde buscar a força, a coragem para essa luta? Em Jesus. Na prece sentida, acreditando que não há órfãos na Criação e que somos capazes de vencer as atribulações.

“Vinde a mim vós todos que estais atribulados e eu vos aliviarei.” Busquemos, pois, Jesus.



Bibliografia:

1. ROHDEN, Huberto. Sabedoria das Parábolas – 12ª ed., Editora Martin Claret – São Paulo/SP, 1997, p. 35.

2. GODOY, Paulo Alves. As Maravilhosas Parábolas de Jesus – 9ª ed., Edições FEESP – São Paulo/SP – 2008 – p. 74.

3. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo – Cap. V e XVI.

4. SCHUTEL, Cairbar – Ensinos e Parábolas de Jesus – 14ª ed., Casa Editora O Clarim – Matão/SP – 1997 – 1ª Parte – p. 104.

terça-feira, 3 de março de 2015

Sobre Céu e Inferno



O que os Espíritos dizem sobre O Céu e o Inferno? Em O CÉU E O INFERNO, Allan Kardec aborda este tema com profundidade.

Para se obter uma visão geral, cito O Livro dos Espíritos, Livro IV, Cap. 2, Penas e Gozos Futuros, Item IX: Paraíso, Inferno, Purgatório, Paraíso Perdido, a saber:

Questão 1011. Um lugar circunscrito no Universo está destinado às penas e aos gozos dos Espíritos, de acordo com os seus méritos?

Resposta dos Espíritos: Já respondemos a essa pergunta. As penas e os gozos são inerentes ao grau de perfeição do Espírito. Cada um traz em si mesmo o principio de sua própria felicidade ou infelicidade. E como eles estão por toda parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado se destina a uns ou a outros. Quanto aos Espíritos encarnados, são mais ou menos felizes ou infelizes segundo o grau de evolução do mundo que habitam.

Questão 1012: De acordo com isso, o inferno e o paraíso não existiriam como os homens os representam?

Resposta dos Espíritos: Não são mais do que figuras: os Espíritos felizes e infelizes estão por toda parte. Entretanto, como já o dissemos também, os Espíritos da mesma ordem se reúnem por simpatia. Mas podem reunir-se onde quiserem, quando perfeitos.

Comentário de Kardec: A localização absoluta dos lugares de penas e de recompensas só existe na imaginação dos homens. Provém da sua tendência de materializar e circunscrever as coisas cuja natureza infinita não podem compreender.

Questão 1013. O que se deve entender por purgatório?

Resposta dos Espíritos: Dores físicas e morais: é o tempo da expiação. É quase sempre na Terra que fazeis o vosso purgatório e que Deus vos faz expiar as vossas faltas.

Comentário de Kardec: Aquilo que o homem chama purgatório é também uma figura pela qual se deve entender, não algum lugar determinado, mas o estado dos Espíritos imperfeitos que estão em expiação até a purificação completa que deve elevá-los ao plano dos Espíritos felizes. Operando-se essa purificação nas diversas encarnações, o purgatório consiste nas provas da vida corpórea.

Questão 1016. Em que sentido se deve entender a palavra Céu?

Resposta dos Espíritos: Crês que seja um lugar como os Campos Elísios dos antigos, onde todos os bons Espíritos estão aglomerados e confundidos, sem outra preocupação que a de gozar na eternidade uma felicidade passiva ? Não. E o espaço universal; são os planetas, as estrelas e todos os mundos superiores em que os Espíritos gozam de todas as suas faculdades, sem as atribulações da vida material nem as angústias inerentes à inferioridade.

Questão 1017. Disseram alguns Espíritos habitar o quarto, o quinto céu etc.; o que entendiam por isso?

Resposta dos Espíritos: Vós lhes perguntais que céu habitam, porque tendes a idéia de muitos céus sobrepostos como os andares de uma casa; então eles respondem de acordo com a vossa linguagem. Mas para eles as palavras “quarto, quinto céu ” exprimem diferentes graus de purificação e por conseguinte de felicidade. É exatamente como quando se pergunta a um Espírito se ele está no inferno. Se for infeliz dirá que sim, porque para ele inferno é sinônimo de sofrimento; mas ele sabe muito bem que não se trata de uma fornalha. Um pagão vos responderia que estava no Tártaro.

Comentário de Kardec: Acontece o mesmo com outras expressões análogas, tais como as de cidade das flores, cidade dos eleitos, segunda ou terceira esfera etc., que não são mais do que alegorias empregadas por certos Espíritos seja como figuras, seja por ignorância da realidade das coisas e mesmo das mais simples noções científicas.

