terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Homem e a Geração do Futuro


Por Altamirando Carneiro

Revendo as edições anteriores do jornal "O Semeador", órgão da Federação Espírita do Estado de São Paulo, encontrei no número 632, referente à segunda quinzena de outubro de 1990, texto final de uma série que o jornal publicou da palestra proferida em 16 de junho de 1985, no Setor III da Fraternidade dos Discípulos de Jesus, da Aliança Espírita Evangélica, na capital paulista, por Valentim Lorenzetti (17/2/1938 - 14/8/1990) sobre o tema "O Homem do Futuro".

Lorenzetti fala sobre algumas características que, segundo Cal Rogers, identificam o homem do futuro: o indivíduo aberto para novas maneiras de ver e de ser, novas ideias, novos conceitos. Respeitador da experiência de seu semelhante. São pessoas dedicadas ao outro.

Profundamente harmonizado com a natureza e com as Leis Divinas, é ligado à flora, à Ecologia, ao respeito pelos animais. Acha que as instituições são feitas para servir ao homem. É contra a instituição rígida, inflexível, que não muda nunca, que é a mesma coisa há milênios, ou há dezenas de anos; que não absorve a experiência de ninguém, que não quer saber da experiência de outrem.

O homem do futuro é um homem que cresceu, é um homem adulto. Não precisa ninguém dizer-lhe: faça isso. Sabe exatamente o que é essencial para ele. É muito mais ligado às coisas espirituais. Seus heróis são personalidades com Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Teilhard de Chardin.

Lorenzetti reporta-se a Allan Kardec, no capítulo XVIII de A Gênese, quando fala sobre a nossa geração, a mesma geração retratada por Rogers em seu livro e em sua obra psicológica: uma geração moral. Diz que cabe a nós reforçarmos a chegada desse homem. Ele pode estar entre nós. Entre nossos filhos, em casa, entre nossos amigos.

O homem do futuro é o que apresenta todas as características do homem de bem, explícitas em O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, questão 918: o que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade na sua mais completa pureza; faz o bem pelo bem; é bom, humano e benevolente; considera os dons como depósitos, para serem usados para o bem; trata com bondade e benevolência a todos; é indulgente para com as fraquezas dos outros; não é vingativo; respeita os direitos dos semelhantes, como desejaria que respeitassem os seus.

São esses Espíritos que contribuirão para a regeneração da Humanidade. Contudo, segundo A Gênese, essa regeneração não exige a renovação integral dos Espíritos, mas a modificação em suas disposições morais, que se opera em todos os que estejam dispostos.

Composta por Espíritos melhores ou Espíritos antigos que se melhoraram, diz A Gênese que "o resultado é sempre o mesmo. Desde que trazem disposições melhores, há sempre uma renovação, assim, segundo suas disposições naturais, os Espíritos encarnados formam duas categorias: de um lado, os retardatários, que partem; de outro, os progressistas, que chegam. O estado de costumes da sociedade estará, portanto, no seio de um povo, de uma raça, ou do mundo inteiro, em relação com aquela das duas categorias que preponderam".

Ainda no capítulo citado, em "Sinais dos Tempos": "a geração que desaparece levará consigo seus erros e prejuízos; a geração que surge, retemperada em fonte mais pura, imbuída de ideias mais sãs, imprimirá ao mundo ascensional movimento, no sentido do progresso moral que assimilará a nova fase da evolução humana".

domingo, 10 de setembro de 2017

O Silêncio que fala Alto



Por Luiz Guimarães G. de Sá

Se soubéssemos como o silêncio é útil, daríamos mais tempo a seu uso. O recolhimento cria um ambiente próprio para a oração e reflexão. Temos também na música a figura da pausa, onde o instrumentista não toca, bem como na fermata, que é a parada do compasso musical sobre uma nota. São momentos em que o silêncio se faz presente, se impõe.

Quando estamos planejando algo que nos interessa realizar, ele faz parte desse trabalho. O corpo em descanso ausenta-se do ambiente externo através do sono e mergulhamos num silêncio profundo...

Mas há um silêncio que fala alto! É aquele que ecoa ao fazermos um mergulho interior. Há uma voz que não cala, muito pelo contrário, de forma impertinente e particular se faz ouvir: é a voz da nossa consciência. É esse silêncio tão sutil que queremos enfatizar. Ele nos leva a uma análise qualitativa daquilo que fomos e sempre seremos: Espírito.

Essa luz de alerta não nos deixa, não nos abandona! Ela permanece viva e radiante bastando tão somente atentarmos para sua presença. É assim que iluminamos a nossa alma e enxergamos a maneira de ser nessa existência. Mesmo após o desencarne, ela brilha além-túmulo fazendo-nos viver uma realidade tão marcante que sempre esteve conosco de forma imperceptível...

Essa concepção é salutar e necessária para crescermos espiritualmente. Só poderemos melhorar naquilo que conhecemos, e se nos ignoramos não teremos condições de alcançar o aperfeiçoamento colimado.

A importância do silêncio está também expressa nas frases de Fernando Pessoa e Machado de Assis, respectivamente: “Existe no silêncio tão profunda sabedoria que às vezes ele transforma-se na mais perfeita resposta”; “O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio”.

Já nos sábios provérbios chineses encontramos: “A palavra é prata, o silêncio é ouro”. Assim temos no “vazio” do silêncio um celeiro repleto de informações que nos despertarão para a lucidez necessária para sermos coerentes nos passos que damos na vida...

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A Importância do "Instruí-vos"


Por Alexandre Fontes da Fonseca

“Espíritas, amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo.” Assim se expressou o Espírito de Verdade no item 5 do capítulo VI de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Entendemos bem a importância e a necessidade do amor, mas nem sempre percebemos o alcance do segundo ensinamento: instruí-vos. Para esclarecer isso, vejamos a escala espírita, itens de 100 a 113 de O Livro dos Espíritos (LE), especificamente o item 107 que descreve as características da 2ª ordem – Bons Espíritos: “Predominância do Espírito sobre a matéria; desejo do bem. Suas qualidades e poderes para o bem estão em relação com o grau de adiantamento que hajam alcançado; uns têm a ciência, outros a sabedoria e a bondade. Os mais avançados reúnem o saber às qualidades morais.”

