segunda-feira, 18 de julho de 2016

Curiosidade e Renovação


Disse Allan Kardec, em relação ao espiritismo, que "o período da curiosidade já passou". Estávamos na segunda metade do século 19.

A observação de Kardec está na parte final de O livro dos Espíritos – Conclusão 5. Teria passado mesmo? É a pergunta que muita gente ainda faz. Como não existe conceito absoluto na linguagem humana, devemos considerar que o período da pura curiosidade realmente já passou para aqueles que não se prendem mais à mesa mediúnica nem aos médiuns como o único ponto de interesse pelo espiritismo; mas ainda não passou para quantos ainda estão na fase inicial, durante anos a fio, consultando os mentores espirituais, sem um passo sequer no conhecimento aprofundado.

Tudo é relativo, todos sabem disto. Claro que o codificador se referia ao desenvolvimento natural do conhecimento através de etapas: primeiramente a curiosidade, o desejo de ver com os próprios olhos, a vontade incontida de falar com espíritos; depois naturalmente o raciocínio analítico, a reflexão; por fim, e pela ordem lógica, vem a convicção, a integração na doutrina. E daí por diante, não se para mais de estudar e observar, pois a "sede de saber" não admite limitações.

Houve, de fato, um período de curiosidade, aliás necessário, e foi o período em que todas as preocupações se concentraram na parte mediúnica do espiritismo. O elemento mediúnico nunca deixou nem deixaria de ser necessário e sempre importante, mas a fixação exclusiva no fenômeno, como se não houvesse mais motivação, com o tempo cedeu lugar a outra ordem de cogitações, que se polarizaram exatamente na Doutrina e suas consequências. Um campo novo, que se abriu para muita gente no ciclo histórico das primeiras obras espíritas. E, por isso mesmo, Allan Kardec frisou muito bem: a curiosidade passou.

Claro que há curiosidade no sentido comum de apenas querer ver, sem qualquer objetivo sério, e curiosidade no sentido especial de procurar a verdade ou adquirir conhecimento. Esta última expressão de curiosidade revela bom senso e honestidade de propósitos. É, enfim, uma curiosidade que a própria doutrina espírita suscita a cada passo. Mas o que ainda se nota, em grande parte, é a curiosidade vulgar, sem a mínima preocupação de estudo ou de enriquecimento espiritual, isto é, a curiosidade dos que procuram apenas espetáculo, e nada mais. Há outra forma de curiosidade, bem intencionada e às vezes piedosa, não há dúvida, mas improdutiva, porque não sai da rotina, não opera qualquer mudança de ideias ou de hábitos. É o caso, por exemplo, das pessoas que vão ao centro espírita somente por causa dos guias espirituais e, por isso mesmo, toda a atenção se dirige ao médium, a ninguém mais. De certo tempo em diante, a curiosidade rotineira termina criando a "idolatria do médium" e a "devoção dos guias". E o aprendizado? E a renovação da criatura? E a mudança de hábitos? Nada. Há pessoas que frequentam centros espíritas há cinco ou dez anos, ouvindo a palavra dos guias, pedindo mensagens e comparecendo religiosamente às sessões mediúnicas, mas continuam pensando como pensavam antes: ainda têm medo de "azar", ainda acreditam no inferno, ainda fazem penitência. Os hábitos religiosos continuam sendo os mesmos. Isto quer dizer que não aprenderam espiritismo, não receberam ou não absorveram esclarecimentos da doutrina. Ainda permanecem na fase inicial da curiosidade comum, não deram um passo adiante, pois não apresentam qualquer mudança. É o caminho para o fanatismo. Mas o espiritismo é uma doutrina renovadora. À medida que se estuda a doutrina e que se absorve o ensino espírita, naturalmente alguma coisa começa a mudar, aos poucos: a visão da vida e das coisas, a concepção de Deus e sua suprema justiça; a noção de responsabilidade e assim por diante.

Já se disse, e não faz mal repetir, que certas pessoas são capazes de caminhar muitos quilômetros à procura de um médium, com chuva ou com sol quente, seja lá onde for, mas não têm a paciência nem o interesse de ficar meia hora pelo menos no recinto de um centro para ouvir uma palestra, uma elucidação doutrinária. No entanto, como ainda ensina Allan Kardec, que o espiritismo progrediu sobretudo desde que foi compreendido em sua "essência íntima". É realmente a essência da Doutrina, o conhecimento da doutrina que se aprende a valorizar a comunicação dos espíritos e sua significação no progresso moral. Enquanto a mesa mediúnica for apenas objeto de curiosidade ou simples motivo de devoção, não há renovação, não há progresso no conhecimento do espiritismo. Mas temos de reconhecer, finalmente, que a orientação de origem tem muita influência, sob este ponto de vista. Há centros que fazem questão de dar preferência aos trabalhos mediúnicos, como se fossem a razão de ser de sua existência, enquanto a doutrina fica em segundo plano e às vezes nem é comentada nas reuniões... Então, os frequentadores assíduos, se habituam à rotina e não entendem o espiritismo a não ser pela via mediúnica. Se é assim que entendem o espiritismo, evidentemente não se interessam pelas explanações doutrinárias. Lembro-me bem de um centro espírita, que frequentei no bairro de São Cristóvão, há muitos anos, nos primeiros contatos que tive com o espiritismo. O presidente era o médium da casa e fazia tudo: doutrinava mediunizado, dirigia o serviço de passes, cuidava das desobsessões etc. Nenhum livro da doutrina. Toda a assistência via o centro exclusivamente pela pessoa do médium. Tudo se fazia em função do médium. Tempos depois, apareceu alguém, que começou a colaborar no centro e conseguiu introduzir o estudo doutrinário, semanal. Então, ficou reservado um dia especialmente para a explanação da Doutrina. Pois bem, a maior parte da assistência, que já estava mal acostumada, reagiu desagradavelmente. Lembro-me bem, como se fosse hoje, de que certa vez um dos frequentadores, daqueles que nunca faltavam às sessões mediúnicas, ao chegar à sala, assim que viu no quadro de aviso que aquela noite seria de estudo doutrinário, voltou imediatamente e ainda falou assim, quase afrontado: "Isto não interessa!" e se foi mesmo... Em parte, alguns centros são responsáveis por essa discrepância, justamente porque não criam desde cedo o hábito do estudo, sem desprezar a parte fenomênica. O equilíbrio antes de tudo.