Segundo a idéia restrita que outrora se fazia dos lugares de penas e de recompensas, e sobretudo de acordo com a opinião de que a Terra era o centro do Universo, que o céu formava uma abóbada na qual havia uma região de estrelas, colocava-se o céu no alto e o inferno em baixo. Dai as expressões: subir ao céu, estar no mais alto do céus, ser precipitado no inferno. Hoje que a Ciência demonstrou que a Terra não é mais do que um dos menores mundos entre tantos milhões de outros, e sem importância especial; que traçou a história da sua formação e descreveu a sua constituição, provando que o espaço é infinito, de maneira que não há nem alto nem baixo no Universo, faz-se necessário renunciar a colocar o céu acima das nuvens e o inferno nos lugares baixos. Quanto ao purgatório, nenhum lugar lhe havia sido marcado. Estava reservado ao Espiritismo dar sobre todas essas coisas a mais racional explicação, a mais grandiosa e ao mesmo tempo a mais consoladora para a Humanidade. Assim, podemos dizer que trazemos em nós mesmos o nosso inferno e o nosso paraíso e que encontramos o nosso purgatório em nossa encarnação, em nossas vidas corpóreas ou físicas.

Questão 1018. Em que sentido se devem entender as palavras do Cristo: “Meu reino não é deste mundo”?

Resposta dos Espíritos: O Cristo respondeu em sentido figurado. Queria dizer que não reina senão sobre os corações puros e desinteressados. Ele está em todos os lugares em que domine o amor do bem, mas os homens, ávidos das coisas deste mundo e ligados aos bens da Terra, não estão com ele.

Questão 1019. O reino do bem poderá um dia realizar-se na Terra?

Resposta dos Espíritos: O bem reinará na Terra quando, entre os Espíritos que a vêm habitar, os bons superarem os maus. Então eles farão reinar o amor e a justiça, que são a fonte do bem e da felicidade. É pelo progresso moral e pela prática das leis de Deus que o homem atrairá para a Terra os bons Espíritos e afastará os maus. Mas os maus só a deixarão quando o homem tiver banido daqui o orgulho e o egoísmo.

A transformação da Humanidade foi predita e chegais a esse momento em que todos os homens progressistas estão se apressando. Ela se realizará pela encarnação de Espíritos melhores, que constituirão sobre a Terra uma nova geração. Então os Espíritos dos maus, que a morte ceifa diariamente, e todos os que tendem a deter a marcha das coisas serão excluídos, porque estariam deslocados entre os homens de bem, cuja felicidade perturbariam. Irão para mundos novos, menos adiantados, cumprir missões penosas, nas quais poderão trabalhar pelo seu próprio adiantamento ao mesmo tempo que trabalharão para o adiantamento de seus irmãos ainda mais atrasados. Não vedes nessa exclusão da Terra transformada a sublime figura do Paraíso Perdido? E no homem que veio à Terra em condições semelhantes, trazendo em si os germes de suas paixões e os traços de sua inferioridade primitiva, a figura não menos sublime do pecado original ? Considerado dessa maneira, o pecado original se refere à natureza ainda imperfeita do homem que só é responsável por si mesmo e por suas próprias faltas, e não pelas dos seus pais.

Vós todos, homens de fé e de boa vontade, trabalhai, portanto, com zelo e com coragem na grande obra da regeneração, porque colhereis centuplicado o grão que tiverdes semeado. Infelizes dos que fecham os olhos à luz, pois preparam para si mesmos longos séculos de trevas e de decepções. Infelizes dos que colocam todas as suas alegrias nos bens deste mundo, porque sofrerão mais privações que os gozos que tenham tido. Infelizes sobretudo dos egoístas, porque não encontrarão ninguém para os ajudara carregar o fardo das suas misérias. (São Luís.)

domingo, 1 de março de 2015

Especial do Mês


O Manancial de Luz nesse mês homenageia os 150 anos de lançamento da quarta obra basilar da codificação espírita, O Céu e o Inferno". O especial dedica-se a postagens de artigos, textos, mensagens e vídeos que abordam o conteúdo do livro que teve dois dos seus capítulos previamente lançados por Alan Kardec na histórica Revista Espírita, consecutivamente nos meses de janeiro e março do ano de 1865.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Terra: um Mundo de Regeneração



Por Fabio Alessio Romano Dionisi


Muito se tem falado sobre a transição que vive a Terra, de um mundo de provas e expiações para um mundo de regeneração, mas pouco tem sido publicado sobre como serão a vida e o planeta quando tivermos atingido este estágio.

Curioso a respeito, fui em busca de informações para poder compor este quadro. Naturalmente, pesquisei na literatura espírita as obras consideradas de confiança, como as compostas por Allan Kardec, Francisco Cândido Xavier, Léon Denis, Cammile Flammarion, Gabriel Delanne e J. Herculano Pires, principalmente.

Não foi menor minha surpresa ao constatar que foi escrito muito pouco a respeito. Contudo, satisfazendo a minha curiosidade e o desejo de compartilhar com os meus caros leitores, segue o que encontrei. Este escrito está, portanto, baseado naquilo que estes nossos grandes missionários e benfeitores nos passaram.

E como, sem dúvida alguma, qualquer trabalho neste sentido tem que começar pela Codificação Kardequiana, apoiamo-nos em O Evangelho Segundo o Espiritismo1, obra do Pentateuco que mais cuida da descrição das cinco categorias de mundos, segundo a classificação criada pelo Mestre Lionês.