Se o desejo do bem, oriundo do amor, determina a principal característica de um bom Espírito, a hierarquia das subclasses pertencentes à 2ª ordem (itens de 108 a 111 de LE), mostra que do menos para o mais evoluído, o que difere os Espíritos é o conhecimento e a sabedoria.

Paulo de Tarso, falando do amor deixa claro que “ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.”(1 Coríntios 13:2). Então, por que o conhecimento e a sabedoria hierarquizam os bons Espíritos na 2ª ordem da escala espírita? O amor não deveria ser a mais importante condição de elevação? De fato, o amor é condição necessária para o progresso espiritual. Por isso amai-vos é o primeiro ensinamento. Mas, para entender a importância do instruí-vos, analisemos Mahatma Gandhi.

Gandhi mostrou ao mundo que é possível realizar uma verdadeira revolução social através do princípio da não-agressão. Suas orientações ao povo indiano para realizarem protestos pacíficos, sem violência, levaram à independência política da Índia em 15 de agosto de 1947. Mas Gandhi não conseguiu isso apenas com vibrações de amor e preces. Cada orientação dada ao povo foi idealizada de modo racional de acordo com o conhecimento das leis da Inglaterra. Gandhi, que estudara direito na Inglaterra, conhecia as leis civis inglesas e as utilizou em favor de ideal de libertação da nação indiana. Não bastaria só o amor de Gandhi pelas pessoas; foi necessária a combinação do amor pela humanidade com sua capacidade intelectual para revolucionar a Índia.

Estudantes de todo o mundo, não busquemos apenas “obter nota para passar”, mas aprendamos, pois, o conhecimento liberta. Nós que escolhemos o Espiritismo como caminho, aproveitemos as oportunidades de estudo da Doutrina Espírita que as casas espíritas oferecem. Nos esforcemos pelo instruí-vos não por obrigação, mas por amor à Deus e às criaturas pois para quem já tem amor no coração, saber mais significa ajudar mais e melhor!

Jornal Momento Espírita 40, p. 7 (abril - 2013)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Consciência Universal - uma Globalização Planetária



Por Luís de Almeida

Depois de 15 bilhões de anos e alguns milhares de civilização, aqui estamos nós. Desde o Big Bang, a evolução continua, criando sempre estruturas mais complexas, das quais somos o mais belo expoente, rumo a uma consciência universal.

As partículas, os átomos, as moléculas, as macromoléculas, as células, os primeiros organismos, as populações, os ecossistemas, e por fim o homem... A evolução continua, mas desta vez é sobretudo técnica e social. A cultura tomou o testemunho. Estamos num ponto de viragem da história análogo ao do surgimento da vida.

Após as fases cósmica, química e biológica inauguramos o quarto capítulo do grande livro da vida, em que a humanidade será protagonista no terceiro milénio. Acedemos a uma consciência de nós próprios, que se tornará coletiva.

Dizemos, com toda a modéstia, que estaremos a criar uma nova fórmula de vida: um macrorganismo planetário, englobante do mundo vivo e produções humanas. Seremos as células, e ele também evolui. Tem o seu sistema nervoso próprio, no qual a Internet é um embrião, e um metabolismo que recicla os materiais. Este cérebro global, criado de sistemas interdependentes, une os homens à velocidade do electrão, revolucionando, assim, as imensas trocas culturais, intelectuais e morais.

Não sendo uma seleção natural, mas sim cultural, as nossas invenções e a nossa nova consciência são as mutações darwinistas. No entanto, esta evolução técnica e cultural progride muito mais rapidamente do que a evolução biológica de Darwin. O homem cria novas "espécies"; o computador cria os satélites, a televisão, a rádio, o telefone, o avião...

Agora, é o homem que faz a seleção darwinista; não observamos o mercado, que seleciona, elimina e faz a escolha dos mais aptos e capazes, das novas "espécies"? A grande diferença é que o homem pode criar, no abstrato, tantas "espécies" quantas desejar. Esta nova evolução desmaterializa o homem. Entre o mundo real e o imaginário, o homem inclui um novo mundo - o virtual -, que lhe permite elaborar e testar objetos e máquinas que ainda não existem, bem como explorar universos artificiais. Para espanto de todos nós, ou não, esta evolução cultural segue a mesma lógica da evolução natural das espécies.

A complexidade segue a sua obra, mas libertando-se, a pouco e pouco, do pesado fardo da matéria. De certo modo, reencontramos o Big Bang, a explosão de energia, muito semelhante ao inverso do «ponto ómega», sendo uma implosão do espírito liberto da matéria. E se abstraíssemos o tempo poderíamos confundir os dois.

O homem deve ainda aperfeiçoar-se muito mais. Quando as células se associam, alcançam uma individualidade muito maior do que se estivessem isoladas. A fase da macrorganização comporta um risco de homogeneização planetária, mas também germes de diversificação. Quanto mais o planeta se globaliza mais se diferencia.

As metáforas mecânicas, as engrenagens, os relógios, dominaram o início do século. São agora as metáforas dos organismos as mais pedagógicas, na condição de não as tomarmos à letra. O organismo planetário que criamos exterioriza as nossas funções e os nossos sentidos: a nossa visão pela televisão, a nossa memória pelos computadores, as nossas pernas pelos transportes... Mas mantém-se de pé a grande questão: iremos viver em simbiose com esse organismo planetário ou tornar-nos-emos parasitas destruidores do hospedeiro, o que nos atiraria para graves crises económicas, ecológicas e sociais?

Atualmente, drenamos, em proveito próprio, recursos energéticos, informações, materiais; e segregamos dejetos no meio ambiente, empobrecendo constantemente o sistema que nos sustenta. Somos parasitas de nós próprios, dado que algumas sociedades industrializadas travam o desenvolvimento das outras.