Deolindo Amorim

Artigo publicado no jornal Correio Fraterno, em dezembro de 1979.


Sobre o autor

Deolindo Amorim, (23 de janeiro de 1906, Baixa Grande, Bahia - 24 de abril de 1984, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro ) foi um jornalista, sociólogo, publicitário, escritor e conferencista espírita brasileiro. Colaborou no Jornal do Comércio e em praticamente toda a imprensa espírita do país.

sábado, 16 de julho de 2016

Consequências Morais da Reencarnação


As vidas sucessivas têm por objeto o desenvolvimento da inteligência, do caráter, das faculdades, dos bons instintos, e a supressão dos maus.

Sendo contínua a evolução e perpétua a criação, cada um de nós, no correr das existências, é, a todo instante, feitura de si mesmo. Com efeito, trazemos conosco uma sanção inevitável, que pode deixar de exercer-se imediatamente, mas que, cedo ou tarde, terá uma repercussão certa nas vidas futuras.

As desigualdades morais e intelectuais não são o resultado de decisões arbitrárias da divindade e a justiça já não se acha ferida. Partindo todos do mesmo ponto, para chegar ao mesmo fim, que é o aperfeiçoamento do ser, existe, realmente, uma perfeita igualdade entre todos os indivíduos.

Essa comunhão de origem mostra-nos claramente que a fraternidade não é uma palavra vã. Em todos os degraus do desenvolvimento, sentimo-nos ligados uns aos outros, de sorte que não existe diferença radical entre os povos, a despeito da cor da pele ou do grau de adiantamento. A evolução não é somente individual, é coletiva. As nações se reencarnam por grupos, de sorte que existe uma responsabilidade coletiva como existe a individual; daí resulta que, qualquer que seja nossa posição na sociedade, temos interesse em melhorá-la, porque é o nosso futuro que preparamos.

O egoísmo é, ao mesmo tempo, um vício e um mau cálculo, porque a melhoria geral só pode resultar do progresso individual de cada um dos membros que constituem a Sociedade. Quando estas grandes verdades forem bem compreendidas, encontrar-se- á menos dureza entre os que possuem, e menos ódio e inveja nas classes inferiores.

Se os que detêm a riqueza ficarem persuadidos de que, na próxima encarnação, poderiam surgir nas classes indigentes, teriam evidente interesse em melhorar as condições sociais dos trabalhadores; reciprocamente, estes aceitariam com resignação a sua situação momentânea, sabendo que, mais tarde, poderiam estar, por sua vez, entre os privilegiados.

A Palingenesia é, pois, uma doutrina essencialmente renovadora, é um fator de energia, visto que estimula em nós a vontade, sem a qual nenhum progresso individual ou geral poderia realizar-se.

A solidariedade impõe-se a nós como uma condição essencial do progresso social; é uma lei da Natureza, que já podemos verificar nas sociedades animais, constituídas para resistir à lei brutal da luta pela vida.

O mal não é uma necessidade fatal imposta à Humanidade.

Em resumo, a teoria das vidas sucessivas satisfaz todas as aspirações de nossas almas, que exigem uma explicação lógica do problema do destino. Ela concilia-se perfeitamente com a ideia duma providência, ao mesmo tempo justa e boa, que não pune nossas faltas com suplícios eternos, mas que nos deixa, a cada instante, o poder de reparar nossos erros, elevando-nos, lentamente, por nossos próprios esforços, subindo os degraus dessa escada de Jacob, onde os primeiros mergulham na animalidade e os últimos chegam à mais perfeita espiritualidade.

Podemos dizer, com Maeterlinck:

“Reconheçamos, de passagem, que é lamentável não sejam peremptórios os argumentos dos teósofos e dos neoespiritistas; porque não houve nunca uma crença mais bela, mais justa, mais pura, mais moral, mais fecunda, mais consoladora, e até certo ponto mais verossímil que a deles.

Tão-só com a sua doutrina das expiações e das purificações sucessivas, ela explica todas as desigualdades sociais, todas as injustiças abomináveis do destino. Mas a qualidade de uma crença não lhe atesta a verdade. Ainda que ela seja a religião de seiscentos milhões de homens, a mais próxima das origens misteriosas, a única que não é odiosa, a menos absurda de todas, é preciso não fazer o que fizeram as outras, mas trazer-nos testemunhos irrecusáveis, pois o que ela nos deu até agora não é mais do que a primeira sombra de um começo de prova.”

As provas que Maeterlinck pede, creio tê-las trazido. O que possuímos agora é uma demonstração positiva, e ela nos permite compreender não só a sobrevivência do princípio pensante, senão também a sua imortalidade, pois que durante milhões de anos havemos evolucionado nesta Terra, que deixaremos, quando nela mais nada houver que aprender.


Gabriel Delanne

Do livro “A Reencarnação”, de Gabriel Delanne.


Sobre o autor


François-Marie Gabriel Delanne (Paris, França, 23 de Março de 1857 - 15 de Fevereiro de 1926) foi um francês engenheiro e um dos primeiros pesquisadores espíritas notórios. Intelectual renomado, sua pesquisa sobre a mediunidade é notória no contexto do problema mente-corpo. É considerado como o propagador do espiritismo no mundo.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A Vida


O infinito na vida. — Visão microscópica e visão telescópica. — Geografia das plantas e dos animais; difusão universal da vida.

