Essas três questões formam um conjunto muito rico, porque Kardec procura esclarecer o que acontece com o Espírito entre uma encarnação e outra, quanto pode durar esse período e por que ele pode ser mais ou menos prolongado. A resposta dos Espíritos também permite compreender melhor conceitos fundamentais como erraticidade, livre-arbítrio, expiação, progresso e reencarnação.
As questões 224, 224-a e 224-b, de O Livro dos Espíritos, apresentam uma visão muito diferente daquela que considera a morte como o fim da existência ou o Espírito desencarnado como alguém que simplesmente permanece aguardando uma nova vida.
Quando Kardec pergunta:
“Que é a alma no intervalo das encarnações?”
os Espíritos respondem:
“Espírito errante, que aspira a novo destino, que espera.”
Aqui encontramos uma expressão que merece especial atenção: “Espírito errante”.
Na linguagem espírita, errante não significa perdido, sem rumo ou condenado a vagar indefinidamente. Erraticidade é o estado do Espírito no intervalo entre duas encarnações. O Espírito deixou o corpo físico, mas ainda não voltou a uma nova existência corporal.
É, portanto, uma condição transitória da vida espiritual.
O Espírito continua existindo, pensando, aprendendo e preparando-se para novas experiências. A encarnação e a desencarnação são, nessa perspectiva, diferentes momentos de uma mesma trajetória evolutiva.
“Que aspira a novo destino, que espera”
A expressão utilizada pelos Espíritos também é muito significativa.
O Espírito errante “aspira a novo destino” porque a vida espiritual não representa o ponto final de sua caminhada. O Espírito conserva suas conquistas, suas tendências, seus conhecimentos e também suas imperfeições.
Ele sabe que precisa continuar progredindo.
Por isso, a reencarnação não deve ser entendida como uma simples repetição da existência anterior. Cada nova experiência corporal constitui uma oportunidade de aprendizado, reparação, desenvolvimento das virtudes e superação das imperfeições.
O Espírito que compreende sua condição percebe que ainda tem muito a aprender.
E ele espera.
Mas essa espera não precisa ser compreendida como uma espera passiva. O Espírito, segundo os ensinamentos espíritas, pode utilizar a vida espiritual para refletir sobre suas experiências, avaliar suas escolhas, estudar e preparar-se para novas experiências, conforme seu grau de entendimento e suas necessidades evolutivas.
A duração da erraticidade — Questão 224-a
Kardec pergunta:
“Quanto podem durar esses intervalos?”
A resposta é extraordinariamente ampla:
“Desde algumas horas até alguns milhares de séculos.”
E os Espíritos acrescentam que não há extremo limite estabelecido para o estado de erraticidade, embora ele “nunca seja perpétuo”.
Essa resposta nos mostra que não existe um prazo único para o retorno de todos os Espíritos à experiência corporal.
A evolução espiritual não funciona segundo um calendário uniforme.
Cada Espírito possui necessidades, conquistas, débitos e condições próprias. Por isso, o intervalo entre as encarnações pode ser muito diferente de um Espírito para outro.
Mais importante ainda é compreender a finalidade desse intervalo.
Os Espíritos afirmam que, cedo ou tarde, o Espírito terá de voltar a uma existência apropriada a “purificá-lo das máculas de suas existências precedentes.”
A palavra purificação, aqui, não deve ser entendida como uma punição arbitrária ou como uma condenação imposta por um Deus vingativo.
Na perspectiva espírita, Deus oferece ao Espírito novas oportunidades de aprendizado e transformação.
A reencarnação está, portanto, relacionada à lei de progresso.
O Espírito retorna à experiência corporal porque ainda precisa desenvolver determinadas qualidades, corrigir determinadas tendências, reparar determinadas consequências de seus atos e adquirir experiências que contribuam para sua evolução.
Assim, a reencarnação é simultaneamente oportunidade, aprendizado e responsabilidade.
A erraticidade pode ser muito longa, mas não é eterna
Existe uma ideia particularmente consoladora nessa resposta: a erraticidade não é perpétua.
Nenhum Espírito está destinado eternamente à estagnação.
Mesmo aquele que tenha cometido graves erros permanece submetido à lei do progresso.
Isso significa que, na visão espírita, o destino final de todos os Espíritos é o progresso e a felicidade decorrente da conquista da perfeição relativa.
Pode haver demora, resistência, sofrimento e escolhas equivocadas. Mas não existe uma condenação eterna ao erro.
Essa concepção modifica profundamente nossa compreensão da justiça divina.
A justiça de Deus não consiste simplesmente em punir o Espírito pelo erro cometido, mas em oferecer-lhe condições para compreender, reparar e transformar-se.
Questão 224-b — O Espírito escolhe permanecer na erraticidade?
Kardec então aprofunda a questão:
“Essa duração depende da vontade do Espírito, ou lhe pode ser imposta como expiação?”
A resposta é:
“É uma consequência do livre-arbítrio.”
Aqui aparece um dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita: o livre-arbítrio.
O Espírito participa, dentro dos limites de sua compreensão e de sua condição evolutiva, das escolhas que determinam sua trajetória.
Assim, a permanência mais ou menos prolongada na erraticidade pode decorrer de suas próprias escolhas.
Um Espírito que compreende a necessidade de retornar à experiência corporal pode desejar uma nova encarnação. Outro pode preferir permanecer por determinado período no mundo espiritual, dedicando-se ao estudo e à preparação.
A resposta, entretanto, apresenta uma importante ressalva:
“Mas, também, para alguns, constitui uma punição que Deus lhes inflige.”
Essa afirmação precisa ser compreendida juntamente com o princípio da justiça divina apresentado ao longo da obra.
Não se trata de imaginar Deus impondo uma punição arbitrária, semelhante a uma sentença humana.