Se continuarmos na via atual, acabaremos parasitas da Terra.

Num organismo existe um sistema de alarme e de cura. Se o organismo se ferir, o corpo inteiro é mobilizado. É imperioso criar um sistema análogo para o planeta. A ONU, e as inúmeras associações humanitárias, já são esboços desse sistema, mas precisamos de ir muito mais longe. Aí está o papel catalítico do Espiritismo. Se soubermos que existe um ente superior, que nos rege e orienta, que a vida continua (a morte não existe), que a reencarnação é um facto irrefutável, que a lei de causa e efeito é uma realidade, e se conhecermos donde vimos, para onde vamos e o que fazemos aqui, muitos de nós teremos comportamentos diferentes perante a sociedade e o planeta.

Ora, a importância do Espiritismo está aí...

Hoje, não faz qualquer sentido, embora seja de louvar algumas atitudes, por parte dos ecologistas e de todos aqueles que procuram defender o planeta do homem, encerrar a variedade dos seres em guetos, para criar reservas. Quando vemos os bosquímanos, ou ameríndios, relegados para o que chamamos, muito cruelmente, «reservas», perguntamos quem somos nós para termos tal atitude, indigna de um ser humano. Não serão essas prisões ou reservas pequenas ilhas que nos oferecemos para nosso belo prazer, até fazendo excursões turísticas para vermos nossos semelhantes? Pensamos que estas populações não têm outra solução, como vemos ao longo da história, que não seja misturarem-se, genética e culturalmente, conosco, ou então desaparecerão.

Hoje, observando os ainda masai - tribo africana, das margens da caldeira de N'Gorongoro -, que passam a vida no meio dos leões, rinocerontes, búfalos, etc., todos eles bichinhos não especialmente ternos, compreendemos que se pode viver em paz com todos, e com o meio.

Não deixemos que a nostalgia e a petulância nos invadam a mente. Pensemos, isso sim, na importância de encontrarmos, em conjunto, a harmonia e o equilíbrio entre a Terra e a tecnologia, e entre a ecologia e a economia, para assim evitarmos crises. Deveremos observar e estudar as lições que nos dá o conhecimento sobre a evolução da complexidade. Compreender a nossa história pode dar o recuo necessário, um sentido ao que fazemos, e maior sageza. É inegável o crescimento de uma inteligência coletiva, num humanismo tecnológico. Aí está o Espiritismo para corroborar, ensinando, esclarecendo e amando.

Cada vez mais estamos prestes a perder a diversidade: a cultura humana torna-se cada vez mais homogénea, o mundo torna-se global, o planeta mais pequeno. As pessoas viajam muito, quer física quer virtualmente. Misturando-se, desta forma, as culturas, dá-se o fenómeno da aculturação. O homem acumula um conhecimento crescente, progride para um maior saber, uma maior liberdade, para uma cultura mais complexa. Seguimos a mesma lógica da matéria e da vida. A nossa história tem um sentido, uma lógica; não acreditamos nem na contingência nem no acaso, que aos olhos de alguns cientistas só parecem intervir quando estudam períodos muito curtos.

As sociedades humanas organizam-se cada vez melhor. A pouco e pouco temos a consciência do meio ambiente que nos rodeia e de nós próprios. Vejamos a ONU. Estes organismos têm conhecido inúmeras dificuldades. Considerando-se, porém, as coisas com o devido distanciamento, descobre-se que o homem tomou consciência da sua condição mundial em apenas 70 anos; o que é isso, comparado com a nossa história?

A humanidade atual já chegou a um certo nível de reflexão, embora nos pareça muito jovem. Numerosas dificuldades do nosso tempo provêm do facto de muitas populações terem apenas uma informação muito reduzida do mundo; mas a providência divina não deixa as coisas entregues ao acaso, já que o acaso não existe.

No limiar deste século o homem inventou duas maneiras de se autodestruir: o excesso de armamento nuclear, atómico e biológico, e a deterioração do ambiente.

Atualmente, coloca-se uma questão: estaremos capacitados para coexistir com o nosso próprio poder? Se a resposta for não, a evolução continuará sem nós. Como Sísifo, teremos levado o rochedo até ao alto da montanha, para logo de seguida o deixarmos escapar. É um pouco ridículo, não é? Temos de ter plena consciência da gravidade da situação presente, mantendo, contudo, o optimismo. Temos de deitar mão a todos os nossos recursos, intelectuais, culturais, tecnológicos e sobretudo morais, para salvar o planeta, antes que seja tarde. Somos os responsáveis pelos danos causados, quer ativos quer passivos, e também seus herdeiros. É a nós que compete fazer com que este delicioso planeta continue vivendo, mas com saúde.

Estão reunidos todos os meios para que possamos (praticando primeiro) transmitir que a fraternidade é, e será, a pedra angular da felicidade humana e planetária.

Então regeneremo-nos, senão seremos como Sísifo.

Sejamos espíritas, no verdadeiro sentido da palavra. A hora é de unidade fraternal - o saber amar.

Terminamos com uma mensagem psicografada por Divaldo Pereira Franco, na Associação Cultural Espiritualista de Viseu, em maio de 1993, pelo espírito do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes:

«(...) Aqui estamos, em nome dos espíritas do Brasil e de Portugal, pelo laço da fraternidade, para dizer-vos que antes de encarnardes vos comprometestes com a construção da era nova e de um mundo melhor.

Obreiros da fé renovada, ide adiante, confiantes e felizes, e o Senhor irá convosco.»

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Anotações sobre Ciência e Religião


Por Claudio Bueno da Silva

A origem dos povos antigos se confunde com a história de suas religiões. E como toda religião tenta explicar o princípio das coisas, dos seres, a formação do mundo, seus primeiros livros sagrados tratavam da religião e ao mesmo tempo da ciência, refletindo o conhecimento que se tinha na época.

