terça-feira, 21 de outubro de 2014

Palavras aos Evangelizadores da Infância


“Encarnando, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir aqueles incumbidos de educá-lo.” (O Livro dos Espíritos, 383)

A visão que se tem da criança pela ótica espírita difere fundamentalmente da que é sustentada pelas doutrinas que pregam a unicidade da existência corpórea.

Para essas correntes de pensamento religioso, a criança traz, ao nascer, apenas os ascendentes biológicos, que seriam herdados dos antepassados, próximos ou remotos. A concepção espírita difere, também, de outras doutrinas reencarnacionistas que consideram a volta do Espírito ao mundo material apenas com fins punitivos ou, quando muito, para o cumprimento de uma missão.

O Espiritismo não nega a reencarnação missionária, e ensina que aquilo que é visto como punição é apenas o funcionamento da lei de causa e efeito. Entretanto, vai além, ampliando a compreensão da própria vida, ao revelar o aspecto evolutivo da reencarnação.

Vista sob essa ótica, a criança é um Espírito imortal, detentor de imensa bagagem de experiências vivenciadas em outras épocas, herdeira de si mesma, que retorna à Terra a fim de adquirir novos conhecimentos e, principalmente, de reformular sua maneira de proceder, ajustando-a, tanto quanto possível, aos postulados do Evangelho de Jesus. Assim, aprendemos, no Espiritismo, que reencarnamos para prosseguirmos a nossa jornada evolutiva. Ao responderem a Kardec a respeito da utilidade de passar pelo estado de infância, os Espíritos Superiores atribuíram a responsabilidade da execução dos procedimentos educativos, não só aos pais, mas a todos aqueles que têm oportunidade de propiciar à criança ensinamentos e exemplos que a ajudem a adquirir novos conhecimentos e a reformular seu modo de proceder, ou seja, de reeducar-se através do esforço consciente, no sentido de exteriorizar sua luz, herança divina de que todos os Espíritos somos dotados, conforme ensinamento de Jesus (Mt, 5: 16).

Escola de Evangelização: Posto Avançado do Mundo Espiritual– Dentre esses “incumbidos de educá-lo”, conforme expressão dos Espíritos, estamos nós, evangelizadores da infância, ligados a esses irmãos recém-chegados do Mundo Espiritual, não pelos laços da consanguinidade nem do parentesco físico, mas pelos mais sagrados elos da nobre tarefa que assumimos perante o Evangelizador Maior.

Entendemos, assim, que fomos admitidos num trabalho que é continuação daquele iniciado no Mundo Espiritual, na preparação do Espírito para sua volta às lides terrenas. Ao considerarmos a Escola Espírita de Evangelização como um Posto Avançado do Mundo Espiritual, devemos meditar sobre a extensão e a responsabilidade da tarefa que nos é atribuída.

Conscientes dessa grave responsabilidade, qual seja a de iluminar consciências, urge que nos preparemos convenientemente através da oração sincera, da meditação serena, do estudo edificante, a fim de que nossa palavra, portadora de carga magnética gerada na convicção profunda, e não apenas na informação superficial, possa tocar os pequeninos, pois quem não está convencido do que diz raramente consegue convencer alguém. Como exemplo, é oportuna a lembrança das palavras do Benfeitor Alexandre, citadas no livro “Missionários da Luz”, à página 311: “O companheiro que ensina a virtude, vivendo-lhe a grandeza em si mesmo, tem o verbo carregado de magnetismo positivo, estabelecendo edificações espirituais nas almas que o ouvem. Sem essa característica, a doutrinação, quase sempre, é vã”. Desse modo, a palavra suave, embora firme, nos abrirá as portas do entendimento da criança, propiciando-nos oportunidade à semeadura das lições do Evangelho, agora explicado à luz da Doutrina Espírita.

Três preocupações importantes: o pensar,o sentir e o fazer – Devemos ter consciência de que a Escola Espírita de Evangelização – chamada afetivamente de “escolinha” – é, malgrado o pouco tempo de que dispomos para o convívio com a criança, apesar da incompreensão de muitos dirigentes de centros espíritas e das dificuldades materiais, a escola que mais esclarece no mundo, aquela mais propícia à implantação dos tempos novos, em face dos ensinamentos libertadores, capazes de levar o evangelizando a uma mudança de mentalidade, que o capacitará a colaborar efetivamente na implantação de uma sociedade mais justa, mais fraterna, dos tempos novos, conforme preconizam os Espíritos.

Importa seja lembrado também que o Espiritismo, ao trazer-nos de volta os ensinamentos de Jesus, na sua simplicidade, objetividade e pujança originais, tira-nos aquele sentimento místico do comparecimento ao templo – assim chamado casa de Deus– e nos revela o mundo como oficina da nossa vivência religiosa, portanto do nosso aperfeiçoamento. Tira-nos, também, outro referencial religioso, além do templo, qual seja a figura do sacerdote, do pastor, do guru.

Tendo isso em mente, devemos meditar sobre o que representamos para a criança, que nos observa efetivamente como referencial religioso, embora nos empenhemos em mostrar-lhe as figuras veneráveis que, através dos tempos, têm trazido suas contribuições para a iluminação da criatura humana, no que se destaca a figura maior de Jesus.

Assim pensando, devemos nos empenhar, com toda a força do nosso entendimento, no sentido de nos aprimorarmos cada vez mais para a execução do nosso trabalho junto à criança. Esse aprimoramento envolve três aspectos principais, que devem ocupar o primeiro plano das preocupações do evangelizador: o pensar, o sentir e o fazer. Na casa espírita a Evangelização da Criança deve ter primazia– O pensar nos leva à reflexão, à conscientização plena do valor do nosso trabalho.

Quando meditamos sobre nossa atuação no setor de evangelização infantil, devemos avaliar o nível do nosso comprometimento com a tarefa; que espaço ela ocupa em nossa mente; quantas horas por semana dedicamos ao preparo da mensagem que levaremos à criança, que espera de nós a orientação a fim de que caminhe com segurança neste mundo tão conturbado em que vivemos. Sem que nos julguemos grandes missionários ou Espíritos iluminados, é justo que tenhamos consciência da relevância e do valor da tarefa a que nos dispomos, ainda que a nossa turma de evangelizandos seja pequena, que seja “turma” de um só! E quando nos ocorra a dúvida a respeito da validade do nosso esforço, devemos nos lembrar de que no trabalho mediúnico de desobsessão – que deveria denominar-se “evangelização do desencarnado” – um grupo de várias pessoas se empenha, às vezes durante muito tempo, no encaminhamento de um único Espírito que trilha caminho equivocado, não raro por não ter sido evangelizado na infância.

