domingo, 31 de outubro de 2010

Gandhi, o Amor e a Verdade



“O Amor (Ahimsâ) e a Verdade (Satya)”, os dois grandes pilares da doutrina gandhiana, estão expressos nessa seleção de frases do “Apóstolo da Não-Violência”, que encerram o mês dedicado em sua homenagem pela passagem dos 141 anos do seu nascimento.




Amor (Ahimsâ)

“A não-violência completa é a ausência completa de maus desejos com relação a tudo que vive. A não-violência, sob forma ativa, é a boa vontade para tudo o que vive. A não-violência sob forma ativa, é a boa vontade para tudo o que é vivo. É o amor perfeito.”

“A não-violência é a lei de nossa espécie assim como a violência é a lei do animal. O espírito no animal está em estado latente e ele não conhece outra lei senão a da força física. A dignidade do homem exige que ele obedeça a uma lei mais alta, à força do espírito.”

“O amor é a força mais poderosa que possui o mundo e, entretanto, ela é a mais humilde que se possa imaginar.”

“O amor tornar-se-ia veneno se não limitássemos, rigorosamente, pelas considerações morais.”

“Para adquirir uma força real, a não-violência deve começar com o espírito. A não-violência que abarca tão-somente o corpo e na qual o espírito não colabora, é a da fraqueza e covardia; não podemos tirar dela nenhum poder. Se mantivermos em nosso coração o ódio e a malícia, não deixando transparecer a nós mesmos que nisto há vingança, isto nos subjugará, e nos conduzirá a nossa perda. Pois a abstenção de toda a violência, unicamente física, não é nociva, mas é preciso não ter pensamentos de ódio mesmo se não pudermos desenvolver em nós o amor ativo. Todos os cantos, todos os discursos que possuem o ódio devem ser colocados num “índex”.

“O coração mais endurecido e a ignorância mais grosseira desaparecem diante do sol do sofrimento paciente e sem maldade.”

“Oponho-me à violência, pois quando ela parece produzir o bem, tal bem não tem senão resultado transitório, enquanto que o mal produzido é permanente.”





Verdade (Satya)


“O erro não se torna verdade, pois se propaga e se multiplica; a verdade não se torna erro porque ninguém a conhece.”

“Por sua própria natureza a Verdade tem a evidência em si. Desde que a desembaracemos de todas as teias arraigadas de ignorância, ela brilha com esplendor.”

“O caráter deve ter por base a ação virtuosa e esta repousa na Verdade. A Verdade é a origem e fundamento de tudo o que é bom e grande. Assim, perseguir com intrepidez e sem hesitação o ideal da Verdade e da Justiça é a luz da saúde e de todo o resto.”

sábado, 30 de outubro de 2010

Gandhi, a história cronológica de um "Missionário Pacifista"


1869 – Nascimento, em 2 de outubro, de Mohandas Karamchand Gandhi, em Probandar.

1882 – Casamento de Mohandas com Kasturbai.

1888 – Partida para a Inglaterra; estudos de direito.

1891 – Admissão na advocacia e retorno a Índia. Advogado em Bombaim, depois em Rajkot.

1893 – 4 de abril; partida para a África do Sul. Noite de Pietermaritzburg. Pretória.

1894 – Retorno a Durban. Funda o Congresso Indiano do Natal. Advogado no tribunal.

1896 – Visita à Índia. Atacado a retornar a Durban.

1900 – Organiza uma unidade de enfermeiros de ambulância durante a Guerra dos Bôeres.

1901 – Retorno à Índia.

1902 – Abre um escritório de advocacia em Rajkot, depois em Bombaim. Retorno à África do Sul a pedido de seus compatriotas.

1903 – Advogado em Johannesburg. Funda o Indian Opinion em Durban.

1904 – Leitura de Ruskin, funda a colônia de Phoenix.

1906 – Rebelião dos zulus, padioleiro voluntário. Voto de brahmacharya. Agosto: publicação da “Lei Negra”; setembro: campanha de resistência; Gandhi vai a Londres para advogar contra projeto de lei.

1907 – Juramento contra “Lei Negra”. Organização da resistência passiva; forja o termo satyagraha. Doa todos os seus bens.

1908 – Dois meses de prisão. Fevereiro: acordo assinado com o general Smuts, que recusa revogar a lei. Agosto: auto-de-fé voluntário dos certificados de registro. Outubro: a prisão de novo.

1909 – Em Londres, em busca de apoio. Primeira carta a Tolstoi. Redação de Hind Swaraj no navio, ao retornar.

1910 – Funda a fazenda Tolstoi.

1913 – Nova campanha de satyagraha. Outubro: greve dos mineiros, marcha épica; cinqüenta mil trabalhadores indianos em greve. Prisão.

1914 – Negociações entre Gandhi e Smuts. Partida definitiva da África do Sul. Londres: recrutamento de enfermeiros de ambulância indianos para a guerra.

1915 – Retorno à Índia. Funda o ashram de Sabarmati, onde recebe uma família de intocáveis.

1917 – Satyagraha de Champaran, no Bihar.

1918 – Satyagraha com os operários das indústrias de fiação de Ahmedabad. Jejum de três dias em apoio aos operários. Satyagraha do Khera. Recrutamento para o exército inglês.

1919 – Juramento de satyagraha contra as leis Rowlatt. Jejum de três dias. “Um erro do tamanho do Himalaia.” Abril: massacre de Jaliyanvalabagh no Penjab. Encontro com Motilal Nehru. Edita dois jornais: Young Índia e Nevajivan.

1920 – Assume a liderança do movimento do Califado, lança a idéia e o termo de não-cooperação. Agosto: morte de Tilak. Setembro: o Congresso alia-se ao programa de Gandhi. Dezembro: início do movimento.

1921 – O movimento conquista a Índia inteira. Novembro: visita do príncipe de Gales e hartal. Conflitos em Bombaim. Jejum de cinco dias.

1922 – Massacre de Chauri Chaura e suspensão do movimento de não-cooperação. Grande processo em Ahmedabad, seis anos de reclusão.

1923 – Prisão de Yeravda. Redige Satyagraha in South África e Autobiografia. Leituras, roca de fiar.

1924 – Liberado da prisão. Vinte e um dias de jejum após os conflitos hindus-muçulmanos.

1925-1926 – Retiro da vida política. Viagens, propaganda da roca de fiar e do khadi.

1927-1928 – Boicote da comissão Simon; decisão de lançar uma campanha de desobediência civil, se dentro de um ano, o estatuto de domínio autônomo não for concedido à Índia.

1929 – Lançamento oficial da campanha pela independência.

1930 – Março, abril: marcha do sal. Maio: detenção de Gandhi; o movimento se desenvolve em toda Índia.

1931 – Liberado da prisão. Março: pacto Gandhi-Irwin. Setembro: em Londres, última fase da mesa-redonda e fracasso. Paris, Suíça, Itália: visita a Romain Rolland, encontro com Mussolini. Dezembro: retorno a Bombaim.

1932 – Detenção de Gandhi, repressão em massa. Setembro: “jejum épico” contra os eleitorados separados para os intocáveis. Pacto de Poona.

1933 – Jejum de purificação na prisão; solto, dissolve seu ashram. Viagem de dez meses em favor dos intocáveis. Harijan substitui Young Índia.

1934 – Suspensão da campanha de desobediência civil. Retira-se do Congresso para se consagrar ao “programa construtivo”. Funda a Associação pan-indiana da indústria rural.

1935 – Government of Índia Act, que reforça o poder dos governos provinciais.

1936-1938 – Instala-se em seagon, desenvolve o artesanato e a indústria de aldeia, khadi, roca de fiar; luta contra a intocabilidade. Viagens.

1940 – Campanha de desobediência civil individual para protestar contra a participação da Índia na guerra.

1942 – Abril: fracasso da missão Cripps. Agosto: resolução Quit Índia. Gandhi é encarcerado em Poona. Distúrbio e repressão em massa.