As considerações que precedem estabelecem uma dupla certeza e seriam mais que suficientes para questões ordinárias e puramente humanas; mas a Natureza não quis deixar aos homens o cuidado de explicar a obra-prima da criação. O Rei dos seres lançou um véu misterioso sobre esta prova sublime de sua onipotência, e reservou levantá-lo ele mesmo, a fim de confundir o orgulho dos homens, ao mesmo tempo que aumentasse a esfera de sua inteligência. Para chegar a este fim, antes que a ciência descobrisse as maravilhas de sua fecundidade prodigiosa, a Natureza colocou na mente daqueles que estudaram a noção da pluralidade dos mundos que uma só terra habitada não conviria nem à sua dignidade, nem à sua grandeza. Depois, deixou à ciência o cuidado de desenvolver esta ideia primitiva, permitindo ao homem penetrar no santuário de seu eterno poder. Enquanto os antigos, que podiam adorar a infinidade do Criador e se prosternar perante sua glória contemplando a imensidade da Terra, a riqueza de seu paramento e a variedade de suas produções, compreendiam, porém, quão pouco digna esta Terra seria, por si só, de saciar Seu olhar, e o quanto às maravilhas que a decoram estão abaixo da majestade divina, os modernos, por consequência do progresso das ciências, não deviam ficar reduzidos a encerrar essa majestade suprema num mundo onde começam a se sentir eles mesmos apertados, onde, graças a novos Pégasos, mais rápidos que os do Olimpio, as mais longas viagens não são para nós senão viagens de recreio, onde o relâmpago submetido nos permite conversar em voz baixa com nossos vizinhos, os antípodas, num mundo, enfim, que hoje rolamos entre as mãos como um brinquedo. É então que, enquanto a Terra perde seu esplendor primitivo deixando-se melhor conhecer, e recuando cada vez mais seu horizonte perante nossos olhos, o mundo sideral desenrola em gigantescas proporções sua incomensurável extensão e cresce, à medida que conhecemos melhor a exiguidade de nosso globo. É então que, enquanto o microscópio nos ensinava que a vida transborda por todo lado em nossa morada e que a Terra é demasiado estreita para contê-la, o telescópio nos abre no céu novas regiões onde esta vida não é mais limitada como cá embaixo, onde ela se propaga em planícies férteis e verdadeiramente dignas dos obséquios da Natureza. É então que as descobertas microscópicas vêm para anunciar que o poder criador se deu ao trabalho de nos fazer conhecer a menor parte dos seres existentes, nos revelando que a vida invisível é infinitamente mais extensa sobre os continentes e nas águas que a vida aparente, e que, apenas no nosso mundo, a soma dos seres percebidos e suscetíveis de serem estudados com o auxílio de nossos sentidos não é comparável à soma dos seres que estão além dos nossos meios de percepção.

A geografia das plantas e dos animais nos mostra a universal difusão da vida na superfície do globo; cada região nos abre um campo de uma nova riqueza, cada região desenrola sob nossos olhos uma nova população. Se nos erguemos dos mais profundos vales aos cumes das mais altas montanhas, as espécies de vegetais e de animais se sucedem, definidas e revestidas de caracteres especiais, segundo as altitudes, e subindo até os últimos limites onde as funções da vida ainda podem operar. Se se dirige do equador aos polos, vemos a esfera da vida se estender e se diversificar desde as formas gigantescas dos trópicos até o mundo dos infinitamente pequenos, que habitam as latitudes extremas. "Perto dos polos", diz Ehrenberg, um dos mais laboriosos naturalistas, "onde os maiores organismos não poderiam existir, reina ainda uma vida infinitamente pequena, quase invisível, mas incessante; as formas microscópicas recolhidas nos mares do polo austral, durante as viagens de James Ross, oferecem uma riqueza toda especial de organismos que eram até então desconhecidos, e que são, muitas vezes, de uma elegância admirável; nos resíduos dos gelos derretidos que flutuam perto de 78 graus de latitude, encontrou-se mais de cinquenta espécies de poligástricos silicosos, e coscinodiscos cujos ovários ainda verdes provam que viveram e lutaram com sucesso contra os rigores de um frio levado ao extremo; a sonda capturou, no golfo do Erebo, de 403 a 526 metros de profundidade, sessenta e oito espécies de poligástricos silicosos e de phytolitharia."

Nem a diversidade dos climas, nem a extensão das distâncias, nem a altura, nem a profundidade, puseram obstáculo à difusão dos seres vivos; eles invadiram as regiões mais ocultas, no alto, embaixo, por toda parte; cobriram a Terra com uma rede de existências. A economia do globo está disposta para isso. As plantas confiam aos ventos seus leves grãos e vão renascer a distâncias imensas; os animais emigram em tropas ou penetram individualmente regiões que parecem impenetráveis. Já observamos, os lagos subterrâneos, aos quais as águas de chuva parecem ser as únicas capazes de descer, alimentando não somente os infusórios e os animálculos que nascem por todo canto, mas ainda grandes espécies de peixes e aves aquáticas, como o testemunham os palmípedes da Carniole. As cavernas naturais, na aparência completamente fechadas, dão acesso às espécies vivas, as quais se multiplicam lá e propagam uma vida subterrânea especial. As geleiras dos Alpes alimentam poduromorfos. As neves polares recebem chionoea araneoides. A 4.600 metros acima do nível do mar, os Andes tropicais estão enriquecidos com belos fanerógamos. A vida é variável ao infinito e se manifesta por todos os lugares onde estão reunidas as condições de sua existência. Nossas classificações artificiais não bastam para compreender a extensão das espécies vivas. A vida brinca com a substância e a forma, e parece desafiar todas as impossibilidades. A luz, o calor, a eletricidade, criam-lhe mil mundos, abrem mil caminhos para sua extensão. A água fervente e o gelo não são um obstáculo insuperável. Vibriões secos sobre os tetos, expostos ao sol forte do verão e cobertos de gelo no inverno, renascem após anos de morte aparente, se as condições de sua existência se encontram momentaneamente realizadas no ponto imperceptível onde jaziam. O átomo de poeira que se equilibra num raio de sol, e que um turbilhão arrebata pelos ares, é todo um pequeno mundo povoado por uma multidão de seres agentes. A vida está por todos os lugares, encontra-se do equador aos polos, diversa, transformada, etapa por etapa. Não há provavelmente um só lugar do globo onde ela não tenha penetrado algum dia, e detendo-nos mesmo no espetáculo atual da Terra, considerando apenas a época determinada na qual observamos, época que só representa um segundo insensível na insondável duração das eras geológicas, vemos essa maravilhosa força de vida por todos os lugares em atividade, por todos os lugares em movimento, por todos os lugares em vias de criação. Analisemos o sangue dos menores animais, e ali encontraremos animálculos; ergamo-nos nos ares e nas nuvens de poeira que muitas vezes perturbam a transparência, e encontraremos uma infinidade de infusórios poligástricos de carapaça silicosa.