Ciência e Religião são as duas alavancas da inteligência humana. A missão da Ciência é descobrir as leis da natureza. A missão da Religião é desvendar as leis do mundo moral. Tanto uma quanto a outra têm o mesmo princípio: Deus. Portanto, não podem contradizer-se. ¹

Essas forças têm impulsionado o desenvolvimento humano ao longo do tempo, acentuando características próprias do seu campo de ação, científico ou religioso. Contudo, a história registra também, em certos períodos, estagnações provisórias no seu progresso.

A civilização egípcia, cujo legado científico impressiona até os dias de hoje, pode ser citada como exemplo clássico de desenvolvimento na antiguidade.

A concepção do Deus único e os Dez Mandamentos de Moisés registraram um período importante para a humanidade, em que leis de essência divina foram apresentadas concomitantemente a regras e preceitos de caráter transitório para controle da ordem e da disciplina. A ideia do sagrado e a força das tradições oriundas de erros de interpretação desse conjunto arrastaram pelos séculos afora conceitos e pensamentos hoje inaceitáveis pelo bom senso, mas que ainda vigoram no espírito de milhões de pessoas como verdades absolutas.

O aparecimento de Jesus de Nazaré na Terra desencadeou um movimento religioso cujos princípios se mantiveram fiéis à sua pregação original por cerca de três séculos. Mesmo perdendo as características dos primeiros tempos, se alastrou e influiu fortemente na formação religiosa de boa parte do mundo.

Do século V ao XV (cerca de 1000 anos) a humanidade protagonizou através do domínio religioso um dos períodos mais tristes da sua evolução com as chamadas guerras santas, as cruzadas, as fogueiras da inquisição, que produziram perseguição, tortura e morte. O mundo pouco evoluiu nesse período, estando a ciência e a cultura muito atreladas ao poder quase absoluto das ordens religiosas católicas.

Um pouco mais tarde, no entanto, missionários como Leonardo da Vinci, Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Isaac Newton e inumeráveis outros reencarnam na Terra, contribuindo com a sua ciência para o progresso humano, dando já ao pensamento científico ares um pouco mais independentes.

De certo modo, Ciência e Religião se revezaram no direcionamento da caminhada humana, com predominância acentuada desta última, que fazia ou não concessões àquela, segundo as suas conveniências.

Entre erros e acertos de ambas ao longo do tempo, talvez nada se compare à afronta que sofreu o ensino moral de Jesus na Idade Média, promovido pela incúria religiosa, descaracterizando, falseando, adulterando as ideias originais do Cristianismo.

A secular e desarrazoada incompatibilidade entre Religião e Ciência, alimentada pelo orgulho e exclusivismo de uma e outra, fomentou a incredulidade e a intolerância. A Religião, desprezando as leis orgânicas e imutáveis da matéria, se prendeu aos dogmas artificiais, posicionando a fé em conceitos incertos. A Ciência, decepcionada com o misticismo e a irracionalidade do pensamento, reforçou suas trincheiras com a negação de Deus e o acolhimento das teorias da materialidade, muito ajudada nisso pelas filosofias materialistas.

Fenômenos culturais, políticos, econômicos e sociais de repercussão mundial como o Iluminismo, a Revolução Francesa, a Revolução Industrial, com suas peculiaridades e exigências intrínsecas, dentre outras causas, contribuíram para agravar o antagonismo e aumentar a distância entre elas.

Em meados do século XIX surge o Espiritismo, como proposta anunciada para complementar os ensinos de Jesus e descerrar os véus de mistério deixados por ele para quando chegasse o tempo certo, com a humanidade mais adiantada e esclarecida pelas descobertas científicas. O principal foco a combater: o materialismo.

O volume de informações de interesse universal trazido por essa doutrina é muito grande, de modo que os homens, ajudados pelo avanço das ciências, já estão aptos a compreender as leis do mundo moral e espiritual reveladas pelo Espiritismo.

Homens de ciência começam então a considerar informações relacionadas ao mundo do Espírito, respaldadas pela pesquisa e estudos responsáveis com objetivos intrinsecamente humanitários, e, mais recentemente, vêm trabalhando experiências que “espiritualizam” o pensamento científico.

Homens de religião, sendo forçados pelas evidências científicas que desconstroem velhos e desacreditados dogmas, tendem a voltar suas vistas para o homem integral, considerando como necessária a revisão dos seus discursos doutrinários místicos e míticos.

Os Espíritos afirmam que chegaram os tempos de grandes transformações na Terra, e Ciência e Religião são chamadas a aproximar-se, somando suas experiências conquistadas e a conquistar para impulsionar de vez a humanidade para a era do Espírito, onde finalmente o homem compreenderá de onde veio, para onde vai, e qual é o objetivo da vida na Terra.


¹ Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, “Aliança da Ciência com a Religião”, LAKE Editora, 1975.

sábado, 2 de setembro de 2017

Especial do Mês

Artigos Espíritas com temas da atualidade e doutrinários escritos por uma variedade de autores médiuns, oradores ou profitentes espíritas compõem as postagens do especial desse mês, do Manancial de Luz.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A Maledicência

Por que falamos mal uns dos outros? Será que é porque não estamos evoluídos moralmente? Como podemos enxergar o bem nas pessoas? Confira a resposta de Jether Jacomini Filho no Sem Dúvida.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Efemérides Espíritas: Nascimento de Bezerra de Menezes

Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti nasceu em 29 de agosto de 1831 na fazenda Santa Bárbara, no lugar chamado Riacho das Pedras, hoje Jaguaretama, no estado do Ceará.

Essa é a nossa homenagem a Bezerra de Menezes no dia de aniversário de seu nascimento.

domingo, 27 de agosto de 2017

Colônias Espirituais e Umbral

Como são as colônias espirituais? A mais conhecida descrita pelos espíritos "Nosso Lar" é a que mais se aproxima do planeta Terra? No umbral e nos planos inferiores também existem colônias? Como se define o umbral? Onde estaremos após o desencarne? Acompanhe essas e outras respostas de Paulo Henrique de Figueiredo no Sem Dúvida e no Boletim Espírita.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Ecologia e Espiritismo


Trecho de entrevista de André Trigueiro, autor do livro Espiritismo e Ecologia (FEB), à revista Reformador. O escritor considera que a Lei de Conservação de “O Livro dos Espíritos” é um tratado de sustentabilidade.