Ao serem examinados os resultados das tarefas desenvolvidas nas instituições espíritas, fica evidente que a Evangelização da criança é a atividade mais importante, de vez que beneficia o Espírito desde a fase infantil, influenciando seu proceder, dando-lhe diretrizes que o ajudarão não só nesta sua passagem pela Terra, mas que servirão como farol a iluminar-lhe a consciência em sua vida de Espírito imortal. Por isso é que, embora reconhecendo o valor das outras tarefas desenvolvidas nos centros espíritas, chega-se facilmente à conclusão que a Evangelização da Criança deveria ter primazia, deveria ser atividade olhada com a maior responsabilidade por parte dos dirigentes das instituições espíritas, por ser a encaminhadora do Espírito, numa verdadeira continuação do trabalho iniciado no Mundo Espiritual, durante os preparativos para sua volta.

Todos temos em nós o amor, em estado de latência– É a consciência profunda do insubstituível valor da tarefa que nos deve alentar nos momentos de desânimo, quando a incompreensão dos dirigentes da casa onde trabalhamos, a falta de espaço físico, de material apropriado, a falta de cooperação dos próprios pais, as dificuldades com a criança, todas essas dificuldades quiserem nos tirar dessa seara bendita a que fomos convocados.

O Evangelizador deve empenhar-se, também, no desenvolvimento da sua capacidade de sentir. Todos temos em nós o amor, em estado de latência. Essa herança divina, que se revela através dos séculos sucessivos, pode ter sua exteriorização acelerada pelo esforço consciente da criatura. E o Evangelizador é desafiado ao esforço de amar, pois quem não ama não tem condição de suscitar nos pequeninos o desejo de amar. O pensar é muito importante, imprescindível mesmo. Mas o pensar sem o sentir pode levar-nos a uma postura muito fria, muito calculada que, embora matematicamente certa dentro dos parâmetros meramente pedagógicos, vistos do ângulo acadêmico, não se coaduna com o espírito do trabalho de evangelização, que deve primar pelo incentivo ao desenvolvimento das virtudes preconizadas pelo Evangelho.

Dentro dessa visão, o nosso fazer nos aponta o caminho do esforço na preparação das aulas, no que tange ao conteúdo a ser ministrado, ao material a ser usado, mas, principalmente, o caminho do esforço da preparação da nossa capacidade de sentir, de amar, iluminando-nos para que possamos iluminar consciências.

José Passini

domingo, 19 de outubro de 2014

Evangelizar Cantando

O Evangelho falando através das mensagens de paz e sabedoria e pelas canções interpretadas pela cantora e médium espírita, Elizabete Lacerda. A palestra musical “Evangelizar Cantando” foi realizada na noite de 30.08, juntamente com a Rede Amigo Espírita na Associação Espírita Beneficente Humberto de Campos, na cidade de Indiaporã/SP. Uma das mais belas exposições espíritas assistida por mim em vídeo nesses últimos dias.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Desafios da Educação Espírita

Uma entrevista com Martha Rios Guimarães à Revista Internacional de Espiritismo

Atividade, fundamental para a continuidade da divulgação do Espiritismo, deve ser uma das prioridades no Centro Espírita


Martha Rios Guimarães, carinhosamente conhecida como Marthinha, é frequentadora do Centro Espírita Gabriel Ferreira, em São Paulo (SP), e jornalista responsável pelo jornal Dirigente Espírita, publicação da União das Sociedades Espírita do Estado de São Paulo. No “Gabi” (como é conhecido o centro espírita que frequenta), atua na área de Educação Espírita Infantojuvenil há mais de duas décadas, adquirindo experiências que proporcionaram a elaboração do livro Comece pelo Comecinho – Educação Espírita Infantojuvenil: uma proposta de trabalho, editado pela Casa Editora O Clarim. Nesta entrevista, Marthinha fala sobre as dificuldades, alternativas e soluções para implantação e continuidade da atividade nas casas espíritas.

RIE – Martinha, como se deram seus primeiros contatos com o Espiritismo e, posteriormente, com o trabalho de educação infantojuvenil?

Martha Rios Guimarães – Eu busquei a Doutrina Espírita porque queria respostas a muitas dúvidas que tinha. A religião em que fui criada – que respeito, como todas as demais – não me fornecia esclarecimentos aos inúmeros questionamentos que eu carregava comigo desde bem novinha. Queria entender, por exemplo, o porquê da desigualdade e o que acontecia conosco após o final da existência física. Ao conhecer os ensinamentos espíritas, um mundo totalmente novo se abriu para mim, dando um outro significado à minha existência. Amei a Doutrina Espírita instantaneamente e, então, decidi que precisava fazer algo de útil por ela. Foi quando surgiu a oportunidade de trabalho na área de Infância e Mocidade. Mesmo nova e sem experiência, aceitei o desafio e busquei informações que possibilitassem o desenvolvimento da tarefa proposta. Essa busca por informações, ainda bem, jamais deixou de existir em mim.

RIE – Fale-nos sobre o livro Comece pelo Comecinho, lançado em 2011 pela Casa Editora O Clarim.

Marthinha – O livro é o resultado de 20 anos de experiência na área de Educação Espírita Infantojuvenil, todos eles atuando no Centro Espírita Gabriel Ferreira, situado na zona norte de São Paulo. Ao escrevê-lo, meu objetivo era repartir as experiências dessas duas décadas com outras pessoas que tivessem interesse na atividade. Surpreendi-me com a aceitação e o carinho dos leitores, que enviam e-mails carinhosos afirmando que a obra os tem ajudado na tarefa e, até mesmo, confidenciando dúvidas e informando conquistas no setor.