Malgrado as sábias e perseverantes pesquisas dos fisiólogos de hoje em dia, o antigo problema da geração espontânea não foi ainda resolvido. Mas se a heterogeneidade ainda está no berço, os trabalhos que a fizeram nascer e as discussões que ela encetou não aumentaram especialmente o campo de nossos conceitos sobre a essência e a propagação da vida. Sabemos agora o quanto é fecundo o seio dessa bela Natureza, sempre na seiva de sua virilidade sem idade, sempre no esplendor de sua força e de sua juventude. Os mistérios íntimos da geração se desvelam, e nosso século analisa os recursos ocultos da vida embriogênica e seu funcionamento, segundo os indivíduos, segundo os sexos, segundo as famílias e segundo as espécies, e se ainda não conhecemos, começamos a conhecer, e compreendemos que há no embrião e no animal microscópico um infinito de vida, força inicial que nasce segundo o concurso de alguns elementos, e que se desenvolve segundo o impulso de sua própria essência, secundada pelas influências saídas do mundo exterior.


Camille Flammarion

Extraído do livro "A Pluralidade dos Mundos Habitados", de Camille Flammarion.

Sobre o autor:


Nicolas Camille Flammarion, mais conhecido como Camille Flammarion (Montigny-le-Roi, 26 de fevereiro de 1842 — Juvisy-sur-Orge, 3 de junho de 1925), foi um astrônomo, pesquisador psíquico e divulgador científico francês. Importante pesquisador e popularizador da astronomia, recebeu notórios prêmios científicos e foi homenageado com a nomenclatura oficial de alguns corpos celestes. Sua carreira na pesquisa e popularização de fenômenos paranormais também é bastante notória.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Doutrina Ímpar


O Espiritismo é uma doutrina complexa e completa.

É original na sua estrutura, porque reúne em um todo harmônico os postulados da ciência, as diretrizes da filosofia e os instrumentos ético-morais da religião.

Única, na sua formulação, é portadora de propostas simples que estão ao alcance de todos os níveis de cultura, ao tempo em que atende as exigências mais severas da razão e da lógica.

De fácil entendimento pelos simples de inteligência e os mansos de coração, penetra-lhes o cerne da alma como um bálsamo suavizador na ardência da ignorância.

Abrindo um leque de inúmeras vertentes, tem a ver com os mais diversos ramos do conhecimento, completando-os com os seus conteúdos profundos, porque remonta às causas de todas as ocorrências, a fim de entender-lhes os efeitos.

Enquanto a ciência, em geral examina nos efeitos as causas, o Espiritismo foi revelado pelo mundo real, anterior, facultando a compreensão da esfera física, sua transitoriedade e suas razões de existir.

Para bem ser entendido exige o estudo e a reflexão cuidadosos, abrangendo o conhecimento geral, que ilumina com os conceitos libertadores de crendices e de superstições.

Partindo-se da sua base - a crença em Deus e na imortalidade da alma – a comunicabilidade dos Espíritos é axiomática, pois que se constitui com recurso experimental que lhes comprova a sobrevivência ao fenômeno da morte.

A reencarnação logo se apresenta viável instrumento de que se utiliza a Justiça Divina para reeducar, corrigir e conduzir todos aqueles que se tornarem infratores ante as Leis Soberanas, tombando nos gravames que os empurram aos abismos da inferioridade moral por onde transitam, e de que se deveriam libertar.

Na prática mediúnica – sublime recurso de iluminação! – alarga os horizontes do ser humano para entender os desafios e os enigmas existenciais, logicando em torno dos malogros e desditas de que ninguém passa na Terra sem os experimentar.

A mensagem evangélica de que se faz portador, atualizando-a com as revelações do Além-túmulo, confirma a grandeza de Jesus e dos Seus ensinamentos, restaurando-Lhe a luminosa diretriz do amor como a mais eficaz terapia para a vida de todas as criaturas humanas.

É nesse campo de nobres realizações que atinge a sua magnitude, facultando o diálogo com os imortais, o conhecimento da vida extra-física, os objetivos essenciais da reencarnação, os comportamentos saudáveis para o despertar lúcido após a jornada no corpo somático.

Pergunte-se a alguém que trazia o coração dilacerado pela dor da perda física de um ser amado, sobre o conforto libertador e indescritível que hauriu após a comunicação mediúnica com esse afeto de retorno, vivo e exuberante, e ele não terá palavras fáceis para traduzi-lo.

Suas explicações a respeito do sofrimento, o bem que proporciona ao calceta, ensejando-lhe esperança de renovação e de recuperação, ao infeliz, brindando oportunidade de recompor-se e ser ditoso, ao padecente sem esperança de recuperação que descobre a continuidade da vida após a disjunção molecular, são as mais nobres respostas de qualidade que nenhuma outra doutrina pode oferecer.

Arrancando das tenazes férreas da obsessão o paciente agora em equilíbrio, ei-lo que se rejubila e dispõe de expressões para bendizê-lo, agradecendo a dádiva do raciocínio lúcido e da alegria de poder voltar a voar pela imaginação na direção do infinito...

Ao mesmo tempo, aquele que se encontrava nas sombras da ignorância, sem haver descoberto o sentido existencial, após haver fruído as harmonias do Espiritismo, exultante, não consegue sopitar o júbilo infindo e a felicidade do bem-estar e da paz que ora o visitam.

Desencarcerando os desencarnados em aflição, que se arrojavam à loucura, por não entenderem o fenômeno da morte e da vida, faculta-lhes a visão perfeita das possibilidades que se lhes encontram ao alcance para manter-se em equilíbrio.

As suas avenidas culturais, alargadas pelos tratores do conhecimento e do sentimento, ensejam as caminhadas exitosas aos viandantes que antes se estremunhavam nos dédalos sombrios dos conflitos íntimos e do martírio dos sofrimentos que se entregavam nos corredores estreitos da aflição...

As lágrimas enxugadas e as dores lenidas nas mulheres e nos homens aflitos modificam totalmente o contexto social que se apresenta calmo, ensejando a construção de melhores condutas para o futuro da humanidade.

Nunca podem ser contabilizados os benefícios que propicia e a luz da caridade que esparze, fulgurando nos corações é como um permanente Sol mantendo a vida em todas as suas expressões.

Uma palavra espírita é valioso tesouro para a solução de muitos sucessos desafiadores e de caráter agressivo, infeliz.