Reformador: Como surgiu seu interesse em relacionar Espiritismo e Ecologia?

Trigueiro: Sou espírita, jornalista interessado em sustentabilidade há pelo menos 20 anos, e tenho uma pós-graduação em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ. A combinação desses fatores me precipitou na direção dessa linha de investigação. O livro – já na terceira edição – não esgota o assunto, mas deixa claro a razão pela qual nós espíritas devemos ter atenção redobrada nesta encarnação para com os limites do planeta que generosamente nos acolhe. A situação é difícil e a Humanidade é a responsável direta pela crise ambiental sem precedentes que experimentamos no momento. A educação para a sustentabilidade encerra princípios éticos e morais que são caros à Doutrina Espírita. Devo dizer que me incomodava muito uma certa distância que várias casas espíritas mantinham do tema “meio ambiente”, como se a exaltação dos valores espirituais nos eximisse de responsabilidade para com o que acontece aqui e agora em nossa casa planetária. Mas isso está mudando.

Reformador: Que destaque daria, em obras de Kardec, com relação ao tema?

Trigueiro: Bem entendida, a posição assumida pelo Espiritismo em favor da vida – condenando o aborto, a eutanásia e o suicídio alcança também a dimensão planetária na condenação do ecocídio, ou seja, a capacidade de a Humanidade realizar escolhas que reduzem nossas possibilidades de existência nesse plano. Todo o capítulo de O Livro dos Espíritos que versa sobre a Lei de Conservação é um tratado de sustentabilidade. Quando a Doutrina estabelece a diferença entre o que é necessário e o que é supérfluo, e nos orienta em relação ao uso inteligente dos recursos naturais (“A Terra produziria sempre o necessário, se o homem soubesse contentar-se com o necessário”)1 há sinergia absoluta em relação aos modernos relatórios da ONU que condenam os atuais meios de produção e de consumo. Outro tema que me interessa muito é a influência de nossos sentimentos e pensamentos na qualidade da psicosfera terrena. Temos o poder de influenciar coletivamente a Natureza, através da qualidade e da intensidade de nossas vibrações. A Doutrina Espírita também reconhece o trabalho dos elementais, seres encarregados de proteger a Natureza e sustentar seus processos cíclicos. Outra informação valiosa remete à identificação visceral que temos com a Terra: somos feitos dos mesmos elementos que constituem o planeta, e isso vale para o corpo material ou o perispírito. “Do pó viestes para o pó voltareis” [Gênesis, 3:19] não é poesia bíblica, é Ciência. E o que acontece com a terra, o ar e a água, portanto, fora de nós, reverbera dentro de nós. Estamos todos conectados.

Reformador: Você relaciona eventuais desrespeitos ao meio ambiente às alterações climáticas?

Trigueiro: O livro de nossa autoria traz informações atualizadas sobre a maior crise ambiental da História da Humanidade e como somos responsáveis por isso. Na verdade, somos parte do problema e devemos ser parte da solução. A crise climática é a mais preocupante e demanda soluções urgentes. Mas nossas atenções devem estar voltadas também para a destruição sistemática da biodiversidade, a produção monumental de lixo, a escassez de recursos hídricos, a transgenia irresponsável, o consumismo desvairado, o crescimento desordenado das cidades e outros problemas que fazem parte do nosso tempo e exigem respostas de nossa parte ainda nesta existência. O espírita está sendo convocado à ação aqui e agora. A maior nação espírita do planeta está situada no único país com nome de árvore, que concentra o maior estoque de água doce (superficial de rio ou subterrânea), a maior quantidade de solo fértil, o maior número de espécies conhecidas e catalogadas. Mera coincidência?

Reformador: Uma mensagem ao leitor de Reformador.

Trigueiro: Que o mundo será um dia um lugar melhor e mais justo, não há dúvida alguma. A grande questão ainda sem resposta é: haverá tempo para que esse mundo melhor e mais justo seja também um mundo ambientalmente sadio e agradável? Depende de nós. Qual a sua escolha?


Fonte: Reformador

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A Força do Pensamento

Richard Simonetti expõe sobre o pensamento e suas vertentes numa entrevista ao programa Transição, da TV Mundo Maior.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Psicografia e Ciência


Psicografia, o que ocorre no cérebro?



Entrevista por Victor Rebelo

Em entrevista exclusiva, *Dr. Júlio Peres fala sobre sua mais recente pesquisa científica, que demonstra que áreas ligadas à criatividade e planejamento são muito pouco ativadas durante a atividade mediúnica.

A seguir, acompanhe a entrevista exclusiva sobre seu mais recente estudo científico, envolvendo a mediunidade.

Doutor, qual foi o objetivo da pesquisa?

Dr. Júlio Peres - Verificar as possíveis mudanças no fluxo sanguíneo cerebral durante a psicografia, em comparação com a escrita de um texto original (sem transe mediúnico) sobre um tema similar ao que o médium tem o hábito de psicografar.

Quais foram as instituições e os grupos que desenvolveram essa pesquisa?

Pesquisadores do Instituto de Psiquiatria-IPq-do HCFMUSP, Universidade Federal de Juiz de Fora, Universidade Pensilvânia e Universidade Thomas Jefferson estiveram envolvidos no estudo.

Que método foi utilizado? Vocês usaram que tipo de equipamento?

Utilizamos o método de neuroimagem funcional SPECT (Single Photon Emission Computed Tomography) ou Tomografia Computadorizada de Emissão de Fóton Único.

Em entrevista à rádio CBN, o senhor afirmou que foi constatado que as áreas do cérebro responsáveis pela criatividade tiveram menor atividade durante a psicografia, no entanto, a complexidade dos textos psicografados era superior à dos escritos em estado de vigília. O senhor poderia falar mais sobre isso, para nossos leitores, por favor?