RIE – Logo no primeiro capítulo, você faz uma distinção entre os termos Evangelização e Educação Espírita. Por quê?

Marthinha – Penso que nomenclaturas são importantes. Tanto que Allan Kardec criou nomes específicos para a nova doutrina e seus adeptos. O nome dado à tarefa de levar a mensagem espírita a crianças e jovens modificou-se ao longo do tempo, já tendo sido chamada desde moral cristã e catecismo espírita até evangelização espírita, este último atualmente o ainda mais utilizado. Porém, cada dia mais os trabalhadores do setor vêm usando o termo Educação Espírita Infantojuvenil. Evangelizar significa ensinar o Evangelho, ou seja, a parte moral da Doutrina Espírita, doutrina que possui ainda os aspectos filosófico e científico. Nossa proposta é usar toda a base doutrinária kardequiana no trabalho com crianças e jovens, obviamente usando linguagens e recursos adequados para a compreensão de cada faixa etária. Por isso, acredito que a nomenclatura Educação Espírita é a mais adequada.

RIE – Você considera que a atividade de Educação Espírita Infantojuvenil ainda é subvalorizada nos Centros Espíritas?

Marthinha – Não tenho a menor dúvida, infelizmente. Prova dessa afirmativa é o fato de nem todas as instituições possuírem o trabalho. Ou, então, possuem uma atividade de recreação, quando as crianças brincam enquanto os pais assistem tranquilamente às reuniões. Há que se conscientizar que, como qualquer outra tarefa, essa precisa ser cuidadosamente planejada, pautada na base kardequiana, com pessoal capacitado para desempenhá-la, avaliação e melhorias constantes. Caso contrário, como coloco no livro (detalhe muito comentado pelos leitores), teremos uma “chapelaria”, um local onde se depositam as crianças e jovens, e não uma reunião espírita em uma linguagem adequada a esse público.

RIE – E, se falta apoio, como motivar e qualificar os trabalhadores para a atividade?

Marthinha – Eu creio que quando acreditamos realmente em algo, devemos nos esforçar para seu desenvolvimento. Ainda que seja dever dos Dirigentes oferecer todo o apoio possível para que a tarefa se desenvolva com qualidade, o tarefeiro que entende a importância de colocar a mensagem espírita ao alcance dos mais jovens deve empenhar-se no cumprimento de seu papel. Refiro-me ao amor e comprometimento com a tarefa, somados à busca ininterrupta por elementos que possibilitem sua implantação, começando pelo estudo metódico e constante da Doutrina Espírita (principalmente nas quase oito mil páginas deixadas pelo Codificador), na busca por materiais da área de pedagogia, psicologia e outros relacionados com a tarefa. Cabe ao Educador, ainda, participar de cursos, oficinas e iniciativas congêneres onde possa trocar ideias e experiências com tarefeiros de outras Casas Espíritas. Enfim, quando escolhemos um trabalho, devemos empreender todos os esforços imagináveis para que o façamos da melhor forma possível.

RIE – As crianças vivem inseridas em um mundo dinâmico e rodeadas por aparelhos de alta tecnologia desde muito pequenas. Dessa maneira, como despertar o interesse delas para as aulas no Centro Espírita?

Marthinha – Creio que muitas Casas Espíritas estão aptas a usar a tecnologia como um dos recursos à disposição dos educandos. Existem no mercado, por exemplo, games educativos que podem ser usados como ferramenta de trabalho do educador. Acesso à rede mundial de computadores também é algo comum, podendo ser um dos elementos das aulas espíritas destinadas a esse público (e aos de todas as idades, aliás). Sabendo utilizá-los, esses recursos podem tornar as aulas mais interessantes. Contudo, a meu ver, não devem ser os únicos atrativos utilizados, mas devem fazer parte de um variado leque de opções. Recursos repetitivos tornam-se cansativos e deixam as aulas previsíveis. Além disso, creio eu, os educadores têm a grande oportunidade de mostrar aos educandos uma variedade de brincadeiras interessantes ou despertar o interesse pela leitura, por exemplo. Em nossas aulas utilizamos a literatura, jogos espíritas, jardinagem, culinária, fotografia e uma ampla variedade de recursos.

RIE – Qual a importância de integrar a atividade infantojuvenil com as atividades direcionadas aos adultos?

Marthinha – Fundamental. Tradicionalmente, este é um trabalho que fica à parte da Casa Espírita. Um dos motivos é porque, normalmente, ele ocorre em dias específicos para essa atividade, sem a presença do público em geral. Na nossa Casa, ao contrário, a reunião das crianças e jovens ocorre em paralelo a uma reunião pública para adultos, promovendo uma integração natural entre as pessoas de todas as idades. Sei que muitas instituições não têm alternativa por conta de espaço, mas naquelas que têm estrutura física que possibilite essa confraternização, creio ser uma experiência que vale a pena ser tentada.

RIE – Como lidar com os educandos que trazem conceitos de outras religiões para as aulas?

Marthinha – Penso que a única forma é o diálogo e o esclarecimento, à medida que surgirem as dúvidas dos menores. Atualmente, é comum as crianças chegarem às Casas Espíritas já com algumas informações sobre a Doutrina Espírita. Aulas planejadas e bem elaboradas facilitam o processo, uma vez que levam em conta, entre outros fatores, a base religiosa que a criança traz ao chegar à Casa Espírita. Para isso, obviamente, há que se conhecer bem o público com que se trabalha e para isso, a única forma é mesmo a conversa e a observação atenta de cada participante do grupo.

RIE – E como lidar com alunos especiais ou que necessitam de mais atenção para acompanhar o ritmo dos demais?

Marthinha – Precisamos entender que cada criança é um ser único e, como tal, merece ser assim tratada. Também precisamos lembrar que as dificuldades são apenas do corpo e não do Espírito. O educador que recebe um educando especial precisa buscar informações na família ou em sites, escolas especiais, ONGs, etc. sobre a dificuldade que o pequeno possui, preparando-se para transpor todos os obstáculos que possam surgir, e lembrando que esses desafios colaboram para próprio aprendizado e crescimento. O convívio com as diferenças é algo extremamente positivo para todos e precisa ser encarado como tal. Nossa equipe, ao longo dessas duas décadas de trabalho, teve o privilégio de viver esse tipo de experiência e todos os envolvidos aprenderam muito com o processo.