Um pensamento espírita bem direcionado é corrente vigorosa que vitaliza, erguendo os combalidos que não suportaram o fragor das lutas.

Uma atitude espírita de socorro transforma-se em lição viva que traduz a qualidade dos seus ensinamentos vigorosos.

Que tem o materialismo, no entanto, para oferecer-lhes, além do desencanto, da fatalidade ignóbil de haverem sido esses desditosos eleitos para a desgraça, conforme apregoa? Apresentando o suicídio ou o mergulho no prazer exaustivo, como saída da agonia, são as torpes soluções de que dispõe para as vidas ressequidas e atormentadas, tornando-se verdugo cruel do pensamento e do sentimento humano.

O Espiritismo não é uma doutrina passadista ou conformista, porquanto estimula a busca dos valiosos recursos da ciências nos seus múltiplos aspectos para solucionar os enigmas existenciais e ajudar a vencer os desafios normais, enquanto oferece conforto mortal, resistência e coragem para prosseguir-se na luta sem jamais desistir, sempre jovial e confiante nos resultados finais.

Não mantém a ingenuidade nem a ignorância, jamais estimulando à postergação do que se deve fazer quando se apresenta difícil no momento, antes oferece as ferramentas para a execução do trabalho que está destinado a cada indivíduo, iluminando-lhe a mente com a inspiração do bem e renovando-lhe os sentimentos com o prazer de encontrar-se vivo no corpo, portanto, com infinitas possibilidades de superar os impedimentos que surgem pelo caminho da evolução.

A sua lógica decorrente da filosofia atende a todas as necessidades e interrogações do pensamento, não deixando de elucidar os dramas existenciais, a origem do ser, do sofrimento e o seu destino.

O ser humano tem buscado, através da história, uma religião que console sem iludir, iluminando-lhe a existência e oferecendo-lhe robustez de ânimo para o enfrentamento das vicissitudes que todos experimentam durante a trajetória material.

Por muito tempo ludibriado pelas doutrinas ortodoxas que escravizam as mentes e atemorizam os corações, terminou por tombar na negação, cansando-se de cerimônias e de extravagantes conceitos dogmáticos.

Apoiando-se na ciência e na sua extraordinária contribuição, sente, não poucas vezes, o vazio interior que o inquieta, buscando soluções químicas para os conflitos que podem ser resolvidos pela oração, pela meditação, pela ação do bem, pelo autoencontro...

Por fim, chegou-lhe o Espiritismo e abriu-lhe os braços generosos com as suas informações de sabedoria, propondo-se a albergar a imensa mole humana no seu seio, sem qualquer tipo de dependência psicológica fora da razão ou promessa salvacionista sem o concurso pessoal de cada qual.

O Espiritismo é a ciência religiosa dos tempos modernos e das criaturas que anelam por uma religião científica, a fim de que, abraçadas, essas duas alavancas do progresso ofereçam a filosofia especial para a conquista da felicidade plena pela qual todos anelam, e a conseguirão.


Yvonne do Amaral Pereira (Espírito)


Sobre o autor

Yvonne do Amaral Pereira (Valença , 24 de dezembro de 1900 — Rio de Janeiro, 9 de março de 1984) foi uma das mais respeitadas médiuns brasileiras, autora de romances psicografados bastante conhecidos entre os espíritas. Dedicou-se por muitos anos à desobsessão e ao receituário mediúnico homeopático.

domingo, 10 de julho de 2016

Revelação


Filhos, quantos permanecem na expectativa de novas revelações do Mundo Espiritual por suplemento da fé, olvidam que o Evangelho continua sendo a mensagem inédita da vida que todos carecemos assimilar.

A Ciência, sem dúvida, desvendará aos homens novos caminhos e a luz da Verdade gradativamente resplandecerá para as criaturas, todavia os preceitos básicos para a felicidade humana se resumem na lição do amor que o Cristo ensinou à Humanidade.

O maior desafio para o homem não se constitui na conquista do Cosmos ou no pleno conhecimento das leis que regem o mundo material: o seu maior desafio é a conquista de si mesmo, no domínio mais amplo das próprias emoções e dos pensamentos que se originam em seu mundo intimo.

A aplicação das virtudes cristãs no cotidiano - paciência, perdão e solidariedade -, ontem quanto hoje, dentre outras, é constante apelo à auto-superação que a cada dia se renova.

Tendo-nos sido legado há dois mil anos, o Evangelho não perde atualidade, porquanto as palavras do Cristo, expressando a Verdade, que jamais se altera, são de vida eterna.

Assim, não condicioneis a vossa crença na Doutrina às revelações que vos sejam formuladas sem critério pelos que habitam as dimensões da Vida Mais Alta.

Não façais a vossa fé depender do miraculoso e do sobrenatural, como se, mentes enfermas, sentísseis sempre a necessidade de vos alimentardes do que extrapola os limites do bom senso.

Os espíritos que, de hábito, convosco intercambiam ainda não diferem muito de vós outros e possuem parcos conhecimentos da Vida que se desdobra fora da matéria.

Habilitai-vos, em vosso mundo moral, para os acréscimos que desejais ao que já sabeis da Verdade.

Por outro lado, considerando-vos, considerai a falta de instrumentação mediúnica adequada para que as realidades de Além-Túmulo vos alcancem sem alterações significativas e sem comprometimento de sua autenticidade.

Filhos, contentai-vos com o que tendes, convictos de que ainda não sois gleba para mais farta semeadura.

Bezerra de Menezes (Espírito)


Sobre o autor:

Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti (29 de agosto de 1831, Jaguaretama, Ceará - 11 de abril de 1900, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro) Adolfo Bezerra de Menezes foi um dos homens mais ilustres e dignos da história cearense, tendo se destacado na medicina, nas letras, na política e principalmente na solidariedade humana, tornando-se uma lenda na Comunidade Espírita do Ceará e um dos maiores expoentes do espiritismo no Brasil.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O Amor


O amor é a celeste atração das almas e dos mundos, a potência divina que liga os Universos, governa-os e fecunda; o amor é o olhar de Deus!