Lendo o capítulo mencionado na referência já citada, podemos listar as seguintes características mais importantes dos Mundos Regeneradores:

– São mundos de transição entre os de Provas e Expiações, como a Terra, e os Mundos Felizes;
– Nestes, já consciente de seus erros e imperfeições, o Espírito encontra a calma e o repouso necessários para completar sua purificação;
– Contudo, o homem ainda está sob forte influência da matéria, experimentando sensações e desejos; porém, já se encontra liberto das paixões desequilibrantes e, principalmente, isento do orgulho e da inveja que tanto grassa em nosso globo terrestre;
– Além disso, o homem sofre vicissitudes, por ser densa ainda sua matéria;
– A palavra “amor” está bem mais presente, não só em nossas bocas, mas em nossos corações;
– As relações sociais são caracterizadas pela justiça; existe igualdade, retidão e equanimidade entre as pessoas;
– Todos reconhecem Deus e tentam d’Ele se aproximar, através do cumprimento de Suas Leis Divinas;
– Mas é forçoso reconhecer que ainda não existe a felicidade perfeita; antevemo-la, mas não a vivemos em sua plenitude;
– Ainda suportamos provas, porém, as expiações não mais fazem parte de nossas vidas;
– Estes mundos representam a bonança após a tempestade, o restabelecimento após a enfermidade;
– O homem tem melhor compreensão sobre o destino que o aguarda, pois está menos absorvido pelas coisas materiais;
– Mas como “não avançar é recuar”, nestes mundos ainda existe o perigo da queda; o de retornarmos aos Mundos de Provas e Expiações, pois ainda falível é o homem...
Talvez fosse suficiente o que vimos até aqui, para descrever os Mundos de Regeneração; tanto que Kardec não desenvolve muito mais além do que citamos; todavia, diante da monumental obra de J. Herculano Pires2, O Espírito e o tempo, não podemos evitar de complementar com alguns pontos muito interessantes apontados pelo grande filósofo espírita.
– Na vivência de um mundo em regeneração, consolidar-se-á a solidariedade cósmica da humanidade terrestre, por um maior intercâmbio entre as esferas celestes. Não só através de maior migração encarnatória entre mundos similares e dissimilares, bem como pela via das comunicações interplanetárias; estas últimas, inauguradas por Kardec através das comunicações mediúnicas, como as de Mozart e Pallissy, já emigrados da Terra para mundos melhores.
– O próprio planeta Terra progredirá materialmente, acompanhando o progresso moral de seus habitantes.

“Quem pudesse seguir um mundo em suas diversas fases (...) vê-lo-ia percorrer uma escala incessantemente progressiva (...) e oferecer aos seus habitantes uma morada mais agradável (...). Assim, marcham paralelamente o progresso do homem, o dos animais (...), dos vegetais (...), porque nada é estacionário na natureza (...).”

Podemos entender sob duas formas de progresso: o naturalmente gerado pela intervenção do homem sobre a matéria, como, por exemplo, pela própria mudança decorrente da acomodação do planeta, que, pelo seu amadurecimento geológico, ou através de qualquer outra intervenção telúrica que possa ocorrer, proporcionarão melhores condições de vida à humanidade terrestre.
Sem nos esquecermos, acrescentaríamos a ação benéfica dos arquitetos espirituais sob as espécies vegetal, animal e hominal, tanto no afã de criarem estruturas cada vez mais evoluídas, como no intuito de desenvolverem melhores modelos organizacionais biológicos, a serem transplantados na face do globo terrestre, proporcionando corpos físicos condizentes com um mundo de regeneração.

– De um mundo de provas e expiação, onde prevalece a ordem social, onde os indivíduos são divididos em classes de acordo com suas posses ou poder, onde as relações entre os elementos constituintes da sociedade se baseiam praticamente em transações utilitárias, passaríamos para outro, um mundo de regeneração, regido por uma ordem moral – e, acrescentaríamos, ética.

“A humanidade regenerada, embora ainda não tenha atingido a perfeição relativa dos mundos felizes, viverá numa estrutura de relações do tipo moral. Os valores pragmáticos serão substituídos naturalmente pelos valores morais, porque o homem não mais valerá pelo que possui (...) ou [pelo] poder [que tenha em suas mãos] (...), mas pelo que revela em capacidade intelectual e aprimoramento espiritual.”

– Do egocentrismo social dos indivíduos atuais (egoísmo), passando pela prática da caridade, chegaríamos ao altruísmo moral; isto é, destruindo-se o egoísmo que grassa em nosso ser, aprenderíamos a praticar a caridade, a princípio na doação de haveres materiais (assistencialismo), o que nos facultaria chegarmos à caridade em toda sua amplitude (na prática de todas as virtudes com o nosso semelhante); desprendendo-nos, ensinando-nos a doar daquilo que está em nós mesmos; enfim, a praticar o altruísmo (moral).
“Mas, a prática da caridade não pode limitar-se à criação de serviços de assistência (...).”

E continuando:

“(...) verá as coisas de mais alto e aprenderá que o valor supremo e o supremo bem estão nas leis de Deus, que são a justiça, o amor e a caridade (...).”
O homem do futuro se dedicará a educar, e não mais apenas em instruir seu semelhante.