As amostras de escrita produzidas foram analisadas e verificou-se que os textos psicografados foram mais complexos que os conteúdos produzidos no estado normal de vigília. Os conteúdos gerados durante as psicografias envolveram princípios éticos/espirituais e a importância da união entre ciência e espiritualidade.

Em particular, os médiuns mais experientes apresentaram escores significativamente mais elevados de complexidade, o que normalmente exigiria mais atividade nos lobos frontais e temporais, e este não foi o caso. As áreas relacionadas ao planejamento mostraram menor atividade. Em outras palavras, durante a psicografia, os cérebros ativaram menos as áreas relacionadas ao planejamento e à criatividade, embora tenham sido produzidos textos mais complexos do que aqueles escritos sem "interferência espiritual".

A despeito deste achado ter sido inesperado para corrente central da Ciência, o mesmo é compatível com a hipótese que os médiuns afirmam: a de que o texto escrito por eles pode ser de autoria do espírito comunicante, portanto, de outra inteligência.

Quem fez e como foi feita a comparação? Quais os critérios adotados?

Foi avaliada a complexidade da estrutura narrativa das psicografias em relação à escrita, controle no que diz respeito, por exemplo, à utilização de sujeito, verbo, predicado, capacidade de produção de texto legível e compreensível.

Ainda na entrevista à CBN, o senhor afirmou que o texto que eles escreveram era semelhante ao tipo de texto que eles estão habituados a psicografar... isso seria um "pareamento de tarefas". Explique melhor, por favor.

Sim. A condição alvo e a condição controle foram pareadas de maneira que a subtração entre as duas condições resultou no diferencial mediunidade, objeto de nosso estudo.

Cientificamente falando, dá para se chegar a que conclusão?

Várias hipóteses foram consideradas. Uma delas é que como a atividade do lobo frontal diminui, as áreas do cérebro relacionadas à criatividade estão mais desinibidas (o que ocorre com o uso de álcool ou de drogas). De uma maneira semelhante, o desempenho na meditação e na improvisação musical estão associados com níveis mais baixos de atividade cerebral, que pode favorecer o relaxamento e a criatividade respectivamente. Porém, é importante notar que o consumo de álcool/drogas, a meditação e a improvisação musical são estados bastante peculiares e distintos da psicografia, portanto, não comparáveis diretamente com a expressão literária mediúnica. Os médiuns referem que "a autoria dos textos psicografados foi dos espíritos comunicantes e não pode ser atribuída a seus próprios cérebros", sendo assim esta hipótese plausível.

O presente estudo é a primeira investigação mundial sobre mediunidade com metodologia de neuroimagem. Devemos ter tranquilidade numa fase embrionária de pesquisa neste campo. Embora o motivo exato dos presentes resultados não seja conclusivo neste momento, esta primeira avaliação neurocientífica fornece dados interessantes sobre estados dissociativos mediúnicos alinhados à compreensão da mente e sua relação com o cérebro, e estes achados merecem futuras investigações, tanto em termos de replicação quanto de hipóteses explicativas.

Para os espíritas, esse resultado seria uma evidência da interferência de um espírito...

Não posso tirar conclusões pelos espíritas ou qualquer grupo, cético ou religioso. Meu objetivo como investigador é conduzir estudos com rigor científico, apresentar os resultados e possíveis discussões relacionadas aos achados para que a compreensão sobre o tema possa realmente avançar sem preconceitos.

Como foi feita a escolha dos médiuns? Quantos participaram?

Entre mais de 170 entrevistas, foram selecionados dez médiuns brasileiros com 15 a 47 anos de experiência mediúnica e aproximadamente 18 psicografias por mês, destros e com plena saúde mental.

Este estudo específico que vocês realizaram é o primeiro. Existem outros estudos nessa área que possam colaborar para que a Ciência chegue a uma conclusão? Quais?

Novos estudos estão em nossa agenda. O próximo envolverá neuroimagem de médiuns pictógrafos. Estamos selecionando 20 voluntários médiuns pictógrafos (médiuns pintores) para um novo estudo com neuroimagem em meados de 2013. Solicito que os médiuns com consistente experiência nesta área entrem em contato comigo pelo e-mail contato@julioperes.com.br (Assunto: Estudo Mediunidade Pictográfica) para que eu possa entrevistá-los.

Esse tipo de estudo pode trazer quais contribuições à psiquiatria e psicologia?

Os "ingredientes dinâmicos" que constituem a personalidade-e fazem de uma pessoa um ser único -não foram até agora encontrados pela Ciência. A natureza humana é um relevante e essencial objeto de estudo para todos os profissionais que trabalham no campo da cura da dor psíquica em sua miríade de expressões.

A compreensão da etiologia do sofrimento humano será, esperançosamente em um futuro próximo, alinhada a uma terapia eficaz. Considero que mais pesquisas devem abordar critérios de distinção entre as expressões dissociativas saudáveis e patológicas no âmbito da mediunidade.

O estudo "Neuroimagem durante o estado de transe: uma contribuição ao estudo da dissociação" foi publicado recentemente pela PLOS ONE, prestigioso periódico científico de acesso público gratuito. Procure na seção de artigos do site: www.plosone.org.