Não se designe com tal nome a ardente paixão que atiça os desejos carnais. Esta não passa de uma imagem, de um grosseiro simulacro do amor. O amor é o sentimento superior em que se fundem e se harmonizam todas as qualidades do coração; é o coroamento das virtudes humanas, da doçura, da caridade, da bondade; é a manifestação na alma de uma força que nos eleva acima da matéria, até alturas divinas, unindo todos os seres e despertando em nós a felicidade íntima, que se afasta extraordinariamente de todas as volúpias terrestres.

Amar é sentir-se viver em todos e por todos, é consagrar-se ao sacrifício, até à morte, em benefício de uma causa ou de um ser. Se quiserdes saber o que é amar, considerai os grandes vultos da Humanidade e, acima de todos, o Cristo, o amor encarnado, o Cristo, para quem o amor era toda a moral e toda a religião. Não disse ele: “Amai os vossos inimigos”?

Por essas palavras, o Cristo não exige da nossa parte uma afeição que nos seja impossível, mas sim a ausência de todo ódio, de todo desejo de vingança, uma disposição sincera para ajudar nos momentos precisos àqueles que nos atribulam, estendendo-lhes um pouco de auxílio.

Uma espécie de misantropia, de lassidão moral por vezes afasta do resto da Humanidade os bons Espíritos. É necessário reagir contra essa tendência para o insulamento; devemos considerar tudo o que há de grande e belo no ser humano, devemos recordar-nos de todos os sinais de afeto, de todos os atos benévolos de que temos sido objeto. Que poderá ser o homem separado dos seus semelhantes, privado da família e da pátria? Um ente inútil e desgraçado. Suas faculdades estiolam-se, suas forças se enfraquecem, a tristeza invade-o. Não se pode progredir isoladamente. É imprescindível viver com os outros homens, ver neles companheiros necessários, O bom humor constitui a saúde da alma. Deixemos o nosso coração abrir-se às impressões sãs e fortes. Amemos para sermos amados!

Se nossa simpatia deve abranger a todos os que nos rodeiam, seres e coisas, a tudo o que nos ajuda a viver e mesmo a todos os membros desconhecidos da grande família humana, que amor profundo, inalterável, não devemos aos nossos genitores: ao pai, cuja solicitude manteve a nossa infância, que por muito tempo trabalhou em aplanar a rude vereda da nossa vida; à mãe, que nos acalentou e nos reaqueceu em seu seio, que velou com ansiedade os nossos primeiros passos e as nossas primeiras dores! Com que carinhosa dedicação não deveremos rodear-lhes a velhice, reconhecer-lhes o afeto e os cuidados assíduos!

À pátria também devemos o nosso concurso e o nosso sacrifício. Ela recolhe e transmite a herança de numerosas gerações que trabalharam e sofreram para edificar uma civilização de que recebemos os benefícios ao nascer. Como guarda dos tesouros intelectuais acumulados pelas idades, ela vela pela sua conservação, pelo seu desenvolvimento; e, como mãe generosa, os distribui por todos os seus filhos. Esse patrimônio sagrado, ciências e artes, leis, instituições, ordem e liberdade, todo esse acervo produzido pelo pensamento e pelas mãos dos homens, tudo o que constitui a riqueza, a grandeza, o gênio da nação, é compartilhado por todos. Saibamos cumprir os nossos deveres para com a pátria na medida das vantagens que auferimos. Sem ela, sem essa civilização que ela nos lega, não seríamos mais que selvagens.

O amor, profundo como o mar, infinito como o céu, abraça todas as criaturas. Deus é o seu foco. Assim como o Sol se projeta, sem exclusões, sobre todas as coisas e reaquece a natureza inteira, assim também o amor divino vivifica todas as almas; seus raios, penetrando através das trevas do nosso egoísmo, vão iluminar com trêmulos clarões os recônditos de cada coração humano. Todos os seres foram criados para amar. As partículas da sua moral, os germes do bem que em si repousam, fecundados pelo foco supremo, expandir-se-ão algum dia, florescerão até que todos sejam reunidos numa única comunhão do amor, numa só fraternidade universal.

Quem quer que sejais, vós que ledes estas páginas, sabei que nos encontraremos algum dia, quer neste mundo, nas existências vindouras, quer em esfera mais elevada ou na imensidade dos espaços; sabei que somos destinados a nos influenciarmos no sentido do bem, a nos ajudarmos na ascensão comum. Filhos de Deus, membros da grande família dos Espíritos, marcados na fronte com o sinal da imortalidade, todos somos irmãos e estamos destinados a conhecermo-nos, a unirmo-nos na santa harmonia das leis e das coisas, longe das paixões e das grandezas ilusórias da Terra. Enquanto esperamos esse dia, que meu pensamento se estenda sobre vós como testemunho de terna simpatia; que ele vos ampare nas dúvidas, vos console nas dores, vos conforte nos desfalecimentos e que se junte ao vosso próprio pensamento para pedir ao Pai comum que nos auxilie a conquistar um futuro melhor.

Léon Denis


Sobre o autor:

Léon Denis (Foug, 1 de janeiro de 1846 - Tours, 12 de Abril de 1927) foi um pensador espírita, médium e um dos principais continuadores do espiritismo após a morte de Allan Kardec, ao lado de Gabriel Delanne e Camille Flammarion. Fez conferências por toda a Europa em congressos internacionais espíritas e espiritualistas, defendendo ativamente a ideia da sobrevivência da alma e suas consequências no campo da ética nas relações humanas. É conhecido como sendo o "consolidador do Espiritismo" em toda a Europa, bem como "apóstolo do Espiritismo", dadas as suas qualidades intrínsecas de estudioso do Espiritismo.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Amar a Deus


Não somente um ilustre pastor protestante nos fez certa vez essa pergunta, como também o reverendo Otoniel Motta a explanou, do ponto de vista protestante, no seu livrinho Temas Espirituais, afirmando que os espíritas não podem amar a Deus, uma vez que não lhe atribuem nenhuma espécie de forma. Tivemos já a oportunidade de lembrar a ambos outro mandamento bíblico, aliás tão invocado pelos presentes, o de que não devemos adorar imagens. Esse mandamento foi renovado por Jesus, quando disse que devíamos adorar a Deus em espírito e verdade. Analisando ambos, e tendo em vista o que dissemos no capítulo anterior, compreenderemos que o Espiritismo vem renovar também a compreensão desses mandamentos, abrindo a inteligência do homem para a compreensão de Deus em espírito e verdade, única maneira de ele o adorar independentemente de qualquer imagem.