A transformação dos indivíduos será possível pelas vias da educação (Q 917)3: “A educação, se for bem compreendida, será a chave do progresso moral. Quando se conhecer a arte de manejar os caracteres, como se conhece a de manejar as inteligências, poder-se-ão endireitá-los, da mesma maneira como se endireitam as plantas novas”. Platão, Jean-Jacques Rousseau, Johann Heinrich Pestalozzi, Allan Kardec, entre outros, já de há muito haviam compreendido e preconizado esta única via...

E, por fim, J. Herculano Pires conclui: “O próprio Espiritismo é um gigantesco esforço de educação do mundo, para que a humanidade regenerada de amanhã possa substituir, o quanto antes, a humanidade expiatória de hoje”.

Estamos convicto de que nos falta ainda muita informação para podermos aferrar uma real compreensão do que viria a ser este Mundo de Regeneração; mas, o que Kardec e Herculano descrevem já é suficiente para que ansiemos por sua chegada...



1. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 129. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Cap. 3, itens 16 a 18.
2. PIRES, J. Herculano. O Espírito e o tempo. Introdução antropológica ao Espiritismo. 8. ed. São Paulo: Editora Paideia Ltda, 2003. Capítulo: Mundo de Regeneração.
3. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O Papel Social da Doutrina Espírita



O panorama social do planeta é confuso. Os noticiários deixam a nítida impressão de que o tecido social está se rompendo e que os mecanismos de repressão são os únicos instrumentos utilizados pelas comunidades para manterem certa estabilidade no meio, sabe-se lá até quando. Desamparo, mendicância, crianças abandonadas, doentes sem assistência médica e psicológica, velhos desabrigados forma todo um contingente de irmãos necessitados de sobrevivência material, moral e espiritual.

A estrutura da sociedade como um todo está se fragmentando rapidamente. A degeneração das relações de companheirismo entre os homens indica que ele esqueceu de uma coisa importante para sua formação básica: A LEI NATURAL. Ensinar-lhe essa lei seria o papel das religiões. Mas, por causa de seus próprios limites elas não o cumpriram.

A humanidade construiu seus valores em cima de estruturas perecíveis que agora dão mostras de sua transitoriedade e ineficácia. O materialismo se desmantela com o caos do sistema financeiro se instalando em todo o mundo. O desemprego, gerado pela automatização e explosão populacional, prolifera multiplicando os dramas individuais. O homem, vendo seu castelo de cartas ruir, naturalmente se desespera, pois não vê saída para seus problemas.

O Espiritismo, segundo Allan Kardec, teria o papel de agente modificador desse panorama. Sua proposta não deveria ser excessivamente assistencialista ou estritamente espiritualista. Levada a sério, a Doutrina Espírita poderá modificar a sociedade com a possibilidade de modificar o homem.

Há outra saída para a humanidade além da dor. Ninguém poderá deter a transformação do planeta, pois ela obedece a Lei de Deus, moldando-se conforme um plano preparado há milênios. A Doutrina Espírita abre um leque fantástico de conhecimentos acerca da moral e do aperfeiçoamento. Cumpre aproveitarmos e VIVENCIARMOS as lições recebidas. As palavras de Jesus, "Amarás ao teu próximo como a ti mesmo" e o exposto na parábola do Bom Samaritano tornam bem clara esta questão.

Não nos basta sermos “bons” e pertencermos ao grupo A ou B... É IMPERIOSO PRATICARMOS O BEM.

A reforma íntima é uma necessidade. Paradoxalmente, não haverá reforma íntima sem contato com o nosso próximo. Como amar sem ter AÇÃO para o amor?

“Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito.” (Jesus)
Em que consiste essa perfeição? “.amar os inimigos, fazer o bem aos que vos odeiam, orar por aqueles que nos perseguem.” (Jesus). Ora, a essência da perfeição é a caridade! E caridade é ação no bem! Mas, como poderemos agir no bem? Movimentos geram movimentos. A nossa ação no bem sempre se alinhará com outras iniciativas, que gerarão movimentos sociais em prol dos nossos irmãos menos favorecidos. Agindo no bem, implantaremos o amor em nós e em torno de nós. Abriremos espaço para a fraternidade, alteridade, paciência, tolerância, compaixão e honestidade integral.

O que nos falta, então? Amor no coração, bondade no olhar, ternura nos gestos, lealdade nas relações, sinceridade na palavras, tolerância nos julgamentos… Mesmo assim, podemos ser felizes... Mas, o nosso conceito de felicidade está difuso. A nossa felicidade está associada a ter coisas, ter status, ter reconhecimentos e ter direitos.

Esquecemos que a vida é uma balança de direitos e deveres. Não há como ser feliz se o nosso irmão está infeliz, se no mundo ainda há infelicidade. E, depois, não há como esquecer das drogas, da fome, das guerras, da miséria, da ignorância...O conceito de felicidade está implícito, pois, no desejo de um mundo melhor.

Um mundo que será construído por nós e onde alcançaremos a felicidade através desse processo de construção recíproca.

O paradigma Holístico propõe um novo foco. Propõe que o Universo é um todo dinâmico que se relaciona. Toda ação que realizamos ecoa no universo e reverbera pelos outros elementos. A nossa relação é de Co-criadores, com Deus.