1943 – Jejum de protesto por três semanas.

1944 – Morte de Katursbai. Maio: Gandhi, enfermo, é solto. Setembro: fracasso das negociações Gandhi-Jinnah.

1945 – Fracasso da conferência de Simla.

1946-1947 – A “grande matança de Calcutá”, seguida de uma série de massacres entre hindus e muçulmanos no Bihar e em Bengala. Novembro de 1946 a março de 1947: Gandhi em Noakhali (percorre 47 aldeias), depois no Bihar. Março: chegada de Mountbatten e plano de divisão da Índia, ao qual Gandhi se opôs mas acabou tendo que aceitar. Agosto: Gandhi está em Calcutá, enquanto é celebrada a independência da Índia. Jejum até a morte para deter os massacres e obter a pacificação de Calcutá.

1948 – 13 a 18 de janeiro: último jejum, em Délhi, e pacificação da cidade. 20 de janeiro: tentativa de assassinato. 30 de janeiro: assassinato de Gandhi por Nathuram Godse, um hinduísta.


Da biografia Gandhi, de Christine Jordis.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A História da Não-Violência

Um documentário legendado em português com alguns dos grandes pacifistas da história da humanidade descrevendo as suas trajetórias, dedicação e lutas pela causa da não-violência:



Parte 1



Parte 2



Parte 3 (sem audio, só legendas)



Parte 4



Parte 5

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

“Servir é uma Religião – A Vida em Família”


“Servir é uma religião”. Mesmo durante o período em que ainda se buscava, Gandhi não vivia unicamente para si próprio e seu círculo familiar (ao contrário de Tolstoi, que conta que, antes de sua conversão, sua filosofia de existência consistia em desejar o melhor para si e para sua família). A busca interior muito cedo o agita.

Se partiu para a África do Sul, confessa que foi para fugir das intrigas mesquinhas do Kathiyavar (principado na costa noroeste da Índia) e ganhar a vida. Um objetivo que não apagava sua orientação profunda: “Eu me vi em busca de Deus e lutando para a realização do meu ser”. Mas chegar a Deus, segundo ele, só era possível prestando serviço aos outros. Um pouco mais adiante, num capítulo da autobiografia intitulado “A vontade de servir”: “Eu aspirava a uma tarefa humanitária de ordem permanente”. Não sendo suficiente a obra pública, ele trabalha num pequeno hospital, cuidando dos trabalhadores sob contrato, isto é, dos indianos mais pobres. O que representa duas horas todas as manhãs, e esse trabalho lhe dá “um pouco de paz”.

Cuidar, sobretudo, era isso o importante. Dois outros filhos seus nasceram na África do Sul, em 1897 e 1900 (data importante, pois Gandhi reconhece aí o momento em que começou a pensar em fazer o voto de castidade). Durante os primeiros anos, ele próprio cuidou deles, estudando num livrinho as instruções para o parto (aliás, foi ele que assistiu o nascimento do seu último filho, pois a parteira contratada não chegou a tempo).

E renunciar, ir em direção ao menos.
Ele assinala que sua nova situação, a bela casa em Durban, mobiliada com “todo cuidado”, não consegue exercer domínio sobre ele. Em realidade, tem necessidade de menos, de viver com pouco. Nesse ambiente abastado, que imaginou à altura de sua vida profissional, não se sente à vontade. Logo começará a fazer economias, a experimentar, como em Londres, e essas experiências têm a vantagem de diverti-lo e de fazer rir os amigos: por isso o colarinho mal-engomado (ele próprio decidira fazer essa operação) cujas placas de amido caem durante uma sessão do tribunal, por isso os cabelos que ele tosquia, porque um barbeiro inglês desdenhoso recusou-se a cortá-los, e que se dispõem em camadas estranhas. “Meus amigos do tribunal quase morreram de rir”. Não se tratava apenas de excentricidades, de caprichos que às vezes perturbarão seus amigos, mas de uma necessidade profunda, daquela “paixão pela autarcia e pela simplicidade” que acaba, ele confessa, por tomar formas extremas. Por ora, ele é barbeiro, lavadeiro, enfermeiro, farmacêutico, educador, professor (tendo recusado para os filhos, apesar dos protestos da mãe, um favor que é negado a outros, a saber, o ingresso numa escola européia, ele próprio os instrui enquanto caminha até seu escritório em Johanesburg acompanhado dos garotos, num trajeto de dezesseis quilômetros, ida e volta). De boa ou de má vontade, a família partilha suas experiências e aplica as conclusões que ele tira (o que alguns críticos lhe reprovarão severamente).

Quanto à mulher e aos filhos, que ele formava para dedicarem a vida a servir, a “compreender que a idéia de servir comporta em si a recompensa”, como poderiam não seguir seu exemplo? Todavia ele pressente que Katursbai não o entenderá desse modo. Os filhos aceitam com alegria, como ele esperava. Mas Katursbai mostra uma oposição feroz, despejando uma torrente de reprovações e lágrimas: “Seus serviços não são também um pouco os meus ? Tenho pensado; noite e dia tenho sido sua escrava... Você me impôs todo tipo de coisas e de pessoas...” Gandhi reconhece a justeza dessas objeções. Em Durban, tinha a mesa aberta, seus empregados do escritório estavam constantemente em sua casa, cristãos, hindus ou outros, tratados como membros da família, sem contar os convidados, indianos e europeus, que se sucediam, e essa vida em comunidade geralmente pesava Kasturbai. Uma grave crise sobreveio no dia em que, tendo convidado um cristão nascido de pais intocáveis, Gandhi quis limpar seu quarto e esvaziar seu penico, o que tinham o hábito de fazer para os hóspedes, ele ou Katursbai. “Ela não podia me ver esvaziar aquele vaso, como tampouco queria fazê-lo ela própria.” Enfim, Katursbai chorava e fulminava, quando seu esposo queria que ela “cumprisse alegremente aquela tarefa”. Segue-se uma violenta discussão; Gandhi, cego de cólera, arrasta “a pobre mulher sem defesa” até a porta de entrada como para lançá-la na rua. A crítica reprovou muito a Gandhi esse ato de crueldade (mas é difícil insistir demais quando o interessado é o primeiro a acusar-se).

O incidente ocorreu em 1899, esclarece Gandhi em sua autobiografia, antes que ele pronunciasse o voto de castidade; ele achava então que “a mulher era apenas um objeto de desejo para o marido, que ela nascera para obedecer fielmente o esposo...”. Mas hoje, ele acrescenta, “não sou mais o educador de minha mulher. Katursbai é livre, se quiser, para ser tão desagradável em relação a mim quanto fui outrora em relação a ela. Somos amigos experimentados, um não considerando mais o outro como objeto do seu desejo”, e o episódio acaba por exaltar os méritos da castidade. A conclusão é que a existência do casal era enfim “inteiramente de contentamento, de felicidade e de progresso”. Ao ler essas linhas (por que não acreditar nelas?), pode-se compreender por que Kasturbai não levantou nenhuma objeção quando Gandhi, em 1906, pediu-lhe a concordância para levar uma vida casta.


Christine Jordis

Biografia de Gandhi, de Christine Jordis, trecho do capítulo “Transformação de si”.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Música Espírita: Cantiga da Paz – Célia Tomboly

Essa é uma canção com letra psicografada pela médium Brunilde M. do Espírito Santo de autoria espiritual de Dolores Duran, na voz da cantora Célia Tomboly. A bela canção fala da Paz nascida do nosso mergulho interior em harmonia com Deus e a natureza.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Gandhi e a Saúde Social


Ao nos depararmos com a palavra "saúde", logo nos vem à mente aquele estado de equilíbrio físico e mental que se contrapõe à condição enfermiça, patológica, desvitalizada. A saúde seria, assim, a antítese da doença; representaria a condição harmônica e integrada, de um ser.

Mas aí, desde logo, cabe a pergunta: de que ser estamos falando?