RIE – Aparentemente, existe uma lacuna entre os adolescentes na frequência ao Centro Espírita, mesmo participando das aulas durante a infância. Como despertar o interesse dos jovens em continuar participando dos estudos, agora na mocidade espírita?

Marthinha – A partir de uma certa idade, o jovem começa uma nova etapa de vida com trabalho, faculdade, relacionamentos, enfim, uma série de fatores que “competem” com a frequência à Casa Espírita. Nesse momento, a importância que esta e os ensinamentos doutrinários ocupam em seu cotidiano serão determinantes para que ele continue a achar espaço para ambos em sua vida. Logicamente que a relação que ele tem com a instituição, construída ao longo do tempo em que a frequenta, será determinante para manter ou não sua participação. Se, ao longo do tempo, ele foi acolhido de forma amorosa, encontrou amigos, teve contato positivo com a mensagem espírita, provavelmente, ele conservará seu vínculo com a sociedade também nessa fase de vida.

RIE – Suas considerações finais.

Marthinha – Agradeço a oportunidade para tratar da Educação Espírita Infantojuvenil, área que considero tão importante quanto às demais da Casa Espírita e, na minha opinião, a mais estratégica. Ao colocar a Doutrina Espírita ao alcance das crianças e jovens, estamos dando oportunidades para que eles, provavelmente, tomem decisões mais acertadas em sua atual existência. E quem sabe, ainda, de quebra, encontremos nas futuras lideranças espíritas pessoas com bons conhecimentos doutrinários e mais bem preparadas para assumir os desafios que o movimento espírita enseja a todos os que colaboram na divulgação da Terceira Revelação. Eu acredito nessas possibilidades e, exatamente por isso, sinto-me muito feliz e privilegiada por atuar junto a esse público.


Cássio Leonardo Carrara

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O Evangelizador Educador


A capacitação permanente é um dos requisitos fundamentais para que um evangelizador espírita consiga desincumbir-se a contento da sublime tarefa que abraçou. Capacitação aqui significa desenvolver e aperfeiçoar capacidades, desenvolver as que se encontram latentes e aperfeiçoar as que já estejam afloradas.

Capacitamos-nos quando estudamos com regularidade, continuidade e recolhimento o Espiritismo, conforme a proposta do Codificador, na introdução ao estudo da Doutrina Espírita, de O Livro dos Espíritos. Igualmente, quando participamos de encontros que ensejam reflexões e estímulos para mudanças, ouvimos os evangelizadores mais experientes e nos abrimos para aprender com os mais novos. Outro aspecto dessa capacitação, que é primordial, e sem o qual o anterior ficará comprometido, é a própria transformação moral do evangelizador, pois serão seus exemplos, mais do que suas palavras e práticas pedagógicas, que irão sensibilizar os evangelizandos.

A expressão evangelizador espírita é proposital e serve para distinguir quem evangeliza à luz do Espiritismo daqueles que evangelizam à luz de outra denominação religiosa que se apoie ou diga se apoiar no Cristianismo. Não se trata de um preciosismo, mas de uma distinção definidora de postura.

Significa ler e interpretar o Evangelho pela ótica da Doutrina Espírita, isto é, com racionalidade, lógica, retirando o espírito da letra, com respeito à diversidade cultural, étnica, econômica, social, religiosa, sexual, por meio de práticas libertadoras onde o Espírito reencarnado seja convidado a ampliar seu campo de consciência, se conhecendo e se solidarizando com as necessidades do seu próximo.

Outra distinção relevante é aquela que nos conduz a pensar que evangelizar com o Espiritismo é diferente de evangelizar para o Espiritismo.

Quando evangelizamos com o Espiritismo estamos baseando nosso planejamento e tudo o que ele comporta (conteúdos, concepção de ensino e de aprendizagem, critérios de avaliação, metodologia, fins, objetivos, recursos, grau de participação dos evangelizandos e seus respectivos pais etc.) na visão de mundo, de ser humano e de evolução que o Espiritismo engloba. Nesse caso, a proposta educativa espírita define os nossos objetivos e se constitui no eixo, no norte mesmo de tudo que venhamos a incluir ou excluir em nossa prática evangelizadora.

É próprio dessa perspectiva, trabalharmos visando a formação do homem de bem, do cidadão consciente, com visão crítica, política, cultural, mas com tudo isso alicerçado e permeado pelo Evangelho segundo a interpretação espírita. Nessa ótica, não se deve perder de vista que a família e a escola são agentes que se associam ao nosso trabalho, ora convergindo ora divergindo, mas atuando decisivamente na formação daqueles que estamos evangelizando.

Quando pensamos em evangelizar para o Espiritismo, definimos uma visão e uma postura estreita, onde os objetivos podem se restringir a formar futuros trabalhadores para as casas espíritas, pessoas que pensem na Doutrina como um fim e não como um meio de aperfeiçoamento intra e interpessoal.

Nesse caso, o foco é formar espíritas e, caso alcancemos esse objetivo de caráter tão estreito, esse seria o principal indicador de êxito da nossa ação evangelizadora.
Interessante também pensar que nem todo educador é um evangelizador, mas todo bom evangelizador espírita há de ser um genuíno e verdadeiro educador.

A competência para essa sublime tarefa também pode vir com o tempo, com o aprendizado recolhido dos êxitos e fracassos e ainda que traga experiências reencarnatórias relevantes, o evangelizador espírita não estará dispensado da tarefa de ampliar seus conhecimentos e melhorar-se moralmente.

Allan Kardec aponta em nota da questão 917 de O Livro dos Espíritos, três importantes e acessíveis requisitos que todo evangelizador pode e deve adquirir. Diz o Codificador que a educação é a chave do progresso moral, é uma arte que nos permite manejar os caracteres ou características dos educandos e que é preciso para entendê-la, assim como entendemos e manejamos as inteligências, da presença de tato, muita experiência e profunda observação.