"Mas é chegado o tempo de um reajustamento de todos os valores humanos. Se as dolorosas expiações coletivas preludiam a época dos últimos "ais" do Apocalipse, a espiritualidade tem de penetrar as realizações do homem físico, conduzindo-as para o bem de toda a humanidade."(Emmanuel)

A Doutrina Espírita, como movimento renovador, tem um papel considerável no seio da humanidade. Pelas verdades fundamentais que traz, preenche o vazio que a incredulidade faz das idéias e das crenças; pela certeza de um futuro conforme a justiça de Deus, tempera as agruras da vida e evita os funestos efeitos do desespero; dissipa a incredulidade e a superstição, dando a conhecer novas leis da natureza; encoraja o fraco, mostrando-lhe o fim a que pode atingir; destrói o império da fé cega; emancipa a inteligência do homem e levanta a sua moral (RE - 1866 - outubro - pag. 298).


Fonte: NELUZ

Bibliografia consultada:

Kardec, Allan .: Evangelho segundo o espiritismo e Livro dos Espíritos;
Celso Martins: Por um mundo melhor;
Wanderley S. Oliveira/ Esp.
Érmance Dufaux: Laços de afeto, Mereça ser feliz e Reforma íntima sem martírio;
Peres, N. P.: Manual prático do espírita;
F. Cândido. Xavier/ Esp. Emmanuel: A caminho da luz;
Revista Espírita - 1866 - outubro - pag. 298

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Contribuições do Espiritismo para uma Nova Família





Por Jaci Regis

A família atual sofre ataques profundos em sua estrutura, apressando as mudanças, no conjunto das mutações que revoluciona o comportamento social, abalando velhas estruturas e tradições.

Como conceituar a família atual, comparativamente à tradição? Como executar as funções de pai e mãe num momento tão inseguro como atualmente? Como encaminhar os filhos ou ensiná-los ao autogoverno, em meio a tantas variáveis e da imaturidade natural?

Teria o Espiritismo contribuição objetiva para encaminhar a questão familiar de maneira a ajudar os pais e a família a encontrar um caminho de realização?

Pretendo analisar as questões relativas ao núcleo familiar, na procura de indicações que formulem uma filosofia espírita da família, contribuindo para a dar ao núcleo doméstico a eficiência afetiva que é fundamental para o bom encaminhamento dos Espíritos que reencarnam.


Em busca de um Novo Modelo


Após 1945, a estrutura moral e de valores da sociedade foi definitivamente abalada. Após os horrores da II Guerra Mundial do século 20, o modelo que vinha sendo corroído mais aceleradamente com a queda da moral vitoriana do século 19 e pelos efeitos da I Guerra Mundial de 1914-1918, mostrou-se inadequado, falso e hipócrita.

Desde então buscam-se novas formas de relacionamento, sem encontrar um novo rumo. O que se vê é um não-modelo ou um modelo a procura de um sentido, moral e social, com fundas repercussões na instituição da família.

A família nuclear de hoje, na cultura ocidental e cristã, com seu reduzido numero de participantes, é o retrato atual de um longo e diversificado processo de depuração da instituição familiar.

O modelo de relação familiar que herdamos decorre da implantação do cristianismo no mundo ocidental. Analisando a conceituação básica do pensamento cristão, sob a ótica espírita, devido a visão de homem e de mundo adotada, podemos dizer que o cristianismo jamais entendeu a criatura humana, sua estrutura espiritual, medos e ansiedades. Centralizado na obsessão de salvar a humanidade, criou um sistema moralista baseado na negação do ser e na repressão sexual.

A figura paterna passa por revisão avassaladora tanto pelos filhos, como pelo próprios pais. A mãe já não quer ser a rainha do lar, mas deseja participar social e profissionalmente e assumir a condição de mulher desejante, enfim, uma pessoa com direito à busca de si mesma, sem a tutela paterna ou do marido.

Balançam as opções. Persistir no não-modelo, isto é, abandonar e desprezar todo o acervo histórico e moral existente e deixar as coisas correrem ao sabor das casualidades ou manter o modelo a procura de um sentido, resgatando parte do passado e buscando novas orientações, que é o que permanece no limbo das transições em curso.


É verdade que não há como abandonar os fundamentos morais mais substanciais da doutrina cristã. O que incomoda e torna frágil a estrutura familiar é a falta de uma base conceitual límpida, sem coerção e pré-conceitos que se mostram antinaturais.

Mutações


Analisarei alguns itens que transformaram o velho modelo familiar.

A - Liberação Sexual da Mulher

Nada mais justo que a mulher tivesse conquistado o direito a sua sexualidade. Seria absurdo persistir no parâmetros que a Igreja cristã estabeleceu para a mulher, seja sexual, humana ou socialmente.

As mulheres têm agora a liberdade de usar sua sexualidade conforme sua consciência. No uso do livre arbítrio, essa liberação será legítima conforme for utilizada de maneira equilibrada e responsável, de maneira a manter a dignidade da pessoa.