Somente cada ser individualizado é passível de gozar da saúde ou padecer da doença? Ou o corpo social, enquanto grande ser, também teria estes atributos?

Qualquer um de nós, caso se dê ao trabalho de olhar à sua volta, há de concluir pela segunda hipótese. Desde o nosso primeiro choro até o nosso último suspiro, intercambiamos informações, atividades, emoções, sentimentos, silêncios, risos, choros, pesares e desfrutes com o mundo à nossa volta. E também fazemos chegar ao mundo as nossas omissões, que repercutem, decisivamente, na teia social, como instrumento de manutenção de um “status quo” injusto e, por extensão, violento.

Somos, a um só tempo, mestres e alunos no devir universal, e isto nos torna, de modo inafastável, responsáveis pelo nosso próximo, pela comunidade que nos alberga, pela grande família humana e também pela Natureza, com a qual temos laços indissolúveis.

Portanto, parece inevitável inferir, deste quadro, que não seremos verdadeiramente sãos enquanto, ao nosso lado, se fizerem presentes e atuantes a dor, a violência e o sofrimento, derivados da injustiça. Daí o atualíssimo exemplo de Gandhi: a ação corajosa no amor e pelo amor, preocupada não como a auto-salvação, mas com a salvação de todos.

É interessante observar que a raiz etimológica do vocábulo "saúde" é a mesma da palavra "salvação", a saber: “salutem, salvus”.

Desta forma, ser são é salvar-se; mas não há como se salvar, realmente, sem empreender esforços para a salvação do corpo social que nos abraça. Isto porque, estando, este macro-corpo, enfermo, tal abraço será de morte, não de vida.

Esta salvação, em grande escala, passa pela problemática da justiça, visto que a harmonia social é a expressão do justo. E perpassa, também, o problema da violência, já que, para Gandhi, esta é "qualquer coisa que possa impedir a auto-realização individual, não apenas atrasando o progresso de uma pessoa, mas também a mantendo estagnada. Sob essa perspectiva a violência é violenta porque leva ao retrocesso".

Atraso, estagnação, retrocesso, obstaculização do processo individual como expressões da violência. Vejamos o que dados empíricos acerca de nossa saúde social nos revelam a respeito dela e, após, realizemos um cotejo entre estes números e o pensamento gandhiano:

. O Brasil é o oitavo país em desigualdade social, na frente apenas da latino-americana Guatemala e dos africanos Suazilândia, República Centro-Africana, Serra Leoa, Botsuana, Lesoto e Namíbia, segundo o coeficiente Gini, internacionalmente utilizado para medir a concentração de renda (Folha Online, 07/09/2005);

. Em uma hora, 1,2 mil crianças morrem, por falta de condições materiais, no mundo, o que equivale a três tsunamis por mês (Folha Online, 7/9/2005);

. O globo tem 2,1 bilhões de excluídos sociais. Esta população de excluídos vive em 60 países, que embora concentrem 35,5% da população mundial, detêm, tão somente, 11,1% de toda a riqueza produzida no mundo. Do lado oposto, 871,7 milhões de pessoas, isto é, 14,4% da população global possui 52,1% do PIB mundial, estimado em US$ 45 trilhões (livro "A exclusão no mundo", lançado na 11ª Unctad - Conferência das Nações sobre Comércio e Desenvolvimento);

. Segundo relatório do observador da ONU acerca do Direito à Alimentação, Jean Ziegler, há uma guerra de classes no Brasil, já que, para a ONU, 15 mil mortos por ano são um indicador de guerra, enquanto que, em nosso país, há cerca de 40 mil assassinatos por ano (Folha Online, 18/03/2002);

. O Brasil mantém uma "armadilha da desigualdade", segundo o BIRD (Banco Mundial), isto é, mantém elementos vitais para a perpetuação deste estado de coisas iníquo (Folha Online, 21/09/2005);

. Os conflitos armados, ocorridos no século XX, exterminaram três vezes mais pessoas do que no resto da história humana, totalizando cerca de 111 milhões de mortos.

Este é, pois, o nosso grande corpo social, infectado por diversas moléstias, capitaneadas pelo flagelo maior, o egoísmo, secundado por sua irmã-gêmea, a indiferença. A violência, assim, se consuma, na visão de Gandhi, não apenas pelo ato fisicamente hostil, mas, também, através de qualquer ação ou omissão que impeça a emergência e a consumação das potencialidades tendentes à auto-realização de alguém.

Por este viés e, tendo em vista os dados antes mencionados, a constatação é uma só: vivemos, inequivocamente, em um contexto violento. A violência, que teima em esgarçar o nosso tecido social, se materializa não somente através de tiros de revólver e golpes de faca, mas, sobretudo, pela pressão nefasta que realiza sobre cada um de nós, impedindo-nos de ser, o que podemos ser, ou em concretizar o que, em potência, já somos. E, ao fazer isso, na melhor das hipóteses nos mantém estagnados; na pior, nos faz regredir. A violência nos contém tal qual uma poça, não deixando que a água flua e encontre o Oceano da plenitude e da bem-aventurança. Aprisionada, a água se torna fétida e se conforma em habitar o pântano de nossas dúvidas que, em um perverso processo de retroalimentação, retira de nós o ânimo para agir e modificar as nossas relações e o nosso entorno. A exclusão é o modus operandi da violência no seio social; a violência, por seu turno, é a arquiteta e a força-motriz da exclusão. Uma sociedade que dificulta ou impede a auto-realização dos seus integrantes é, pois, excludente, e, por conseguinte, violenta.

Mas que assim não seja. Tenhamos a imensa coragem dos não violentos, rejeitando, de igual modo, a violência dos violentos e a omissão dos acomodados. De fato, segundo Gandhi, o melhor comportamento numa luta é a não-violência dos bravos, que sobrepuja, qualitativamente, a violência dos bravos e, obviamente, a não violência covarde.

Cultivemos, para mudar o nosso enfermiço corpo social, o maior dos poderes, que, para o Mahatma, é o poder sobre si mesmo, aquilo que pode tornar alguém imune aos que tentam exercer o poder sobre outras pessoas. E, de posse desse poder sobre si mesmo, é necessário agir aqui e agora, enfatizando a consciência e a organização em prol de uma causa justa.

Deve servir de exemplo, para todos nós, o empenho de Gandhi em favor do sarvodaya, vale dizer, a forma social na qual a melhoria do macro-corpo é alcançada, via satyagraha, com a participação de todos.

O satyagraha, que, ao lado do ahimsa - ou não violência - integra a base do pensar e do agir gandhianos, tem sido entendido como "apego incondicional à verdade". Isto porque, quanto à etimologia, o vocábulo deriva de duas palavras sânscritas, quais sejam: sat = verdade, mas, também, ser, e agraha = firmeza.

Em tempos de fundamentalismo, poder-se-ia perguntar: Mas que verdade é esta? E se eu tenho a minha verdade e o outro a dele, não haverá conflito?

Em primeiro lugar, é importante assinalar que, para Gandhi, a palavra "verdade" diz respeito a algo maior do que ditas "verdades" parciais: a verdade é a razão única da existência, pois a verdade é Deus. A verdade não é um mero atributo de Deus; Ele - Deus - é (sat) a verdade. Ora, se sat designa tanto ser, quanto verdade, e se a Verdade é Deus, tem-se que quanto mais verdadeiros somos, mais próximos estamos de Deus. Nas palavras literais do Mahatma "nós somos apenas na medida em que somos verdadeiros".

Deste modo, estar firme na Verdade é estar firme em Deus.

E o conflito, será possível e conveniente extirpá-lo da existência humana?

Cabe, a esta altura, distinguir, o mais claramente possível, conflito, de violência. O conflito tem origem em um mecanismo de sobrevivência presente em todos os seres vivos, uma assertividade em busca da segurança e do impulso para o desenvolvimento. No exercício dessa assertividade, rotineiramente podem surgir desavenças e disputas entre os antagonistas.