Sabemos que a experiência vem com o tempo, da mesma maneira que o tato e a profunda observação. Para isso é importante que o evangelizador queira evangelizar evangelizando-se, que se identifique com esse tipo de tarefa, goste de estudar, tenha curiosidade em aprender e tenha também uma razoável autoestima, de modo que consiga convencer (esclarecer) e converter (tocar o coração) dos seus evangelizandos.

A presença de uma boa autoestima facilitará o trabalho de conduzir os evangelizandos a uma autoaceitação do que são e como são, instrumentalizando-os com coragem e conhecimentos para as transformações necessárias que vieram fazer.

Parafraseando Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo, quando escreve sobre Os bons espíritas, no capítulo XVII, item 4, diremos que se reconhece o verdadeiro evangelizador por sua vontade em manter-se permanentemente atualizado e pelos esforços constantes que emprega em aplicar a si o que ensina aos seus evangelizandos.


Cezar Braga Said

Fonte: Mundo Espírita - FEP (Federação Espírita do Paraná)

domingo, 12 de outubro de 2014

Palestra "A Evangelização da criança e do Jovem na família, no Centro Espírita e Movimento Espírita"

A pedagoga potiguar Sandra Borba e sua exposição “A Evangelização da Criança e do Jovem na Família, no Centro Espírita e Movimento Espírita”realizada para a 50º COMMETRIM, Confraternização de Mocidade e Madureza Espíritas do Triângulo Mineiro e Alto-Parnaíba, em Araxá-MG e transmitida pela Rádio Fraternidade.



sábado, 11 de outubro de 2014

Evangelização Espírita Infantil



“A Criança ainda é o sorriso do futuro na face do presente. Evangelizá-la é, pois, espiritualizar o porvir, legando-lhe a lição clara e pura do ensinamento cristão, a fim de que, verdadeiramente, viva o Cristo nas gerações de amanhã.” Francisco Spinelli

A Importância da Evangelização Infantil


"É possível a renovação do mundo em que habitamos, além da reforma interior de cada um para o bem, sem darmos à criança de hoje o embasamento evangélico?

Sem a renovação espiritual da criatura para o bem, jamais chegaríamos ao nível superior que nos compete alcançar. Ajudar a criança, amparando-lhe o desenvolvimento, sob a luz do Cristo, é cooperar na construção da reforma santificante da humanidade, na direção do mundo redimido de amanhã." (Emmanuel, Encontros no Tempo, 5. ed., perg. 42)

Por que o período infantil é o mais importante para a tarefa educativa?

“Encarnando, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir os incumbidos de educá-lo.” (Allan Kardec, O livro dos espíritos,76. ed., perg. 383).

“A delicadeza da idade infantil os torna brandos, acessíveis aos conselhos da experiência e dos que devam fazê-los progredir. Nessa fase é que se lhes pode reformar os caracteres e reprimir os maus pendores.” [...]. (Allan Kardec, O livro dos espíritos, 76. ed., perg. 385).

Por que a escola de evangelização espírita infantil antes dos 7 anos de idade?

“109. O período infantil é o mais importante para a tarefa educativa?

- O período infantil é o mais sério e o mais propício à assimilação dos princípios educativos.

- Até aos sete anos, o Espírito ainda se encontra em fase de adaptação para a nova existência que lhe compete no mundo. Nessa idade, ainda não existe uma integração perfeita entre ele e a matéria orgânica. Suas recordações do plano espiritual são, por isso, mais vivas, tornando-se mais suscetível de renovar o caráter e estabelecer novo caminho, na consolidação dos princípios de responsabilidade, […].

- Passada a época infantil, credora de toda vigilância e carinho por parte das energias paternais, os processos de educação moral, que formam o caráter, tornam-se mais difíceis com a integração do Espírito em seu mundo orgânico material,[...].”

(Emmanuel, O Consolador, 15. ed., perg. 109).

Qual deve ser o conteúdo espírita a ser estudado pela criança na escola de evangelização?

“Temos ouvido o espírito de Emmanuel há muitos anos com respeito a estes assuntos, […]. Nós sempre nos desvelamos em nossas casas, no ensino da bondade, do perdão, das atitudes evangélicas em si, mas precisávamos descobrir um meio de comunicar à criança, algum ensinamento em torno da Lei de Causa e Efeito, mostrando determinados tópicos dos mais expressivos para o mundo infantil, com respeito à reencarnação, um problema da imortalidade da alma.

Muitas vezes, nós esquecemos de conduzir a criança para este tipo de lição, para este tipo de comentários, com receio de apressar na mente das crianças determinados pensamentos com relação à morte do corpo.

Precisávamos estudar quais os meios de começar a oferecer à criança, bases para que ela se conheça no mundo em que está vivendo e naquele mundo social em que ela vai viver.”

(Emmanuel, A Terra e o Semeador, 7. ed., perg. 101)
Fonte: ocentroespirita.com

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Semear - O que é Evangelização Espírita Infantojuvenil

Uma exposição em vídeo do programa Semear, da FEB, sobre a evangelização espírita, sua finalidade, seus objetivos e eixos, bem como da sua importância e abrangência na sociedade em nossos dias. O vídeo faz também uma homenagem ao centenário da evangelização espírita que está sendo comemorado nesse ano.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

100 anos de Evangelização Espírita na FEB


2014 é o ano do centenário da Evangelização Espírita em nosso país.

A Escola Dominical de Doutrina Cristã foi implantada na tarde do dia 14 de junho de 1914, na então Sede da Federação Espírita Brasileira (FEB), Av. Passos, 30, no Rio de Janeiro, à época sob a gestão do presidente Aristides Spínola (1850-1925) e do vice-presidente Pedro Richard (1858-1914).1,2

Na ocasião, foi realizada solenidade singela, que emocionou os que a assistiam, e coube à Ilka Maas, dedicada e fervorosa obreira da Casa de Ismael, a responsabilidade de coordenar esse projeto, ministrando a aula inaugural e sensibilizando os corações de todos os companheiros presentes ao evento.

As vibrações de júbilo pela iniciativa auspiciosa, ocorrida naquela data, a ser comemorada por todo Movimento Espírita brasileiro, foram sentidas pelos participantes, inundando o salão da Federação de suaves eflúvios de paz e regozijo, tendo em vista a alegria de atender, dessa maneira, a uma antiga aspiração da Instituição.