É inegável que essa liberação abalou profundamente os alicerces da antiga família. Não apenas por essa elevação social e humana da mulher, mas por todas as transformações que daí decorreram e decorrem para as instituições do casamento, da divisão do trabalho no lar e pela eliminação do poder legal e institucional do homem na estrutura da família. Ou seja, o rompimento da base sobre a qual a Igreja edificou o instituto da família.

B - Questionamento do Casamento

A indissolubilidade do casamento, pregada secularmente pela Igreja é um contrassenso, felizmente erradicada pela maioria dos países cristãos. As pessoas até nominalmente cristãs, sem dar importância à posição das igrejas em geral, casam e descasam.

O Espiritismo sempre foi favorável ao divórcio. Kardec disse-o claramente.

Muitas vezes os casamentos são desfeitos pelo voluntarianismo, pelo egoísmo e pela impaciência na adaptação. Outras, entretanto, são decorrentes de situações dramáticas, de sofrimentos e comportamentos que atingem a dignidade. Nesses casos, não há porque mantê-los. Eis o que diz O Livro dos Espíritos:

940. A falta de simpatia entre os seres destinados a viver juntos não é igualmente uma fonte de sofrimento, tanto mais amarga quanto envenena toda a existência?

- Muito amarga, de fato: mas é uma dessas infelicidades de que, na maioria das vezes, sois a primeira causa. Em primeiro lugar as vossas leis estão erradas, pois acreditais que Deus vos obriga a viver com aqueles que vos desagradam?

A própria instituição do casamento formal, legal, é questionada por muitos. Todavia, o anseio de construir uma família e a procura de uma convivência duradoura, dominam o cenário. Novas formas no relacionamento entre os cônjuges decorrerão do nivelamento mental, moral e até profissional dos parceiros. A antiga família contemplava a supremacia do homem, o “cabeça da família”, o que saía para prover os recursos e a submissão da mulher que devia ficar na casa para os serviços domésticos. O novo panorama exige a mudança desse modelo, com funções compartilhadas pelo casal. O casamento do futuro será baseado no afeto e no amor.

C - Sexualidade Sem Compromisso

Em virtude da liberação sexual da mulher, a sexualidade teve novos contornos na sociedade atual. Muitas máscaras caíram, muita hipocrisia desfez-se e também muito exagero e mesmo libertinagem se instalou. O alastramento da Aids é uma consequência dessa desestruturação moral. “Transar” já é normal. A virgindade feminina não é considerada fundamental. Entretanto, as famílias bem estruturadas deverão criar um clima de confiança e equilíbrio, de compreensão dos fatores sexuais, de modo a induzir os filhos a iniciar-se na sexualidade de maneira consciente, no seu tempo adequado, com apoio e acompanhamento dos pais.

D - Limitação dos Filhos

Na onda de transformações, as famílias encolheram. Dificuldades naturais e outros fatores levaram os casais na sociedade cristã a pensarem numa família nuclear reduzida. O problema da limitação dos filhos repercute na produção de remédios e métodos anticonceptivos. Alguns notadamente insensíveis e perniciosos, como a utilização do aborto como método anticoncepcional, o que não se pode aceitar. Parece-me, dentro da lei do livre arbítrio, que a decisão de limitar o número de filhos pertence ao casal. O planejamento, entretanto, não será legitimado se for baseado no egoísmo ou na futilidade.

A paternidade realça o valor do homem para si mesmo, tanto quanto a maternidade eleva a mulher no seu próprio conceito. São estados de consciência que gratificam o Espírito, preparando-o para movimentar energias e possibilidades. (Amor, Casamento e Família, Jaci Regis, pág. 69).

Reestruturação Mental


A introdução de um modelo renovador deve começar pela mudança da estrutura mental da pessoa e, posteriormente, pela reestrutura mental da sociedade. Sabemos que a sociedade cria sua própria moral que atua de forma condicionadora sobre o indivíduo. Logo a organização familiar estabelecida pela Igreja, séculos após séculos de indução, criou modelos mentais fixos, a custos reorganizados na mente.

Quando Allan Kardec queixava-se da inexistência de um vocabulário específico para as ideias espíritas, sabia que uma palavra de significado consagrado em tradição secular correspondia a fixações mentais condicionadas.

Assim, a palavra família, por exemplo, embora designe uma estrutura bem conhecida, essencialmente, tem entendimento diferente e contraditório quanto a sua real significação.

No sentido de criação de uma mentalidade mais aberta, devemos considerar que tanto a concepção espiritualista univivencial, como também a materialista, entendem que a família é uma reunião fortuita e circunstancial de pessoas corporais dotadas, para os espiritualistas, de uma alma, criada no momento da concepção e para os materialistas apenas como um organismo vivo.

A concepção espírita é totalmente diferente, uma vez que concebe a vida corpórea como um segmento da vida espiritual dinâmica e imortal. Isto é, que a sociedade humana atual é composta de Espíritos reencarnados, ou seja, seres inteligentes perfeitamente definidos e delineados, dentro da lei da evolução, da qual a reencarnação é instrumento.

Dessa forma, postula que a família, antes de tudo, é um encontro de Espíritos. A família, na visão kardecista, é uma reunião de Espíritos afinizados em níveis de moralidade e evolução.