Entretanto, não há nenhuma relação necessária, de causa e efeito, entre o conflito e a violência; inexiste uma pulsão biológica que transmude, invariavelmente, o conflito em violência. Esta - a violência - não é um comportamento natural no mundo dos organismos vivos, a não ser como patologia. O conflito, por sua vez, nada tem a ver com matar pessoas por ganância, excluir populações para manter ou aumentar posses ou domínios, negar a alguém condições para que tal pessoa realize as suas potencialidades. O conflito nos oferece a oportunidade de reestruturar a ordem social para a construção de uma sociedade mais humana, sendo, na visão de Gandhi, uma verdadeira dádiva, uma rica oportunidade em potencial para o benefício de todos.

E por que assim é?

Porque, se duas pessoas estão em conflito, isto significa que elas estão em relação e uma relação conflituosa é melhor do que nenhuma relação. De fato, se estão em conflito, têm, elas, algo em comum, um laço, uma ligação, de modo que a incompatibilidade que as une é problema de ambas, não de apenas uma delas. Ora, um problema é um convite à solução e, desta forma, os antagonistas deverão lutar contra o antagonismo, não um contra o outro. Se conseguirem crescer com o conflito, reativarão a unidade fundamental - a condição humana - que os une. De fato, no satyagraha corretamente executado, só há vencedores.

Com efeito, o mal, para Gandhi, está na estrutura, não na pessoa que desempenha o seu papel. E qualquer um que, depois de ter tomado consciência da situação injusta, continuar desempenhando um papel na estrutura violenta, cooperando com ela, estará exercendo a violência, pois sua postura estará propiciando a manutenção desta mesma estrutura geradora de exclusão e sofrimento. Não agir contra esta estrutura também é danoso. Deve-se agir contra a injustiça e a violência, uma vez que sempre há violência estrutural a eliminar e violência direta a prevenir; à luz desta constatação, a passividade é imoral.

Mas, então, segundo Gandhi, como agir, nos conflitos, para não compactuar com uma estrutura iníqua e violenta?

Aja, aqui e agora, estabelecendo, com clareza, metas compatíveis. Veja o conflito como uma oportunidade para transformar a si mesmo e a sociedade. Aja não violentamente, cuidando de não ferir ou causar prejuízo ao seu antagonista, isto é, preserve-o. Não coopere com estruturas geradoras de exclusão social e não se omita diante de um “status quo” injusto. Esteja disposto a sacrificar-se, buscando sempre a transformação humana de si mesmo, de seu oponente e da sociedade. Veja-se como falível e seja generoso na visão do seu antagonista, jamais o coagindo, mas tentando convencê-lo, pela conversão, a abraçar a causa da justiça e da Verdade.

Por fim, que lugar deverão ocupar, neste contexto, as nossas práticas espirituais?

Em Gandhi, duas coisas coincidem: o automelhoramento (alguma espécie de poder sobre si mesmo) e um novo tipo de poder político, lastreado na autoconfiança e na descentralização. A autopurificação liga-se ao autocontrole, que, por sua vez, leva à auto-realização. Uma pessoa que exerça o autodomínio tem a energia mental necessária para, fazendo uso da persuasão, trabalhar eficazmente pelo alcance de uma sociedade melhor, na qual não haja exploração. E mais: se um só homem chegasse à plenitude do Amor, ele neutralizaria o ódio de milhões, já que, segundo Gandhi, o menor gesto de amor é mais forte que o maior gesto de ódio.

O mergulho em nosso íntimo, no mais sacro recanto do nosso ser, que nos é propiciado pelas diversas técnicas de aquietação e de alquimia interior, que as tradições legaram ao mundo, não deve nos remeter a um gozo egoístico de uma suposta bem-aventurança ególatra, mas, ao contrário, nos robustecer para que possamos agir mais valiosamente em nosso meio, visando, sempre, a superação de estruturas sociais injustas e a melhoria de todo o macro-corpo que nos envolve.

Certa vez alguém perguntou a Gandhi por que ele não se retirava para uma caverna, ao que ele respondeu: "Eu trago esta caverna dentro de mim".

Possamos nós, também, sempre ter um porto seguro no coração, a partir do qual nos lancemos, amorosa e sabiamente, ao coração do outro. Estaremos, então – nosso oponente e nós, nosso irmão e nós - construindo o Ramaraj, o Reino de Deus na Terra, aqui e agora.

II Fórum de Saúde Social, 24ª Semana Gandhi, Auditório da FAU - USP, São Paulo,
30/09/2005.


Roberto de Almeida Gallego

Conferência proferida por Roberto de Almeida Gallego durante o II Fórum de Saúde Social, 24ª Semana Gandhi, auditório da FAU/USP - São Paulo, 30 de setembro de 2005

domingo, 24 de outubro de 2010

Mensagem da Semana


Ouça a Mensagem:


Guerra e Paz


Todos os esforços deverão ser empreendidos pelos seres humanos, para extinguir, em definitivo, a guerra. Poderá ser por meio da diplomacia, que, hoje em dia, abençoa os entendimentos por meio do diálogo, ou através da educação popular.

Pela educação, as criaturas poderão ver todos os inconvenientes das atrocidades da guerra seja em razão do que for.

Vivemos a fase em que a humanidade deve exercitar a razão com todos os seus componentes, trabalhando na construção da paz.

As escolas, os templos religiosos, os lares, as empresas trabalharão para a paz.

Para isso, todas as providências deverão estar voltadas para a educação do indivíduo, de cuja intimidade provêm todos os delitos, se ele está enfermo, ou todas as luzes, se está equilibrado.

Ao se pensar na guerra, pensa-se que tudo estará concluído e solucionados todos os problemas, quando sejam assinados os tratados de paz.

Poucos se dão conta dos desdobramentos da trágica experiência, durante e depois dela.

Nas guerras, não morrem somente os que tombam nos campos de batalha ou são devorados por explosões de quaisquer tipos.

Também morrem, no abismo da dor, um número ilimitado de pais e de mães, que recebem objetos de uso pessoal e condecorações dos seus filhos desaparecidos.

Morrem esposas vencidas pela saudade e pela solidão, após receberem as documentações que honram os seus companheiros desencarnados.

Morrem na revolta, na mágoa, no desejo de vingança contra a sociedade, multidões de filhos levados à orfandade, tendo os nomes dos seus pais glorificados no altar frio dos mausoléus dos heróis, que as nações lhes constroem, como se isto fosse resolver o drama das dores morais dos seres marcados pela guerra.

E o saldo dos mutilados físicos? Dos mutilados mentais, assinalados por neuroses e psicoses que retornam para os seus lares e para as ruas, muitos deles se envolvendo na violência, no crime, nos vícios e no infortúnio?

Ao pensarmos sobre a monstruosidade da guerra, apareça onde aparecer, apoiada no motivo que for, reflitamos nas conseqüências dessa tragédia para a humanidade inteira e refreemos nosso entusiasmo.

Jesus, o herói da sepultura vazia, nos conclamou para a paz. Ele afirmou que os mansos herdariam a terra e os pacíficos seriam chamados filhos de Deus.

Envolvidos em nossos afazeres, estudando, trabalhando, falando ou realizando qualquer atividade, sejamos instrumento da paz, permitindo que o suave ensino do Mestre Galileu ilumine a nossa intimidade, iluminando os que vivem e convivem conosco.



Equipe de Redação do Momento Espírita, com base nos livros Vozes do Infinito, cap. 16 e Poemas de Paz.

sábado, 23 de outubro de 2010

Boas Notícias

Essas são algumas das notícias positivas do mês, selecionadas para destaque em nossa sessão “Boas Notícias”:


Caminhada em favor da vida será domingo em Fortaleza

O Movimento Nacional da Cidadania Pela Vida - Brasil Sem Aborto e as ONGs Movimento Internacional Pela Vida (Movida) e Movimento Internacional Pela Paz e Não-Violência (MovPaz) realizam no próximo dia 24, a partir das 16h, a 2ª Caminhada em Favor da Vida por um Brasil sem Abortos. A concentração é na Igreja São Pedro (Rua Almirante Barroso, na Praia de Iracema). De lá, os participantes seguem até a estátua de Iracema, no Aterrinho, onde acontecerá ato público e apresentação artística.