Leia o artigo completo da FEB com a história da implantação da Evangelização Espírita em nosso país.

Ouça a entrevista com Marcus Braga ao programa CEERJ em movimento sobre os 100 anos da Evangelização Espírita, veiculado na Radio Rio de Janeiro, em julho de 2014:



domingo, 5 de outubro de 2014

Importância da Evangelização



“Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para evangelizar.”
I Co, 1: 17

Nas várias religiões cristãs, o termo evangelizar define o entendimento e a aplicação dos ensinamentos contidos no Novo Testamento de modo particular. No Espiritismo, essa particularidade se revela na ênfase que é dada à vivência, à exemplificação dos ensinamentos de Jesus e dos Apóstolos, não só nos momentos de prática religiosa, mas em todas as situações de sua vida.

O próprio entendimento do que significa religião foi modificado a partir dos ensinamentos de Jesus. Com Ele, aprende-se que religião não é algo mágico a ser vivenciado no interior dos templos. Não mais aquela ideia de que religião é prática mística, contemplativa, ritualística, cheia de oferendas e fórmulas repetitivas levadas a efeito no interior das assim chamadas “Casas de Deus”. Religião, conforme seus ensinamentos e, principalmente seus exemplos, passou a ser, para aquele que lhe entendeu as lições, um novo modo de viver, de se relacionar com o próximo, em todos os ambientes, em todos os momentos. Ensinando que Deus está presente em todo o universo, alargou os limites dos templos, mostrando o Universo como um templo imenso: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo, 14: 2).

Jesus libertou, assim, a criatura humana da necessidade do comparecimento ao templo, a fim de ali encontrar-se com Deus. O Mestre jamais convidou alguém a orar num templo. Pelo contrário, quando a Samaritana manifestou-se no sentido de adorar a Deus no Templo de Jerusalém, o Mestre desautorizou tal atitude, dizendo-lhe: "Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Deus é espírito e importa que os que O adoram O adorem em espírito e em verdade." (Jo, 4: 21 e 24). Para Jesus não havia santuários, lugares especiais. Seus ensinamentos, suas curas, suas orações sempre foram levados a efeito onde quer que ele se encontrasse.

Entretanto, uma concepção religiosa libertadora não agrada àqueles que desejam exercer o poder religioso, dominando consciências. Estes procuram conservar a religião como algo mágico, místico, extático, complexo a ponto de a ela só terem acesso os doutos e os sábios, pessoas pretensamente especiais, que estariam mais habilitadas a intermediarem as mensagens das criaturas ao Criador, e vice-versa. Jesus concedeu carta de alforria à Humanidade, em relação à intermediação sacerdotal, ao informar a criatura humana de que ela tem o direito legítimo e inalienável de se comunicar com seu Criador, diretamente, em qualquer lugar onde se encontre: “Mas tu, quando orares, entra no teu aposento, e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em oculto; e teu Pai, que vê secretamente, te recompensará.” (Mt, 6: 6).

Ele foi crucificado exatamente pela coragem de contrapor-se ao poderio sacerdotal, àquela verdadeira ditadura religiosa.

Jesus foi um educador de almas, que sempre enfatizou a necessidade do empenho da criatura no sentido de educar-se, de progredir, conforme ensinou no Sermão do Monte: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens (...).” (Mt, 5: 16). Toda a mensagem religiosa do Mestre fundamenta-se no esforço da criatura no sentido de revelar essa herança divina que todos trazemos. Nada de graças, além da graça da vida. Nada de privilégios: “(...) e então dará a cada um segundo as suas obras.” (Mt, 16: 27).

Sua mensagem é um verdadeiro desafio, no sentido de transcender os limites da lei antiga, que preconizava “olho por olho, dente por dente”: “(...) se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.” (Mt, 5: 20). “Ouvistes o que foi dito: amarás o teu próximo e aborrecerás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; (...).” (Mt, 5: 42 e 43).

Como educador que foi, Jesus não desejou discípulos passivos, encantados, deslumbrados. Pelo contrário, sempre buscou tocar o sentimento, juntamente com o apelo para que a criatura raciocinasse, a fim de saber, de compreender porque deveria agir desse ou daquele modo.

O Sermão da Montanha, que para muitos é apenas um hino ao sentimento, é, também, uma vigorosa mensagem à inteligência, ao raciocínio: “E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus dará bens aos que lhos pedirem?” (Mt, 7: 9 a 11).

Entendendo que o sistema pedagógico de Jesus fundamenta-se no binômio sentimento/razão, o Espiritismo ensina que a evangelização não se restringe unicamente ao campo do sentimento, pois a fé raciocinada começou, inquestionavelmente, com Jesus: “Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?” (Mt, 6: 26). Ao ensinar a criatura a não criar fantasias sobre a fé, mostra a linha divisória entre aquilo que deve ser objeto da preocupação do homem, e o que deve ser entregue a Deus, perguntando: “E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?” (Mt, 6: 27).

A educação religiosa que Jesus propicia ao homem leva-o a conscientizar-se de que não será através de orações repetidas que estaremos agradando a Deus: “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos.” (Mt, 6: 7). Nem através de oferendas ou bajulações: “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem e apresenta a tua oferta.” (Mt, 5: 23 e 24).

No Seu trabalho educativo do Espírito humano, Jesus mostrou a importância do bom relacionamento com o próximo como caminho para Deus, conforme bem entendeu o Apóstolo João, que registrou: “Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?” (I Jo, 4: 20).

Mas, com o passar dos tempos, o eixo da mensagem cristã foi-se desviando, saindo da área do estudo, da meditação à luz da oração consciente, passando às práticas exteriores.

Essas verdades religiosas simples, que estiveram ao alcance de humildes pescadores, de viúvas e de deserdados, foram, com o passar do tempo, relegadas a segundo plano, tendo sido postos em primeiro lugar o ritual, a solenidade, o manuseio de objetos de culto, a vela, o vinho, a fumaça, os cantochãos, todo um conjunto imenso de práticas exteriores alienantes, buscadas no judaísmo e no paganismo romano, que distanciavam o homem cada vez mais do esforço de autoaprimoramento preconizado por Jesus.