Na visão cristã e materialista, os filhos, por exemplo, não escolhem a família. São gerados aleatoriamente pelos pais e têm que sofrer suas influências, sem poder dela se esquivar, imposta que foi, pelo azar ou pelo destino, a convivência com eles.

Na compreensão kardecista, dentro de uma possível programação pré-reencarnatória, muitos filhos escolheram as famílias em que se encarnam, dentro da relação afetiva e sintônica que estabelece as ligações emotivas das pessoas.

Na visão cristã e materialista, a criança é um ser inocente criada na gestação, entregue aos azares do destino, cujo futuro dependerá de situações aleatórias, que da qual ao crescer se exigirá caráter ilibado, bom. No caso materialista desembocando na finitude da existência e no cristão, para garantir, depois da morte, um lugar no céu ou condenação ao inferno.

Na visão kardecista a criança é, essencialmente, um Espírito com acervo evolutivo específico, que se submete a um processo de aprimoramento, na encarnação, da qual sairá mais experiente, em trânsito para a continuidade de seu projeto evolutivo, que recebemos como companheiro de jornada evolutiva.

Novo Modelo


Primeiro é necessário definir como o Espiritismo analisa a vida corpórea.

Aí a compreensão espírita permeia uma posição de extremo equilíbrio. Embora enfatizando a natureza imortal do ser, apoiada na visão evolutiva e da reencarnação, de modo algum a doutrina despreza ou diminui a vida terrena. Nem poderia, uma vez que ela não é uma exceção, nem castigo ou exílio, como às vezes se propala, dando seguimento à afirmação cristã da precariedade da vida humana, como mera transição para o céu ou o inferno.

Em outras palavras, o Espiritismo dá grande ênfase à vida terrena. Para o espírita a encarnação não é um constrangimento.

No nosso nível evolutivo, ela é uma decorrência natural, desejada e imprescindível. Na medida que o Espiritismo nos liberta das velhas contradições do cristianismo a respeito da ação divina e do pecado, vamos compreendendo que encarnar representa uma condição necessária e que cada vida corpórea, matizada pelo esquecimento do passado, representa uma aventura, um caminho a ser percorrido com surpresas, vitórias, fracassos.

Nessa vida o Espírito exprime seus sentimentos, medos, desvios e acertos. Mas é também da sabedoria divina, que a encarnação promove um processo de desvinculação das personalidades anteriores e, embora guardando, como é compreensível, o imo de si mesmo, apresenta-se no mundo aberto, desguarnecido, pronto para receber influenciações que são decisivas para definir.

Isto é, o esquecimento das vidas passadas é, justamente, o instrumento capaz de permitir ao reencarnado viver a vida como se fosse a primeira e única vez que o faz.

Por isso esse modelo não cria qualquer diferença ou condena as manifestações comuns e naturais, sejam sexuais ou afetivas que geralmente constroem as relações familiares.

Não encontro base para engessar o pensamento em formas expiatórias relativas a erros do passado. Ou seja, não considero que todas as agregações familiares sejam previamente combinadas antes da encarnação. Não descarto essa possibilidade, mas não a tomo como básica na compreensão das relações afetivas entre o casal e os filhos e no conjunto familiar em geral.

Isso é necessário para libertar a mente de fantasmas e evitar justificar comportamentos agressivos, ódios, apegos excessivos ou outras formas que constituem uma grande parte da relação familiar, sempre com consequências funestas.

O amor, a afeição são forças interiores da estrutura espiritual e não precisam de justificativas sobre possíveis ligações anteriores para se consolidarem.

Vivendo intensamente a realidade do presente, embora com a visão ampla e libertadora da doutrina espírita, construiremos a família dentro de modelos dinâmicos, exercendo as funções paternais com desembaraço e consciência.

O Nó dos Conflitos


Os mecanismos da reencarnação são dispostos de modo que ao encarnar o Espírito, desvincula-se de suas personalidade, embora mantendo o acervo próprio de sua individualidade.

Com isso, o Espírito pode reiniciar seu aprendizado terreno, como se fora a primeira vez que o fizesse. O esquecimento do passado é um instrumento básico para permitir a reciclagem das personalidades, condição indispensável à criação de oportunidades de crescimento e refazimento.

Essa realidade nos livra de permanecer na relação humana na posição dúbia de querer ver além do tempo, a motivação pessoal de certos conflitos.

Diante do cônjuge de difícil convivência não há como vê-lo como alguém que nos cobra a culpa por erros do passado, a pretexto de pagar dívidas passadas. Amá-lo, suporta-lo ou tolerá-lo ou não, será fruto da consciência dos fatores que cada um tem que analisar para a tomada de decisões. Da mesma forma o filho rebelde e difícil não tem que ser olhado como uma desafeto que volta para cobrar alguma coisa.

São desafios difíceis, mas que podem ser enfrentados, a partir de uma visão menos utilitarista da vida.

Essa diversidade de visão caracteriza formas muitos diferentes de analisar a vida terrena e deveria desencadear motivações pedagógicas e comportamentais profundamente positivas na relação familiar, considerando a posição espírita.