Variedade de médiuns escreventes (psicógrafos)

"191. 1*- Segundo o modo de execução:
Médiuns escreventes ou psicógrafos: os que têm a faculdade de escrever por si mesmos sob a influência dos Espíritos.
Médiuns escreventes mecânicos: aqueles cuja mão recebe um impulso involuntário e que nenhuma consciência têm do que escrevem. Muito raros. (N* 179).
Médiuns semimecânicos: aqueles cuja mão se move involuntariamente, mas que têm, instantaneamente, consciência das palavras ou das frases, à medida que escrevem.
São os mais comuns. (N*181.)
Médiuns intuitivos: aqueles com quem os Espíritos se comunicam pelo pensamento e cuja mão é conduzida voluntariamente.
Diferem dos médiuns inspirados em que estes últimos não precisam escrever, ao passo que o médium intuitivo escreve o pensamento que lhe é sugerido instantaneamente e provocado. (N*180.)
São muito comuns, mas também muito sujeitos a erro, por não poderem, muitas vezes, discernir o que provém dos Espíritos do que deles próprios emana.[...]"
Trecho do cap.XVI de O Livro dos Médiuns. Allan Kardec

*Doutor Júlio Peres é psicólogo clínico e Doutor em Neurociências e Comportamento pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Fez Pós-doutorado no Center for Spirituality and the Mind, University of Pennsylvania e na Radiologia Clínica-Diagnóstico de Imagem pela UNIFESP.

sábado, 19 de agosto de 2017

A Mediunidade em nós

Como saber se sou médium? Muitas pessoas questionam sobre esse assunto, pois a mediunidade é um tema que gera dúvidas e polêmicas. Inerente ao espírito, ela permite que todos sejamos médiuns, mas nem todos podemos ver ou se comunicar com os espíritos da mesma forma pois, para algumas pessoas, ela é mais aflorada. Mas como podemos desenvolver a mediunidade? Por que geralmente as crianças têm essa capacidade mais desenvolvida que os adultos? O estudo da doutrina espírita auxilia a aflorar essa capacidade? Veja o que a expositora espírita Celina Sobral fala sobre o assunto.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O Impulso das Crises na Transformação Social



Por Eliana Haddad

A vida de Nancy Puhlmann Di Girolamo sempre esteve ligada à Instituição Beneficente Nosso Lar, dedicada às pessoas portadoras de deficiências, fundada em São Paulo, em 1946, por sua mãe, Maria Augusta Ferreira Puhlmann. Escritora, articulista, Nancy publicou vários livros enfocando pessoas com deficiências, enfatizando a importância do desenvolvimento das potencialidades humanas.

Enfermeira pela Universidade Federal de São Paulo com especialização em neuropediatria e socióloga pela Escola de Sociologia e Política da Universidade de São Paulo, Nancy tem mestrado em antropologia cultural e é pós-graduada em reorganização neurológica na Filadélfia (EUA).

Aos 91 anos, Nancy recebeu com muita alegria o Correio Fraterno em sua residência para esta entrevista. Atenta à modernidade, simples e fiel ao seu raciocínio rápido, Nancy analisou a história e o papel do espiritismo nas transformações sociais, compartilhando ainda com satisfação suas ricas experiências em tempos de longevidade.

O que está ocorrendo com a nossa sociedade e qual o papel do espiritismo neste momento?

A sociedade está em crise, mas as crises sempre existiram. Elas são necessárias, porque fazem parte do processo sociológico do progresso. Percebo também que a doutrina espírita entrou na fase sociológica, tendo dado mais ênfase antes à psicologia e à medicina, no sentido espírita. Toda literatura espírita é sociológica porque o espiritismo é um ensino do destino e dos objetivos do espírito e suas relações com o mundo corpóreo, com o mundo social. Kardec, quando coloca na terceira parte do O Livro dos espíritos as leis morais, ele entra no social, mas como uma atitude comportamental interior que se expande sempre através das relações com o próximo.

Em sua opinião, o espiritismo já conseguiu cumprir com esse objetivo no aspecto social?

Acho que sim, pelo sentido real das propostas e ideações ultimamente desenvolvidas. Houve com Chico Xavier uma grande expansão do social na divulgação das ideias espíritas, baseadas na obra estruturada de Kardec. E isso está ocorrendo também com o trabalho de Divaldo no mundo.

A senhora está falando de expoentes. Mas e o espírita de maneira geral, está conseguindo enxergar o papel do espiritismo ou ainda está voltado para si mesmo?

Prioritariamente, sim, ainda. Todo ser humano faz parte de uma história que o obriga a olhar para si mesmo num processo normal de conhecimento. E isso vai permanecer por muito tempo, é um problema de evolução. Na realidade, é na vida social que exercitamos nossos papéis. É no intercâmbio mesmo que o progresso se dá, na lei de sociedade.

Como a senhora vê a bandeira do espiritismo "Fora da caridade não há salvação" na sociedade hoje?

Acho que apesar da insistência de Kardec, de fazer inclusive uma pergunta específica sobre isso aos espíritos, ainda não se compreendeu muito bem o que seja isso. Kardec obteve a resposta clara e definitiva de que a ideia de caridade retrata o pensamento de Jesus: "Benevolência para com todos, indulgência com as faltas alheias e perdão das ofensas". São três atitudes interiores do ser. Dar é sempre um desprendimento, com valor ou não, mas a caridade não acaba aí. Apenas começa assim e depois esse sentimento vai se desenvolvendo em outros aspectos no relacionamento humano. Caridade é uma atitude sempre nova como agente transformador das relações de uma maneira geral.

Que análise podemos fazer, nesse sentido, do momento atual?

Estamos numa fase de mudanças tremendas. Mas é preciso compreender que esse processo já vem se realizando há mais tempo. Quando os espíritos anunciaram "os tempos são chegados" não se referiam a um exato momento de 1857, como uma transformação que surgisse de um dia para outro, mas assinalavam as circunstâncias que começavam a se fazer presentes e favoráveis às mudanças necessárias e inevitáveis. Quando as mudanças sociais são rápidas, provocam uma crise que exige muita reflexão, pois nem sempre há maturidade suficiente da sociedade para assimilá-las. É preciso comandar, dirigir e administrar a mudança para não sermos engolidos por ela. A lei social humana é lei de progresso.

Mas também podemos atrasar o progresso.

Sim, claro. Isso é exatamente o que Kardec obteve de resposta dos espíritos. Não se pode entravar o progresso, mas pode-se atrasá-lo, sim. Não é que possamos paralisá-lo definitivamente, porque ele é uma força de lei, supremamente superior ao estacionamento e à inércia. Por isso está também presente mesmo quando dizemos que o que vale mesmo é o aqui e agora, que se deve se concentrar somente no presente. O maior perigo é que a inércia pode trazer é o pessimismo.