Infelizmente, os pronunciamentos libertadores de Jesus não foram objeto de estudo pelos teólogos, que criaram as liturgias, os sacramentos, e, pior ainda, a hedionda teoria das penas eternas, desfazendo a imagem do Deus Misericordioso, tão bem delineada pelo Mestre.

A mensagem cristã foi apequenada, podada, enxertada por aqueles que dela se apossaram, construindo uma religião atemorizadora e salvacionista, com base em atitudes místicas e na crença de que seria o sangue de Jesus o remissor dos pecados da Humanidade. Foi enfatizada a adoração extática a Jesus-morto, em detrimento do esforço em seguir Jesus-vivo. Evangelizar passou a significar o encaminhamento da criatura ao interior dos templos, onde deveria assumir uma atitude inteiramente passiva, ficando no aguardo das bênçãos de Deus, que seriam conseguidas através de rezas intensamente repetidas.

Mas, o Mestre, conhecedor da fragilidade humana, sabia que, de alguma forma, isso iria acontecer, por isso, prometeu o Consolador: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito.” (Jo, 14: 26)

Cumprindo sua promessa, enviou-nos o Espiritismo, que não é apenas mais uma religião cristã, mas o próprio Cristianismo Primitivo, que ressurge na sua pureza, pujança e objetividade originais, destacando-se das demais religiões, pelo menos das do Ocidente, pelo seu aspecto altamente educativo.

Dentro dessa perspectiva, fica claro que evangelizar, na concepção espírita, tem um sentido muito mais amplo do que aquele que é entendido por outras correntes cristãs, pois tem como componente básico, indissociável, o elemento educação.

Evangelizar, na conceituação espírita, representa não só informar alguém a respeito da vida, dos ensinamentos e dos exemplos de Jesus, mas, principalmente, conscientizar a respeito da necessidade da aplicação constante desses conhecimentos teóricos à vida diária.

A evangelização, assim compreendida, não se dá num determinado período de tempo: é um processo contínuo de despertamento da criatura para a necessidade do esforço, no sentido de promover a sua transformação moral, numa busca de autoaprimoramento, que se inicia num determinado momento da vida, mas que não tem data alguma que lhe marque o fim.


José Passini

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O que é Evangelização Espírita?




"Para coisas novas são necessárias palavras novas"
Allan Kardec, LE:I

Allan Kardec no item I da Introdução de O Livro dos Espíritos tem o cuidado de definir o que é Espiritismo. Conforme reproduzimos na epígrafe, o Codificador afirma que para coisas novas são necessárias palavras novas. Guiado por esse pensamento, cria a expressão Doutrina Espírita ou Espiritismo para definir a doutrina que tem por objeto as relações do mundo material com os Espíritos, ou seres mundo invisível, apresentada de forma inaugural nessa obra.

Essa atitude de Kardec é, do ponto de vista pedagógico, extremamente recomendável, pois equivale ao estabelecimento e um marco para que novas bases sejam assentadas. Isto ocorre sempre, nos mais diversos campos do saber. Cada vez que um novo conceito, objeto ou instrumento é criado ou algum novo procedimento é descoberto e/ou inventado trata-se logo de nomeá-lo a fim de distingui-lo dos congêneres e estabelecer os seus limites. Aplicando o pensamento do Codificador à tarefa da qual nos ocupamos, convém, antes de qualquer coisa, defini-la e conceituá-la.

Evangelização é, na verdade, um termo genérico que indica a ação que se faz em torno da difusão do evangelho. É, portanto, uma ação inerente a quem quer que tome os quatro principais livros de o Novo Testamento como preceitos de orientação. Entretanto, o que singulariza essa ação é o corpo doutrinário que a ela subjaz. Assim, evangelizar à luz da Doutrina Espírita significa, no sentido estrito do termo, tomar os ensinos de Jesus, apresentados nesses mesmos livros e interpretá-los segundo a codificação espírita.

Desse modo, a expressão "evangelização espírita" encerra a relação entre a Doutrina Espírita e o Evangelho, já esclarecida pelo Codificador na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, conforme se lê a seguir: "O ensino moral do Cristo nos evangelhos é o terreno onde todos os cultos podem reunir-se... Muitos pontos dos Evangelhos, da Bíblia e dos autores sacros em geral são ininteligíveis, parecendo alguns até disparatados, por falta da chave que faculte se lhes apreenda o verdadeiro sentido. Essa chave está completa no Espiritismo, como já puderam reconhecer os que o têm estudado seriamente... O essencial é por o evangelho ao alcance de todos, mediante a explicação das passagens obscuras e o desdobramento de todas as conseqüências, tendo em vista a aplicação em todas as condições de vida."

Como exemplo dessa chave interpretativa, podemos apontar a assertiva de Jesus sobre a necessidade de nascer de novo da água e do espírito (Jo. 3: 1 - 12), cuja coerência só é restabelecida quando lida à luz da idéia reencarnacionista. Outro exemplo, tido como contraditório, é o fato de, em determinada circunstância, Jesus (Mat. 12: 46 - 50) ter sido advertido de que a sua mãe e seus irmãos o aguardavam, ao que o Mestre respondeu que a sua mãe e os seus irmãos eram aqueles que faziam a vontade do Pai. Longe de significar uma negação aos laços de família, constitui-se, à luz da Doutrina, uma ampliação desses laços, a adoção da família universal como referência afetiva. Apenas para finalizar esses exemplos, vale destacar a frase de Jesus (Jo: 10 - 30) na qual se auto define, afirmando: "eu e o pai somos um". Lida por outras doutrinas cristãs, essa passagem dá margem a muitas interpretações dúbias sobre a personalidade e a origem de Jesus. A esse respeito, esclarece-nos o Espiritismo sobre a profunda compreensão que o Mestre tem de Deus, a ponto de identificar-se plenamente com as Suas Leis.

Postos estes exemplos, não significa dizer que a evangelização espírita tem como objeto apenas tópicos sobre a vida de Jesus. Esses são parte do conteúdo. A evangelização trata dos princípios da Doutrina, da conduta espírita, do movimento espírita e também do Cristianismo, mas à luz do paradigma Espírita.