A chamada punição espiritual está relacionada às consequências das escolhas do próprio Espírito e às necessidades educativas de sua evolução.
Em determinados casos, permanecer na erraticidade pode constituir uma experiência dolorosa para o Espírito justamente porque ele deseja uma determinada condição que ainda não está preparado para alcançar ou porque precisa enfrentar as consequências de suas próprias escolhas.
A justiça divina, portanto, está inseparavelmente ligada à finalidade educativa.
Há Espíritos que desejam prolongar a erraticidade
E chegamos a uma das partes mais interessantes da resposta:
“Outros pedem que ela se prolongue, a fim de continuarem estudos que só na condição de Espírito livre podem efetuar-se com proveito.”
Aqui percebemos que a vida espiritual não é apresentada simplesmente como um período de espera pela próxima encarnação.
Para determinados Espíritos, ela pode constituir uma oportunidade valiosa de estudo e preparação.
O Espírito desencarnado encontra-se livre das limitações próprias do organismo físico e, conforme sua condição espiritual, pode dedicar-se a determinadas atividades que não seriam realizadas com a mesma facilidade durante a encarnação.
Isso também demonstra que o mundo espiritual não é um lugar de ociosidade.
A Doutrina Espírita apresenta a vida espiritual como uma continuidade da vida, na qual o Espírito permanece ativo e pode trabalhar em seu próprio aperfeiçoamento e, de acordo com seu grau evolutivo, colaborar com outros Espíritos.
O ponto central: não existe uma regra única para todos
As três questões, tomadas em conjunto, apresentam uma ideia fundamental:
cada Espírito possui uma trajetória própria.
Não podemos, portanto, estabelecer uma regra segundo a qual todo Espírito desencarnado deverá reencarnar imediatamente, ou depois de determinado número de anos, ou permanecer obrigatoriamente por um período específico no mundo espiritual.
A resposta dos Espíritos é clara ao apresentar uma enorme variedade de possibilidades:
algumas horas, milhares de séculos, ou períodos intermediários.
Isso nos ensina a não transformar informações gerais da Doutrina Espírita em fórmulas rígidas aplicáveis indistintamente a todos os Espíritos.
A evolução é individual.
Uma reflexão muito importante sobre o livre-arbítrio
A questão 224-b também nos ajuda a compreender que liberdade e responsabilidade caminham juntas.
O Espírito é livre, mas sua liberdade não elimina as consequências de suas escolhas.
Se utiliza mal o livre-arbítrio, terá de enfrentar as consequências de seus atos.
Se utiliza bem sua liberdade, conquista novas possibilidades de progresso.
Por isso, na visão espírita, não somos vítimas de um destino previamente determinado.
Somos Espíritos em processo de construção de nosso próprio destino, dentro das leis divinas que regem a evolução.
A reencarnação oferece novas oportunidades, mas não elimina a responsabilidade pelo que fazemos com elas.
O que essas questões nos ensinam sobre a morte?
Talvez uma das maiores consequências desses ensinamentos seja a mudança de nossa compreensão da própria morte.
Se o Espírito continua existindo depois da morte corporal, então a morte não interrompe a vida.
Interrompe-se a experiência física, mas não a existência espiritual.
O Espírito passa à erraticidade, onde continuará sua caminhada, até que novas circunstâncias o conduzam a uma experiência corporal ou até que, pelo seu progresso, já não necessite das mesmas experiências reencarnatórias.
Desse modo, a morte deixa de ser compreendida como um fim absoluto e passa a ser vista como uma passagem de uma condição de existência para outra.
E o que isso nos ensina sobre a nossa encarnação atual?
Essas questões também nos convidam a olhar para a existência presente com maior responsabilidade.
Se somos Espíritos imortais, nossa vida atual não é um acontecimento isolado.
Ela faz parte de uma história muito mais ampla.
Nossos relacionamentos, nossas dificuldades, nossas oportunidades de aprendizado, nossas escolhas e nossas atitudes possuem importância para nossa evolução.
Não devemos, entretanto, interpretar cada sofrimento como uma punição específica por determinado erro de uma existência anterior. A Doutrina Espírita nos convida à prudência: não conhecemos todas as causas que determinam as experiências de cada pessoa.
O que sabemos é que toda dificuldade pode tornar-se uma oportunidade de crescimento quando enfrentada com fé, responsabilidade, resignação ativa e esforço de transformação.
Uma síntese das três questões
Podemos resumir o ensinamento dessa passagem de O Livro dos Espíritos da seguinte maneira:
Questão 224: o Espírito, entre as encarnações, encontra-se em estado de erraticidade e aguarda novas experiências dentro de sua trajetória evolutiva.
Questão 224-a: esse período pode ser extremamente variável, desde muito curto até períodos imensamente longos; não há um prazo único para todos os Espíritos, embora a erraticidade não seja eterna.
Questão 224-b: a duração relaciona-se ao livre-arbítrio e às necessidades evolutivas do Espírito; para alguns, pode envolver uma condição expiatória, enquanto outros podem voluntariamente prolongá-la para realizar estudos e atividades proveitosas no mundo espiritual.
Em uma frase:
Entre uma encarnação e outra, o Espírito não deixa de viver: ele continua sua jornada, aprende, reflete, escolhe e se prepara para novas experiências, sempre submetido à lei de progresso e à justiça divina.
E talvez a grande lição dessas três questões seja esta:
Não somos seres humanos destinados a uma vida espiritual; somos Espíritos imortais vivendo, temporariamente, uma experiência humana.
Essa compreensão amplia nossa responsabilidade diante da existência. Se a vida corporal é apenas uma etapa, cada oportunidade de amar, perdoar, servir, aprender e vencer uma imperfeição representa um investimento na eternidade do nosso próprio Espírito.


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