Os responsáveis pelo evento, Clóvis Nunes, coordenador nacional do MovPaz, e Fernando Lobo, presidente do Movida, afirmam que o objetivo da caminhada é destacar a importância do respeito à vida, principalmente à vida humana das crianças que são abortadas no Brasil e no mundo. Eles enfatizam que o evento é suprapartidário e interreligioso.

“Este evento não possui conotação política partidária nem exclusivismo religioso. Precisamos conclamar nesta caminhada a implantação de políticas públicas à prevenção de gravidezes indesejadas. Todo aborto é fruto de gravidez indesejada. Bebê que é amado e planejado nunca será abortado”, alerta o baiano Clóvis Nunes, professor e um dos coordenadores do evento.

O engenheiro Fernando Lobo, também coordenador da caminhada, afirma que é necessário pensar a saúde pública no país. “O PSF está falido neste sentido. Faltam métodos preventivos de contracepção, educação sexual de jovens e adultos, além de campanha ostensiva no planejamento familiar”, diz.

A caminhada pretende incluir adeptos de todas as religiões, além de lideranças religiosas e comunitárias. “O evento além de ecumênico, vai reunir pessoas de boa vontade, de diferentes ideologias, classes sociais, é, portanto, de natureza plural. O trajeto é curto para incluir idosos e deficientes físicos”, diz Clóvis Nunes. “Em Fortaleza é a 2ª ocasião da caminhada, mas é a 7ª vez em nível nacional. Já aconteceu em Brasília, João Pessoa e Feira de Santana”, completa.

Dentre as instituições que já aderiram ao evento estão Face de Cristo, Federação Espírita do Ceará (FEC), Colégio Darwin, Associação dos Divulgadores do Espiritismo (ADE), Agência da Boa Notícia e Maçonaria Grande Oriente do Brasil, além de igrejas evangélicas sob diversas denominações, entre outras entidades.

* Com informações da Assessoria de Imprensa – Central de Comunicação Ltda.

Contatos: Fernando Lobo – Presidente Movida (fone: 85 9984 9386) e Clóvis Nunes, – Coordenador do MovPaz - (fone: 85 8896 1173)


Fonte: Agência da Boa Notícia, terça-feira, 19 de outubro de 2010


Ciência

Estudo indica que imagens violentas podem dessensibilizar jovens

Garotos adolescentes repetidamente expostos a programas de televisão, filmes e videogames violentos têm mais chances de se tornar insensíveis à violência, de acordo com um estudo de pesquisadores do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e Derrames dos Estados Unidos, publicado nesta terça-feira.

Não é a primeira vez que pesquisadores investigam a hipótese de que imagens violentas podem brutalizar os jovens. A maior preocupação dos cientistas é com a parte do cérebro que controla as emoções e reações a eventos externos - em outras palavras, o "freio" que obedece a nosso senso de certo e errado -, que ainda está em fase de desenvolvimento durante a adolescência.

As últimas pesquisas neste campo, no entanto, vêm sendo questionadas por falta de indícios sobre o que de fato acontece com as funções cerebrais, principalmente na área conhecida como córtex lateral orbitofrontal (OFC, na sigla em inglês), quando um adolescente é exposto a cenas de violência.

Junto com sua equipe, Jordan Grafman, membro do Instituto, estudou o comportamento de 22 garotos com idades entre 14 e 17 anos, com o objetivo de obter dados clínicos.

Cada um dos jovens assistiu a uma série de clipes curtos, de quatro segundos, mostrando cenas de violência, extraídos de 60 vídeos diferentes. As imagens foram escolhidas previamente por um outro grupo de adolescentes, que as classificaram como muito, médio ou pouco violentas. Elas foram exibidas em ordem aleatória aos voluntários do estudo, em blocos de 20 clipes. Os jovens assistiram às cenas deitados em um aparelho de ressonância magnética, usado para monitorar sua atividade cerebral. Além disso, seus dedos estavam ligados a sensores, capazes de medir a condutividade elétrica da pele, que varia de acordo com o suor; este dado é considerado útil como guia à resposta emocional a estímulos.

Os pesquisadores averiguaram que, quanto mais tempo os garotos olhavam para as imagens mais violentas, menos reagiam em termos de atividade do OFC e da condutividade da pele. O mesmo não ocorreu quando os voluntários eram expostos às imagens consideradas de menor grau de violência.

"Descobrimos que, à medida em que eram expostos aos vídeos mais violentos, a atividade em regiões do cérebro dos meninos ligados às reações emocionais diminuía, e isso se refletiu nos dados coletados pela ressonância magnética e pelo medidor de condutividade da pele", explicou Grafman.

A dessensibilização foi mais evidente entre adolescentes que relataram ser constantemente expostos a imagens violentas em sua rotina, de acordo com as respostas a um questionário que fazia parte da etapa inicial do estudo.

Para Grafman, as imagens violentas estimulam estruturas do cérebro tipicamente ativadas quando as pessoas estão sendo agressivas. Sem o "guardião mental" que exerce a contenção emocional, esta exposição torna mais provável que um jovem cresça considerando a violência um comportamento aceitável.

"As implicações são inúmeras (...), e incluem a idéia de que a exposição contínua a vídeos violentos é capaz de tornar um adolescente menos sensível à violência, mais confortável com a violência, e mais propenso a cometer atos agressivos, uma vez que o componente emocional associado à agressão, que normalmente age como freio, foi reduzido", indicou.

Uma vez que o estudo recrutou apenas garotos, não é possível afirmar o que ocorre com meninas excessivamente expostas a imagens de violência. A pesquisa foi publicada na versão online da revista britânica Social Cognitive and Affective Neuroscience.

Fonte: Terra Notícias, 19/10/2010


Atualidade


Cerimônia celebra sucesso do resgate de mineiros no Chile


Um padre católico e um pastor evangélico conduziram o evento.

Uma multidão de jornalistas e curiosos voltou hoje à Mina São José, no Chile, onde os 33 mineiros ficaram soterrados por mais de dois meses. Uma cerimônia religiosa foi organizada no local para lembrar o sucesso da operação de resgate e o fim do confinamento do grupo. Um padre católico e um pastor evangélico conduziram a cerimônia. Alguns dos mineiros também compareceram.

A cerimônia foi organizada dentro de uma tenda e não foi aberta à imprensa. O mineiro Juan Aguilar e o boliviano Carlos Mamani foram os primeiros a chegar. Cada um que entrou cercado pelos repórteres. Tratados como celebridades, os 33 mineiros têm pela frente o desafio de retomar a vida. O grupo vai ter que aprender a lidar com o assédio da imprensa – e do mundo dos negócios. A audiência da transmissão do resgate pela televisão foi uma das maiores da história – estimada em um bilhão de pessoas.

Um grupo de 50 trabalhadores da empresa que opera a mina aproveitou a visibilidade na mídia para protestar. Eles dizem que não recebem salário desde o acidente, há mais de dois meses.

Fonte: G1, Globo Notícias, 17/10/2010


"Sou mais humano e amoroso agora", diz mineiro "corredor"


O mineiro chileno Edison Pena corria cerca de 8 km por dia na mina úmida, sob calor de cerca de 40 ºC. Foto: BBC Brasil

O mineiro chileno Edison Pena disse ter emergido dos escombros da mina San José "mais humano" e "mais amoroso" do que o homem que desceu por um túnel nas encostas de uma montanha para um turno de rotina.
Em depoimento à BBC após o dramático resgate da semana passada, o mineiro de 34 anos falou com franqueza da terrível realidade vivida pelo grupo de 33 mineiros, que passou 69 dias enterrado, sob condições extremas, 700 metros abaixo da superfície.