Para que se realize com eficácia, a evangelização se desdobra e toma as feições do grupo a que se destina. Quando voltada para a criança e o jovem, por exemplo, há uma necessária adequação dos meios e da linguagem. É isso o que ocorre no trabalho que hoje se desenvolve em todo o Brasil, com o título de "evangelização infanto-juvenil" - simplesmente conhecido como evangelização. O fio condutor dessa tarefa é a formação do homem de bem, através do conteúdo espírita sobre a imortalidade da alma, das suas relações com o mundo corpóreo, da sua volta à vida na terra, das leis físicas e morais que regulam a sua estada aqui e no mundo espiritual.

Assim, a "evangelização na casa espírita" deve ser um trabalho organizado em aulas sistemáticas, pedagogicamente direcionadas, para que esse público tenha desde cedo contato com os ensinamentos doutrinários, repassados através de recursos compatíveis com o seu desenvolvimento intelectual, estimuladores do seu progresso espiritual e consentâneos com o seu perfil sócio-psicológico.

Como atividade vitalizadora do processo pessoal de melhoramento progressivo, a evangelização se apresenta como excelente recurso à disposição dos pais para lhes auxiliar na tarefa de educar aqueles que, atualmente, estão sob a sua tutela na feição de filhos. Por isso, não suporta a descontinuidade uma vez que passa a não despertar na criança e principalmente no jovem o interesse pela seqüência das aulas.

Daí advém a importância de os pais estimularem os filhos a participarem sempre das aulas, evitando a ausência por motivos, às vezes, absolutamente insignificantes. Nesse mesmo sentido, há que se destacar a importância de os evangelizadores se esforçarem para elaborar aulas cada vez mais motivadoras a fim de prender a atenção dos evangelizandos, despertando-lhes a curiosidade pela seqüência e continuidade do assunto. Assim sendo, o improviso é o recurso do qual não se deve lançar mão.

Quando freqüentada assiduamente, a evangelização demonstra a pujança do ensino moral do Cristo bem como dos ensinamentos espíritas e é, em sentido lato, um curso de Espiritismo. Logo, requer a dedicação dos companheiros que lhe reconhecem a importância - pais e evangelizadores -, que devem tomar para si a mesma fraternal advertência que os Espíritos fizeram a Kardec nos prolegômenos de O Livro os Espíritos:

"Com perseverança é que chegarás a colher os frutos de teus trabalhos.
O prazer que experimentarás, vendo a doutrina propagar-se e
bem compreendida, será uma recompensa, cujo valor integral
conhecerás, talvez mais no futuro do que no presente".

Por tudo isto, a evangelização é tarefa de longo curso que se revela de primordial importância na educação da criança e do jovem, tanto no lar como na casa Espírita.

Denise Lino

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Especial do Mês


Evangelizar o ser é lançar sementes que germinarão no futuro e reverberão em luzes de amor e paz. Educar na ciência é nortear caminhos para se trilhar rumo ao progresso, educar na religiosidade é libertar o indivíduo para alçar voo rumo aos altiplanos da plenitude moral e espiritual. No especial do mês “Evangelizar para o Futuro” o Manancial de Luz reúne artigos, palestras e mensagens que abordam a evangelização espírita e sua importância para a fase atual da transição planetária de mundo de provas e expiações para mundo de regeneração.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Para que floresça a Primavera


Em algum lugar… Há de florescer!



Neste tempo em que vivemos cada vez mais isolados no mundo virtual onde, paradoxalmente procuramos parceria e amizade, quando não as oferecemos no mundo real a quem caminha conosco, a opção de alguns poucos em passar e repassar através de páginas sérias, uma mensagem de paz, amor e otimismo é, sem dúvida bem pouco popular.

As redes sociais são realmente muito mais eficientes em tornar ilustres desconhecidos, sem nenhum conteúdo saudável, verdadeiras celebridades que influenciam de uma maneira bem pouco correta às mentes de nossas crianças, jovens e também adultos ‘distraídos’.

Além de acentuar de maneira dramática a solidão e o isolamento que se procura aplacar participando compulsivamente delas.

Mas a internet é uma realidade e aqueles que na vida real escolheram espalhar o bem através de seus atos concretos do dia a dia também podem e devem fazê-lo através desta ferramenta.

Até mesmo para oferecer um contraponto aos valores equivocados difundidos pela maioria e tentar influenciar positivamente quantos for possível.

Certamente que esta opção não lhes dará popularidade, nem tão pouco se tornarão celebridades instantâneas… Muitas vezes terão a nítida impressão de estar falando sozinhos.

Mas aqueles que, por vezes, com o coração sangrando pelos imensos conflitos internos, comuns a todos nós, escolhem espalhar o bem, carregam consigo a certeza de que em algum lugar deste universo, há de florescer a semente do imenso amor que trazem no peito.

Da alegria e da gratidão que sentem por estarem vivos, apesar de todas as dores, de todas as lutas… de todas as agruras do caminho.

Em algum lugar do mundo haverá alguém que se sensibilize e passe adiante a suas palavras de fé, fraternidade e otimismo, criando uma atmosfera de paz, como pequeninas gotas que formarão um enorme oceano de amor.

Não podemos evitar o progresso tecnológico nem sufocar o desenvolvimento intelectual da humanidade, mas podemos sim, fazer o possível para utilizá-los da melhor maneira, fazendo brilhar a luz da mensagem Divina.

-Se for para tornar algo popular, que seja a fraternidade.

-Se for para fazer algo célebre, que seja a paz.

-Se for para espalhar algum vírus, que seja o vírus do amor.


Silvia Gomes

sábado, 27 de setembro de 2014

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Lira do Além



Lira que tanges para as grandes dores
Da humanidade que se desespera,
Espalha pelo mundo a primavera
Da esperança nos peitos sofredores.

As tuas melodias interiores
Descem das claridades de outra esfera,
Onde a alegria pura, alta e sincera,
Canta os hinos de eternos esplendores...

Viajor da terra: aguça os teus ouvidos,
Descansa sobre a estrada os pés feridos
E ouve os acentos ternos e profundos

Dessa lira do além que tange aos ventos
Da eternidade de deslumbramentos,
Nos acordes de paz dos outros mundos!


Francisco Octaviano


Por Francisco Cândido Xavier
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