Muitos pais reclamam das dificuldades em criar um ambiente doméstico equilibrado e basicamente positivo. Dizem, com certa razão, que existem, hoje em dia, concorrentes poderosos à conivência familiar. A inserção da mulher no mercado de trabalho, por exemplo, tirou o papel de dona de casa. Se o casal trabalha fora, há de haver uma concentração mental e moral capaz de suprir a ausência com a criação de uma psicosfera familiar segura, de modo que os filhos se sintam importantes, notados e amados, ainda que sem a presença constante dos pais.

Essa circunstância obriga a entregar os filhos em mão de terceiros, sejam parentes, empregados ou instituições, mas isso, como se pode comprovar, não afasta os filhos dos pais desde que, como disse, se deem aos filhos de maneira consistente.

Na verdade, a maioria dos problemas dos filhos é decorrentes do abandono devido a futilidades e egoísmos materno ou paterno, de modo que vibracionalmente eles sentem que são deixados de lado, que não são importantes ou amados.

A concorrência da televisão pode e deve ser contornada com a formação do hábito da conversa positiva, do diálogo e da união familiar em torno de tarefas de ideal, de serviço ao próximo, de utilidade humana, ao lado da merecida e equilibrada cota de laser, recreação, conforme as condições permitirem.

Verificamos que a função paterna e materna, não se complica, mas exige uma atuação mais próxima, mais constante e uma abertura mental dos genitores para olhar os filhos com novo olhar.

A visão imortalista produz efeitos benéficos na estrutura do ser. No caso de uma gravidez, por exemplo, a mãe e, ao seu lado o pai, acompanharão o desenvolvimento do feto com ternura e expectativa, sabendo embora que aí se está gerando um corpo que servirá de expressão viva de um Espírito vivido, que virá ao encontro de seu lar para receber amor, compreensão, diretrizes.

Certamente ele será um bebê, criança e viverão a realidade da convivência. Os pais chorarão por ele, se preocuparão com as doenças, com os problemas e o futuro dele. Mas tudo isso dentro de uma ótica mais equilibrada e compreensiva.

Consequências Práticas


Bem compreendido o Espiritismo é instrumento de libertação e expansão da consciência. A reencarnação, como vimos, é um instrumento do processo evolutivo do ser imortal. É um segmento repetitivo, na nossa fase atual, de aprendizado e reajustamento psicológico, emotivo e moral.

No vocabulário espírita, as expressões castigo, punição, expiação, provas , relativamente ao ser e à vida corpórea, devem ser entendidas, sobretudo, como oportunidades . Ou seja, a divindade não pune, oportuniza.

Devido às realidades espirituais dos habitantes deste planeta e as implicações culturais, o lar só será o doce lar, conforme forem cultivados pelos seus componentes valores positivos. Isso não significa uma homogeneidade total, pois, pragmaticamente, a família é um polo de conflitos. De conflitos porque reúne em seu espaço afetivo todas as paixões e aspirações humanas. Nele reúnem-se Espíritos vivenciados, em busca de uma nova oportunidade de crescimento que a encarnação permite.

Essa visão espírita é extremamente moral, mas não moralista. O Espiritismo baseia-se nos fundamentos da moral de Jesus de Nazaré. Todavia, a filosofia de vida é determina o comportamento. As informações e mesmo o conhecimento formal e intelectual das coisas, nem sempre consegue mudar os impulsos afetivos, nem direcionar convenientemente as emoções.

O sentimento é que estabelece a forma de vivenciar.

E o sentimento é produto de um complexo de percepções do Espírito, que tem que manipular, entretecer-se com variáveis afetivas que incluem o medo, o desejo, a rejeição e o amor, este compreendido, antes de tudo, como uma forma de sentir-se aceito, protegido, sustentado afetivamente.

É a partir dessa matriz que o comportamento se realiza na relação, pois podemos saber que não devemos fazer algo mas fazemos, temos conhecimento que certas formas de agir são prejudicais e mesmo assim as executamos.

Dito isto, consideremos a base moral das relações. É certo que existe uma moral social, coletiva, cultural. São crenças, costumes e leis que estabelecem os limites da relação entre as pessoas, nas quais a família se insere. Pois a moral, em resumo, é a maneira como cada um se relaciona consigo mesmo e com os outros.

Todavia, é também da concepção espírita que existe uma Lei Natural que estabelece limites e canalizações da afetividade, de modo a que a pessoa se encaminhe, pelo melhor caminho possível, para encontrar uma relativa harmonização com a Lei.

Essa compreensão será a baliza da moralidade.


Fonte: Jornal de cultura espírita Abertura, maio de 2000, ano XIII, nº 148 - Santos-SP.

Jaci Regis (1932-2010), psicólogo, jornalista, economista e escritor espírita, foi o fundador e presidente do Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS), idealizador do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), fundador e editor do jornal de cultura espírita “Abertura” e autor dos livros “Amor, Casamento e Família”, “Comportamento Espírita”, “Uma Nova Visão do Homem e do Mundo”, “A Delicada Questão do Sexo e do Amor”, “Novo Pensar - Deus, Homem e Mundo”, dentre outros.
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