Conhecido como "o corredor", Pena - talvez um dos mais traumatizados do grupo - deu continuidade, pessoalmente, a uma série de entrevistas à BBC que se iniciaram por meio de cartas, quando ele ainda estava soterrado.

"Por que não estou morto? Porque não é justo morrer. Por que eu deveria morrer? Por que eu deveria morrer?", perguntou o mineiro.

"Você tem alguma idéia de como é viver naquela escuridão? Você sabe? Eu não queria ficar lá. Por que tenho de ficar preso aqui? Não quero ficar preso aqui. Quero viver. Quero sair daqui", disse, relembrando os pensamentos que passaram por sua mente inúmeras vezes enquanto ficou confinado.

As primeiras entrevistas à BBC, por carta, foram vitais para o mineiro durante os dias de escuridão. Nelas, ele compartilhou com a equipe de jornalistas os detalhes da vida no subterrâneo enquanto equipes de resgate trabalhavam nervosamente para libertar os homens.

Em suas notas, transportadas pela mesma perfuração estreita por onde se enviavam suprimentos, ele contou que odiava a montanha e queria destruí-la, que corria e testava seu corpo fisicamente para tentar vencer, mentalmente, a parede de rocha que o confinava como uma tumba.

A equipe da BBC, por sua vez, respondia tentando encorajá-lo da melhor forma possível. "Destrua essa montanha. Odeie a montanha. Derrube-a com sua fúria", dizia a resposta ao mineiro.

Fome

Durante a entrevista, fica claro que o sentimento de amargura de Pena ante tudo o que sofreu é palpável e beira o delírio. Edison Pena puxava paletas de madeira como exercício.

A fome intensa que sentiu durante os primeiros dias de aprisionamento - as costelas ainda visíveis na altura do peito - parece ser o que mais o assombra hoje.

"Acho que, de hoje em diante, nenhum alimento será desperdiçado na minha casa. Quero dar uma grande mensagem em relação à fome no mundo. Eu nunca pensei em dar uma entrevista, mas agora acho que Deus estava nos protegendo, ele estava me protegendo, e com humildade eu não gostaria de deixar um grão de arroz ser desperdiçado em casa, por que isso é o que senti, aquela fome, e passar por aquilo novamente é demais para mim".

"É muito duro voltar da morte, é muito duro. Agora eu só quero viver, eu quero viver".

Os mineiros terão de se submeter a exames médicos regulares durante os próximos seis meses. O objetivo desses exames é ajudá-los a recuperar sua saúde e guiá-los durante um difícil período psicológico.

Os médicos se preocupam particularmente com doenças associadas ao estresse. A cultura associada ao setor de mineração, onde trabalhadores são tidos como "durões", poderá ajudar alguns dos mineiros chilenos a superar seu trauma.

Psicólogos alertam, no entanto, para a possibilidade de que, justamente por terem a reputação de durões, eles deixem de pedir ajuda se precisarem de apoio emocional.

Segundo os psicólogos, é possível que alguns dos homens vivenciem ansiedade, flashbacks (quando lembranças de traumas vividos no passado voltam a assombrar a pessoa no presente) e outros sintomas do transtorno de estresse pós-traumático.

"Fique Vivo"

Falando com franqueza sobre os tormentos vividos, Pena disse que o apoio oferecido a ele pela parceira Angélica e pelas cartas trocadas com as pessoas do lado de fora o ajudaram a suportar o sofrimento.

As palavras escritas - ele disse - lhe deram conforto na escuridão. "Fique vivo", ele dizia a si mesmo. Em uma série de fotografias tiradas com uma câmera enviada a Pena pela BBC, o mineiro revelou um pouco da vida que viveu na escuridão.

Diferentemente dos outros homens soterrados, que se voltaram para Deus em busca de apoio, Pena procurou salvação nos exercícios físicos. As fotos mostram o que fez para vencer seus demônios.

Pena corria cerca de oito quilômetros por dia na mina úmida, sob temperaturas em torno de 40 ºC. E para melhorar seus níveis de estamina (um estimulante natural do organismo) ele passou a arrastar uma caixa de madeira quando corria.

"Essas fotos são testemunhos, quero que todos entendam isso. Não quero me mostrar, não quero ficar famoso correndo. Acho que correr na superfície de novo, e ver a praia, acho que nada se compara a isso".

A reputação de Pena, como corredor, e seu amor por Elvis Presley, resultaram em convites para que ele participe da maratona de Nova York em novembro e visite a mansão de Presley no Tennessee.

Apesar de tudo o que passou, o mineiro diz que vê um futuro melhor para si mesmo e sua família. "Agora existe luz, antes não havia nenhuma. Lá, eu tinha de andar com uma lanterna. Agora, estou feliz em estar de volta ao meu país, e com esta luz. Eu achava que não ia voltar, mas voltei e estou muito feliz". "Sou mais humano agora. Amo mais as pessoas, acredito em tocar as pessoas. Eu me amo muito mais".

Dan McDougall Da BBC Brasil

Fonte: Terra Notícias, 19 de outubro de 2010.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Personalidade Gandhi


*Por Christine Jordis


No começo do século XX, o imperialismo britânico prossegue em sua maior vitalidade. A Índia, segundo Nehru – um líder nacionalista, é verdade -, está enterrada num “lamaçal de pobreza e derrotismo que a arrasta para o fundo”; durante gerações ela ofereceu “seu sangue, seu labor, suas lágrimas, seu suor”, e esse processo consumiu seu corpo e sua alma, envenenou todos os aspectos de sua vida coletiva, como uma doença fatal que rói os tecidos e mata em fogo lento.
Veio Gandhi.

“Foi como uma poderosa lufada de ar fresco a nos dilatar... um feixe de luz que perfurava a obscuridade; como um turbilhão que agitou muitas coisas, sobretudo o modo de funcionar de nosso espírito. Ele não vinha do alto; parecia surgir das multidões da Índia, falava a linguagem delas e chamou constantemente a atenção para elas, para sua terrível condição. (J. Nehru, La Découverte de l’Inde, Philippe Picquier, 2002)

A aparência dessa figura que ia mudar o destino de um país era totalmente insignificante. “Um homenzinho de físico miserável”, mas com a força do aço ou da rocha. “A despeito de seus traços humildes, de sua tanga e de sua nudez, havia nele algo de um rei que impunha a obediência... Seus olhos calmos e graves nos mantinham sob seu olhar, nos sondavam até o mais profundo da alma; sua voz, clara e límpida, penetrava, insinuava-se até o coração e remexia as entranhas... O charme e o magnetismo passavam...”. Com ele, cada um tinha o “sentimento de comunhão”. De onde vinha esse “feitiço”? Não da razão, certamente, embora o apelo à razão não fosse ignorado; tampouco da arte oratória nem do hipnotismo das frases: elas eram simples e econômicas, sem uma palavra supérflua. “Era a absoluta sinceridade do homem e de sua personalidade que nos dominava; ele dava a impressão de possuir imensas reservas de força interior”.

Ainda em vida, porém, Gandhi chegou a ser muito criticado. Alguns rechaçavam a idéia de chefe, de santo ou de herói, preferindo ver nele um homem comum que obedecia a motivações comuns (interesse pessoal, defesa de seu poder, vaidade: “a consciência de si enquanto velho humilde e nu, sentado sobre seu tapete de oração e fazendo tremer os impérios pela simples força de seu poder espiritual”) –em suma, sob a grande figura, um personagem calculista, manipulador, apaixonado por seu prestígio e finalmente vencido (era como o viam, na época, muitos britânicos, seus inimigos). Outros achavam irritantes ou mesmo inaceitáveis sua abordagem emocional de problemas econômicos ou sociais e sua insistência numa religião (na verdade uma ética) que não admitia misturar seus princípios e sua linguagem aos da política- disciplina que exige a razão, enquanto Gandhi agia pela “magia” e buscava captar a imaginação do povo para melhor dirigi-lo. Colocava-se o problema da ligação entre espiritualidade e política. Uma relação que causava dores, incompreensão, abalos: “Para que tentar mudar a ordem existente?”, escrevia Nehru, que foi seu discípulo e amigo. “Não, bastava mudar o coração dos homens ! É a chamada atitude religiosa, em toda a sua pureza, frente à vida e a seus problemas. Uma atitude que nada tem a ver com a política, a economia ou a sociologia. No entanto Deus sabe quanto, no domínio político, Gandhi podia ir longe!” . Se ele tinha realmente objetivos tão elevados, por que, diziam seus críticos, comprometê-los entrando na vida política que, por natureza, como todos sabem, situa-se longe da busca da verdade? Enfim, não se podia compreender essa mistura paradoxal de “santo católico medieval” e de “chefe político com espírito prático”.