É o que acontece hoje com a humanidade diante de tantos conflitos?

A situação econômica e política mundial, no Oriente e no Ocidente, está conflitante, confusa. Podemos ter um pensamento pessimista porque aparentemente parece que tudo está perdido. Como se quiséssemos permanecer numa zona de conforto, de acomodação. Ora, a realidade não é essa. Aliás, aí entra o pensamento da doutrina espírita. A sociedade está submetida à lei maior, a lei do progresso, e os conflitos atuais não são um retrocesso, um risco iminente, mas uma maneira de se processar o avanço. Lembro que no meu tempo de estudante de sociologia, a gente estudava o mesmo processo: conflito, competição, interação e miscigenação. Hoje, ultrapassamos essas fases que são repetitivas e entramos na fase da inclusão. Hoje nós incluímos tudo. Incluímos preconceitos que eram rechaçados e que hoje estão em moda. Damos realce, exageramos o seu valor. Isso também não é correto, porque toda oposição reforça o oponente.

E qual seria então, sociologicamente, o próximo passo desse sistema que estamos vivendo?

Falar sobre o próximo passo é o mesmo que indagar sobre qual será nosso futuro. E isso a doutrina espírita mostra ser único. Só há um caminho: o progresso intelecto-moral. Lembrando-se sempre, porém, de que não é pelo desenvolvimento intelectual que o moral se desenvolve. Na questão da inclusão, quando as oportunidades são mais amplas, ela é uma bênção, porque se num primeiro momento ela chega confundindo, miscigenando tudo, na sequência virá a organização. Precisamos refletir e perceber que a lei divina está acima de ideias pessoais, grupais, institucionais. Querendo ou não, estamos progredindo e é reforçando-se o bem que se enfrenta o oponente. É como ensinou Jesus na parábola do joio e do trigo. Eles crescem juntos e somente quando estão bem grandes é que se consegue separá-los. Para curar a sociedade é preciso também sanear a forma de pensar, ter noção de que o pensamento e a mente são nossos grandes colaboradores, se soubermos direcioná-los adequadamente. Nesse sentido, devemos nos trabalhar interiormente na procura do bem. É preciso achar o bem. E se procurar, acha.

E teremos condições de fazer essa separação naturalmente no estágio evolutivo em que nos encontramos?

Sim. Não digo nós, referindo-me à população presente no globo hoje. Mas a população que virá, pelo próprio processo da reencarnação, que poderemos ser nós mesmos. Nossa responsabilidade continua. Não há ruptura. Oxalá, possamos estar encarnados, participando ativamente dessa transformação. Ela não vem de graça, mas está aguardando pelas nossas atitudes, coletivamente, porque sozinhos somos poucos, não iremos conseguir. Por isso há uma lei divina, que é da sociedade. É juntos que precisamos fazer isso.

Com tanta violência, conflitos, a primeira impressão é a de que o bem está distante, que estamos retrocedendo...

A grande questão é: a crise, a dificuldade, é um empecilho ou um avanço? Toda dificuldade é um avanço, porque todo erro é uma experiência já realizada e aí está o aprendizado. Se não errássemos, não conheceríamos. Estamos numa época catártica, colocando para o exterior aquilo que está nos incomodando por dentro. É sempre um momento importante, muitas vezes dolorido, mas o que vai nos fazer crescer, tirando-nos do conforto e nos impulsionando à ação.

Qual seria o papel do espiritismo nessa transição?

Primeiro, é preciso que ele seja muito bem conhecido como doutrina kardeciana, de bom senso. Quanto mais se lê, mais se descobre, mais se admira o pensamento de Kardec, a pesquisa que ele fez, a doutrina como ele organizou. Ela é um farol na escuridão a se projetar para nos auxiliar, inclusive na busca do lado positivo. Acreditando e não desanimando. Tudo é uma questão de sintonia.

O que a senhora proporia para a divulgação da doutrina atualmente? Estamos conseguindo acender essa luz, levar essa mensagem?

Tenho a impressão de que, no sentido sociológico, o grupamento espírita iniciou a unificação de ideias, não no sentido institucional, orgânico, mas de pontos de vista, de forma a centrar e valorizar a base, a obra de Kardec. Mas não podemos esquecer que o Cristo transcende na obra de Kardec. Há uma filiação fidedigna de Kardec para com o cristianismo, o que quer dizer que, se nos centrarmos nesse aspecto, encontraremos inúmeras modalidades de seguir o exemplo do espírito mais elevado que esteve entre nós e alavancar o nosso progresso na contextualização do seu evangelho. Através de perguntas e respostas, Kardec leva-nos a deduzir o que é preciso ser feito. Antes disso, o cristianismo estava devaneando, podemos dizer, estava disperso, avariado, ortodoxo, fundamentalista, tendencioso. Agora, por exemplo, sentimos uma mudança muito grande no sistema sociológico-religioso. Vemos que as religiões estão se abrindo.

E sobre a experiência do avançar da idade? Como aproveitar melhor tal condição?

O envelhecimento não é absolutamente o final de tudo, como se faz parecer, como se você fosse perdendo tudo da vida – a vista, o ouvido, o movimento, as células do corpo que já não se renovam tanto, embora os neuropeptídios estejam aí acenando para mudanças, através das pesquisas da neurociência. O envelhecimento nos traz a ponderação que fez falta a vida inteira. Faço hoje com muita alegria retrocessos da vida e vejo quantas coisas fiz por personalismo. O envelhecimento traz uma oportunidade maravilhosa de se fazer uma revisão, sem artifícios, sem o selo do 'faz de conta'. Você começa realmente a se descobrir e a achar graça de si mesmo. Estou à procura de mim mesmo. E me pergunto sempre: quem sou eu agora? Isso é uma bênção, compensador. O tempo é precioso e envelhecer pode não ser tão assustador. Querendo ou não a longevidade veio pra ficar. Não temos que ter medo do envelhecimento. É a vida.

Publicado no jornal Correio Fraterno, edição 462 - março/abril 2015
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