De um ponto de vista material, sabemos que há imagens de madeira, de barro, de metal e de outros elementos. Entretanto, do ponto de vista espiritual, devíamos saber que há também outras espécies de imagens, e muito especialmente as imagens mentais. Por acaso podemos admitir que a adoração de uma imagem mental seja menos condenável do que a das imagens materiais? Podemos admitir que não seja idolatria a adoração de ídolos mentais, forjados pelo homem à sua imagem e semelhança?

Contra a idolatria mental, tão perniciosa quanto a material, se ergue o Espiritismo. Essa idolatria levou Antero de Quental a escrever o célebre soneto em que considera Deus como um ser criado pelo homem, à imagem e semelhança deste. Levou também Marx e Engels a considerarem o fenômeno Deus como a simples projeção do homem a um plano superior, no anseio natural de querer superar as circunstâncias que o dominam e escravizam, na Terra. Graças à idolatria mental, os filósofos materialistas conseguiram desferir profundos golpes na crença de muitos homens acostumados a pensar. E multidões de crentes, por sua vez, no mundo inteiro, desviaram o sentimento de amor que deviam dedicar a Deus, para o simples ídolo mental que a religião lhes oferecia. Com isso, tornaram morta a sua própria fé, tiraram-lhe todas as possibilidades de expansão dinâmica, reduzindo-a a uma expressão inferior de puro fetichismo.

O Espiritismo apresenta-nos a seguinte constituição do Universo:

“Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas, ao elemento material, temos de juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre o espírito e a matéria...”

Como vemos, o Espiritismo é profundamente deísta, considerando Deus como elemento constitutivo e básico do Universo. O Deus do Espiritismo, entretanto, e por isso mesmo, não pode ser reduzido a uma simples imagem mental de forma humana.

Kardec nos apresenta Deus, em O Livro dos Espíritos, como eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom. São atributos que as religiões também reconhecem no Criador, e que por si mesmos contradizem a forma humana que lhe dão. Negando-lhe essa forma ou qualquer outra que lhe quisermos dar, o Espiritismo nos coloca em face, tão somente, dos atributos de Deus. É, pois, pelos seus atributos, que o devemos amar. E quem não percebe que, dessa maneira, o Espiritismo nos desvia da idolatria, para nos encaminhar ao amor de Deus em espírito e verdade?

Do ponto de vista espírita, aliás, compreendemos a lição do amar a Deus sobre todas as coisas, lição que, usando a faculdade de pensar, não poderíamos compreender, do ponto de vista idólatra. Mesmo porque seria um contra-senso colocarmos o nosso amor por uma imagem qualquer, fosse ela mental ou não, acima do amor que devemos aos nossos entes mais queridos. Só um desvio mental, uma anomalia psíquica, nos levaria a tal coisa.

O Espiritismo nos ensina que devemos amar a Deus sobre todas as coisas, segundo a lição dos textos sagrados, e nos mostra, aliás, que é absolutamente indispensável fazermos isso, se quisermos cumprir a nossa tarefa terrena, alcançar o objetivo supremo da nossa encarnação neste planeta expiatório. E isso pelo simples motivo de que sendo Deus eterno, imutável e imaterial, devemos colocar o nosso interesse acima das coisas transitórias, mutáveis e materiais, que nos cercam e nos prendem à existência terrena. Sendo Deus único e onipotente, nele devemos confiar e esperar, e não em outros seres e outras coisas, por mais belas e fascinantes que elas nos sejam apresentadas.

Mas o que é mais importante para todos nós, pequenos bichos da terra, tão pequenos, como dizia Camões, é que, sendo Deus soberano, justo e bom, é evidentemente a suprema justiça e a suprema bondade, pelo que devemos amar a justiça e a bondade acima de toda injustiça e de toda maldade. Amando a Deus sobre todas as coisas, através daquilo que de Deus podemos conhecer, que são os seus atributos, seremos capazes de realmente colocar Deus acima de tudo e de todos.

Assim compreendemos também o ensinamento do Cristo, de que devemos abandonar até mesmo os nossos pais, a nossa mulher e os nossos filhos, se o quisermos seguir. Pois o homem que ama a Deus, em espírito e verdade, sobre todas as coisas, está sempre com a verdade, a justiça, o amor, a bondade, a pureza, contra mesmo os seus próprios interesses da vida material. Coloca o seu amor a Deus acima das vantagens que pode auferir na vida, sempre que prefere a verdade à mentira, por mais fascinantes que sejam as promessas desta. E não terá dúvidas em romper com os próprios pais, a mulher e os filhos, quando estes ficarem com a mentira ou a injustiça, pois ele, fiel ao seu amor a Deus, preferirá sempre a justiça e a verdade.

Neste caso, porém, até o materialista não poderia amar a Deus mais eficientemente do que muitos religiosos, e de maneira mais real?

Já nos dirigiram, certa vez, essa pergunta, que vamos responder.

Do livro “O Sentido da Vida”, de José Herculano Pires.

Sobre o autor:

José Herculano Pires (Avaré, SP, 25 de setembro de 1914, — São Paulo, SP, 9 de março de 1979) foi um jornalista, filósofo, educador, escritor e tradutor brasileiro.
Destacou-se como um dos mais ativos divulgadores do espiritismo no país. Traduziu os escritos de Allan Kardec e escreveu tanto estudos filosóficos quanto obras literárias inspiradas na Doutrina Espírita.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Máximas Extraídas do Ensinamento dos Espíritos


35. O objetivo essencial do Espiritismo é o adiantamento dos homens. Não é necessário procurar senão o que pode ajudar ao progresso moral e intelectual.

36. O verdadeiro Espírita não é aquele que crê nas manifestações, mas aquele que aproveita o ensinamento dado pelos Espíritos. De nada serve crer, se a crença não o faz dar um passo à frente no caminho do progresso e não o torna melhor para o seu próximo.

37. O egoísmo, o orgulho, a vaidade, a ambição, a cupidez, o ódio, a inveja, o ciúme, a maledicência, são para a alma ervas venenosas das quais é necessário cada dia arrancar algum pé e que têm, como antídoto: a caridade e a humildade.