No mínimo o homem era suspeito; sob a figura do asceta, não se podia duvidar que se escondia um indivíduo astuto, competente, hábil nos rodeios – capaz de encontrar um acordo entre os extremos, entre as classes e os partidos, capaz de rigidez na teoria, mas também de flexibilidade nas aplicações, suscetível de mudar de opinião de forma radical, sem pensar na coerência com suas afirmações anteriores; em suma, um homem “extremamente complexo, uma mistura de grandeza e de pequenez, uma grande personalidade política, excessivamente política, e que punha essa marcha em suas concepções morais e religiosas”, era como o via “o Poeta”, isto é, Rabindranath Tagore, em 1926, antes de aliar-se totalmente a Gandhi; e Tagore insistirá nos compromissos aceitos, nessa “espécie de má-fé secreta que o faz provar por raciocínios sofisticados que o partido que ele aceita é o da virtude e da lei divina, mesmo que seja o contrário e que ele não possa ignorar isso”. Assim, um político e não um santo, e tanto mais astuto, tanto mais indecifrável quanto não cessa de confessar publicamente suas dúvidas, suas hesitações, seus erros e reorientações, trabalhando na maior “transparência”, diríamos hoje. A moralidade, o amor, o vocabulário religioso seriam então uma pose, um abuso de belas palavras e sentimentos destinados a arrastar as multidões e impressionar o inimigo?

Questões que não arranhavam a confiança da Índia em sua sinceridade. A despeito de seu vocabulário, “de uma obscuridade quase total para o homem médio de nosso tempo”, dizia Nehru, a despeito de suas meias-voltas desconcertantes, os amigos tinham-no por “um grande homem, um homem único, a quem não se podia aplicar nem as escalas de valores correntes nem os padrões de lógica habitual”. Tendo depositado nele a sua fé, os amigos o acompanhavam. Nenhum deles, ao contrário dos que falavam “uma linguagem diferente” – espíritos inimigos de seu pensamento ou, mais simplesmente, mal equipados para compreendê-lo – nunca lhe supôs mentira ou impostura: “Para milhões de indianos, ele é a encarnação da verdade, e todos os que o conhecem sabem a seriedade apaixonada com que busca agir de forma justa”. Aplicar a essa personalidade extraordinária os raciocínios banais, as frases deformadas, as teorias prontas que se utilizam para o político médio é ficar na crítica superficial, sublinha Nehru, e ele próprio busca em vários momentos definir Gandhi, passando da afeição à cólera, da surpresa à admiração, corrigindo constantemente um retrato que seu modelo não cessa de modificar.


Extraído do prefácio da biografia de Gandhi, de Christine Jordis


*Escritora, crítica e editora, Christine Jordis se ocupa do romance inglês nas Éditions Gallimard e colabora no jornal Le Monde. Seu primeiro ensaio, De petits enfers varies, recebeu o prêmio Médicis em 1999, e Une passion excentrique, seu último livro, o prêmio Valéry Larbaud em 2005. Muito interessada pela Ásia, para onde frequentemente viajou, também publicou Bali, Java, em rêvant e Promenades em terre boudhiste, Birmanie.

Imagem: foto de Christine Jordis

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Marcha do Sal


A Marcha do Sal ou Satyagraha do sal foi um ato de protesto pacífico contra a proibição, imposta pelos britânicos, da extração de sal na Índia colonial. Mahatma Gandhi caminhou de Sabarmati Ashram a Dandi, para pegar um pouco de sal para si. Um número muito grande de indianos o seguiu, mas os britânicos nada puderam fazer contra ele, pois não havia incitado os outros a seguirem-no. A marcha ocorreu de 12 de março até 6 de abril de 1930.

Na noite de 11 de março, Gandhi reuniu seus discípulos para uma última prece. No dia 12 de março de 1930, Mahatma Gandhi e vários discípulos iniciaram uma marcha em protesto ao domínio britânico na Índia. A caminhada, de quase 400 quilômetros, durou 25 dias em direção ao litoral. Gandhi e seus seguidores paravam de cidade em cidade para descansar, conseguindo assim mais simpatizantes. O protesto foi incitado pelo fato de que, naquela época, os indianos eram obrigados a comprar produtos industrializados do Reino Unido, sendo proibidos inclusive de extrair sal em seu próprio país.

Durante toda a noite de 5 de abril, os discípulos rezaram. Ao amanhecer acompanharam Gandhi ao mar. No dia 6 de abril, depois do banho, ritual sagrado para os hindus, Gandhi apanhou um punhado de sal à beira-mar, e seu gesto foi repetido simbolicamente pelos milhares de indianos ali presentes. A lei que, entre outras interdições, proibia os indianos de tocar nos depósitos naturais nas praias era assim infringida: o monopólio sobre o sal, rompido. A esse sinal, milhares de indianos, um pouco em toda parte no país, contanto estivessem nas proximidades do oceano, jovens, mulheres, pessoas de todas as origens sociais, efetuaram o mesmo gesto. O sal foi trazido para o interior do país, preparado em caçarolas nos terraços das casas, vendido aqui e ali por ambulantes. E boicotavam-se cada vez mais as mercadorias inglesas. A Índia inteira havia se levantado.

“Em toda parte no país, nas cidades e nas aldeias, a produção de sal era o assunto do dia; achávamos os meios mais estranhos de fabricá-lo. Como nada sabíamos da questão, informava-nos da melhor maneira possível, imprimíamos folhetos com receitas e reuníamos todo tipo de recipientes; no final, conseguimos obter um produto muito pouco saboroso que exibíamos triunfalmente e era vendido às vezes em leilão a preços assombrosos...”

Em resposta e esses atos, os britânicos prenderam mais de 50 mil indianos, entre eles o próprio Gandhi. Mesmo com a prisão de Gandhi, a marcha continuou, em direção às salinas ao norte de Bombaim. Aproximaram-se em silêncio dos depósitos de sal, guardados por 400 militares, que investiram contra eles com cassetetes. Os protestantes foram tombando, sem esboçar gestos de defesa. Cada coluna que avançava era igualmente abatida.

As mesmas cenas repetiram-se por vários dias. As mulheres participavam ativamente do movimento. À medida que os homens eram detidos e levados à prisão, elas tomavam seu lugar. Logo foram tão duramente reprimidas quanto os homens, espancadas até sangrarem, atacadas a pontapés ou a coronhadas no ventre ou no peito. “Nenhuma se mexeu, todas ficaram sem fraquejar nos seus postos.” “Nesse combate, as mulheres indianas haviam se tornado as iguais dos homens... Gandhi ao convocar as mulheres, dissera: “elas são os melhores símbolos da humanidade. Todas têm as virtudes de um satyagrahi”, o que nos enchera de uma imensa confiança em nós.” O amor incondicional, liberto do egoísmo, e a capacidade de sofrer: as qualidades exigidas de um satyagrahi. Segundo Gandhi, essas qualidades definiam a mulher. Visão idealizada e ligada à sua concepção da mãe e que talvez o sustentou em seu discurso a favor da igualdade e da liberdade das mulheres.