38. A crença no Espiritismo não é aproveitável senão àquele que se pode dizer: Valho melhor hoje que ontem.

39. A importância que o homem dá aos bens temporais está na razão inversa de sua fé na vida espiritual; é a dúvida sobre o futuro que leva-o a procurar suas alegrias nesse mundo, satisfazendo suas paixões, inclusive às expensas de seu próximo.

40. As aflições na Terra são os remédios da alma; elas a salvam para o futuro como uma operação cirúrgica dolorosa salva a vida de um doente e lhe devolve a saúde. Por isso o Cristo disse: "Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados."

41. Nas vossas aflições, olhai abaixo de vós e não acima; pensai naqueles que sofrem ainda mais que vós.

42. O desespero é natural naquele que crê que tudo acaba com a vida do corpo; é um contra-senso naquele que tem fé no futuro.

43. O homem, frequentemente, é o artífice de sua própria infelicidade neste mundo; que ele remonte à fonte de seus infortúnios e verá que são, para a maioria, o resultado de sua imprevidência, de seu orgulho, de sua avidez e, por conseguinte, de sua infração à lei de Deus.

44. A prece é um ato de adoração. Orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunicação com ele.

45. Aquele que ora com fervor e confiança é mais forte contra as tentações do mal e Deus lhe envia os bons Espíritos para ajudá-lo. É um socorro que jamais é recusado quando pedido com sinceridade.

46. O essencial não é muito orar, mas orar bem. Certas pessoas creem que todo o mérito está no tamanho da prece, ao passo que elas fecham os olhos sobre seus próprios defeitos. A prece é para elas uma ocupação, um emprego do tempo mas não um estudo de si mesmas.

47. Aquele que pede a Deus o perdão de suas faltas, não o obtêm senão mudando de conduta. As boas ações são a melhor das preces, porque os atos valem mais que as palavras.

48. A prece é recomendada por todos os bons Espíritos; ela é, por outro lado, pedida por todos os Espíritos imperfeitos como um meio de aliviar seus sofrimentos.

49. A prece não pode mudar os decretos da Providência; mas, em vendo que se interessa por eles, os Espíritos sofredores sentem-se menos abandonados; são menos infelizes; ela aumenta sua coragem, excita neles o desejo de se elevar pelo arrependimento e a reparação, e pode desviá-los do pensamento do mal. É nesse sentido que ela pode não somente aliviar, mas abreviar seus sofrimentos.

50. Orai, cada um, segundo suas convicções e o modo que acredita o mais conveniente, porque a forma não é nada, o pensamento é tudo; a sinceridade e pureza de intenção são essenciais; um bom pensamento vale mais que numerosas palavras, que se assemelham ao ruído de um moinho e onde o coração não está em nada.

51. Deus fez homens fortes e poderosos para serem o sustentáculo dos fracos; o forte que oprime o fraco é maldito de Deus; frequentemente, disso recebe o castigo nesta vida, sem prejuízo do futuro.

52. A fortuna é um depósito do qual o possuidor não tem senão que usufruí-lo, uma vez que não o carrega com ele no túmulo; ele prestará uma conta severa do emprego que houver feito dele.

53. A fortuna é uma prova mais difícil que a miséria, porque é uma tentação para o abuso e os excessos, e é mais difícil ser moderado que ser resignado.

54. O ambicioso que triunfa e o rico que se farta de gozos materiais são mais a lamentar do que a invejar, porque é necessário ver o retorno. O Espiritismo, pelos terríveis exemplos daqueles que viveram e que vêm revelar sua sorte, mostra a verdade desta palavra do Cristo: “Aquele que se orgulha será humilhado e aquele que se humilha será elevado."

55. A caridade é a lei suprema do Cristo: "Amai-vos uns aos outros como irmãos; amai vosso próximo como a vós mesmos; perdoai os vossos inimigos; não façais a outrem o que não gostaríeis que vos fizésseis"; tudo isso se resume na palavra caridade.

56. A caridade não está somente na esmola, porque há caridade em pensamentos, em palavras e em atos. Aquela é caridade em pensamentos, que é indulgente para com as faltas de seu próximo; caridade em palavras, que não diz nada que possa prejudicar o seu próximo; caridade em ações, que assiste seu próximo na medida de suas forças.

57. O pobre que reparte seu pedaço de pão com um mais pobre do que ele é mais caridoso e tem mais mérito aos olhos de Deus que aquele que dá de seu supérfluo, sem de nada se privar.

58. Quem nutre contra seu próximo sentimentos de animosidade, de ódio, de ciúme e de rancor, não é caridoso; ele mente e se diz cristão, e ofende a Deus.

59. Homens de todas as castas, de todas as seitas e de todas as cores, todos sois irmãos, porque Deus vos chama a todos para ele; estendei-vos, pois, a mão, qualquer que seja a vossa maneira de adorá-lo e não lanceis anátema, porque o anátema é a violação da lei de caridade proclamada pelo Cristo.

60. Com o egoísmo, os homens estão em luta perpétua; com a caridade, estarão em paz. A caridade, fazendo a base de suas instituições, só ela pode, pois, assegurar sua felicidade neste mundo; segundo as palavras do Cristo, só ela pode também assegurar sua felicidade futura, porque encerra, implicitamente, todas as virtudes que podem conduzi-los à perfeição. Com a verdadeira caridade, tal qual ensinou e praticou o Cristo, não mais de egoísmo, de orgulho, de ódio, de ciúme, de maledicência; não mais de agarramento desordenado aos bens deste mundo. Por isso o Espiritismo cristão tem por máxima:

FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO.

Texto do livro “O Espiritismo em sua mais simples Expressão”, de Allan Kardec, itens de 35 a 60.

Sobre o autor:

Hippolyte Léon Denizard Rivail foi um influente educador, autor e tradutor francês. Sob o pseudônimo de Allan Kardec, notabilizou-se como o codificador do Espiritismo, também denominado de Doutrina Espírita.

sábado, 2 de julho de 2016

Especial do Mês


Nesse mês, com o especial “Clássicos do Espiritismo”, o Manancial de Luz presta uma homenagem aos pensadores espíritas clássicos, cujas obras contribuíram na estruturação e edificação da doutrina espírita ao longo de um século e meio de sua codificação realizada por Allan Kardec.
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