O que haviam demonstrado, esse satyagrahi? Não que o sal pertencia a todos, isso não era o essencial. Mas que a “civilização” não estava do lado onde suponha estar. O que estava ali era a barbárie. E que a “verdadeira civilização”, para retomar as palavras de Gandhi, residia noutra parte que não na força das armas.

Tagore declarou:
O satyagraha do sal oferecera ao mundo a demonstração perfeita de que havia uma nova arma de militância pacífica. “Para a Europa”, continuava Tagore, “é uma grave derrota moral.” A Ásia, materialmente fraca, incapaz de se proteger contra agressões exteriores, podia agora permitir-se “olhar a Europa do alto, quando outrora a olhava de baixo”. Em outras palavras, a relação de forças se invertera, a superioridade moral – a do espírito – prevalecia sobra a superioridade física – a da força bruta.




Fontes: Wikipédia e Biografia de Gandhi, de Christine Jordis.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Gotas de Luz

Lei de Igualdade


Igualdade de direitos do homem e da mulher


Perante Deus e a lei natural o homem e a mulher têm direitos iguais, pois a ambos foi concedida a inteligência e a consciência de escolha do bem e do mal e também a faculdade de progredir.

A inferioridade com que a mulher é tratada provém de preconceitos milenares de que o homem, sendo muscularmente mais forte, tem o direito de oprimir e dominar a sua fragilidade. Deus, porém, forneceu a força para amparar e proteger e não para escravizar e esmagar. O homem e a mulher, por terem funções específicas, só podem suportar as provas e vencer juntos se mutuamente se ajudarem.

Perante a natureza, a importância da mulher é maior, porque ela cumpre o papel de fornecer aos descendentes as primeiras noções da vida. Tem muita razão todos os ramos da psicologia moderna que atribuem à mãe papel preponderante na psicologia do filho, determinando traços de personalidade que o acompanharão sempre, pelo resto da sua existência, podendo ou não ser manejados convenientemente pelo seu possuidor.

Uma legislação, para ser perfeitamente justa, deve consagrar os direitos igualitários do homem e da mulher, respeitando a diversidade de funções, para evitar uma confusão e sobreposição dos papéis que cabem a cada um e que geraria uma situação competitiva.

"Todo o privilégio a um ou a outro concedido é contrário à justiça. A emancipação da mulher acompanha o progresso da civilização. A sua escravização marcha a par da barbárie. Os sexos, além disso, só existem na organização física. Visto que os espíritos podem encarnar num e noutro, sob esse aspecto nenhuma diferença há entre eles. Devem, por conseguinte, gozar dos mesmos direitos".


ADEP- Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal

Fonte: Portal do Espírito



Leis Divinas e Naturais : Lei de Igualdade, continua no próximo Gotas de Luz.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Gandhi e o alvorecer do Satyagraha


Durante a viagem de Durban a Pretória* (onde devia advogar), sofreu um ultraje que orientaria o curso de sua vida. Ele viajava, naturalmente, na primeira classe. Na estação de Pietermaritzburg, capital do Natal, um viajante branco entrou às nove da noite no compartimento onde Gandhi estava e se indispôs por lá encontrar um “homem de cor”. Alguns minutos mais tarde, Gandhi recebeu ordens de deixar o compartimento (“Acompanhe-me, seu lugar é em outro vagão), o que ele recusou com firmeza, como de hábito. E a lei o colocou, sem mais cerimônia, na plataforma da estação. Pietermaritzburg situava-se numa altitude elevada, era inverno, fazia muito frio na escura sala de espera. Gandhi estava sem seu sobretudo, deixado com as valises na sala do chefe da estação. Tritou de frio a noite toda.

Durante essa noite de espera, de frio, de humilhação, quando se viu atingido em seu corpo, colocado sobre a linha estreita que separa a resignação do engajamento, ele tomou uma decisão: “O tratamento injusto que me infligiam era apenas superficial: puro sintoma do mal-estar profundo que o preconceito social alimentava. Era preciso tentar, se possível, extirpar o mal, mesmo nos expondo a sofrer injustiças durante o caminho”.

Ele evitava assim o ressentimento pessoal ao analisar a causa de um mal que ultrapassava em muito sua pessoa. Para além da ofensa e do ofensor, percebia o doutrinamento de que este último era o objeto. E transformava suas próprias reações imediatas em vontade de ação: daí em diante combateria esse mal atacando não os sintomas (dos quais essa afronta fazia parte), mas as origens. É provável que, nessa noite em Pietermaritzburg, Gandhi tenha sentido nascer a vocação de reformador.

Se até então ele se fizera notar mais por sua timidez e sua atitude reservada, escreve Nanda, seu biografo,

...na sala de espera desolada da estação de Pietermaritzburg, enquanto o insulto ainda ardia, uma força de aço penetrou sua alma. Retrospectivamente, o incidente lhe pareceu uma das experiências mais criativas de sua vida. A partir de então, recusou aceitar a injustiça como fazendo parte da ordem das coisas... ele nunca seria uma vítima anuente da arrogância racial. Dali em diante, o sentimento de inferioridade que o perseguira como estudante na Inglaterra e depois como jovem advogado na Índia apagou-se.

Logo a seguir as coisas foram de mal a pior e a decisão de Gandhi foi submetida a uma dura prova. Pela primeira vez em sua vida de adulto, ele foi espancado. De Charlestown a Johannesburg – um trajeto que o trem não fazia – era preciso tomar a diligência. “Os viajantes deviam tomar seu lugar no interior do veículo; mas, como eu era visto como um “coolie”... o “chefe” julgou que não convinha me colocar com os passageiros europeus.” O jovem Gandhi permaneceu assim no exterior. Na primeira parada, o “chefe”, tomando o lugar que ele ocupara, indicou-lhe um velho pano imundo colocado sobre o estribo e disse a Gandhi que ficasse ali: “Senta aí, sami; quero ficar ao lado do cocheiro”. O momento seguinte: um agravamento do insulto. Pois Gandhi, obviamente fiel à sua idéia de dignidade, devia recusar. Pronunciou mesmo um discurso reivindicando seu direito de sentar-se no interior. “Enquanto eu fazia bem ou mal esse discurso, ele saltou sobre mim e me aplicou várias bofetadas com todas as suas forças... Eu me agarrava à balaustrada... decidido a não ceder... Os viajantes assistiam ao espetáculo: o homem me ofendendo, me empurrando e me batendo, e eu não reagindo...”

Convém precisar que o homem era vigoroso, que Gandhi era franzino e que os viajantes, compadecidos, acabaram por se comover: uma cena anunciadora de muitas outras, mais graves e dolorosas ainda, pois a morte estava sempre no horizonte durante os satyagraha* organizados por Gandhi. “Era uma cena clássica; a coragem tranqüila e a dignidade humana diante da arrogância racista e da força brutal”.


Christine Jordis


*Durban e Pretória (África do Sul)
*Satyagraha: literalmente, “firmeza na verdade”. Nome dado por Gandhi à resistência não-violenta.

Trecho da Biografia de Gandhi, de Christine Jordis (A África do Sul 1893-1914).

domingo, 17 de outubro de 2010

Mensagem da Semana


Ouvir a Mensagem


Isso se chama Amor...


Você surgiu como suave melodia trazida pela brisa; dilatou-se no silêncio de minha alma e fez-se moldura em meu viver.

Isso se chama ventura.

Há algo em você que transparece num olhar, como estrela no céu atapetado de astros e exterioriza-se num sorriso como canção tocada na harpa dos ventos.

Isso se chama ternura...

Sem olhar, você me percebe; sem falar, você me diz; sem me tocar, você me abraça...

Isso se chama sensibilidade.

Quando me perco em labirintos escuros, você me mostra o caminho de volta...

Quando exponho meus tantos defeitos, você faz de conta que não nota...

Se enlouqueço, você me devolve a razão...

Isso se chama compaixão.

Nos dias em que as horas passam lentas, sem graça e sem luz, nos seus braços eu encontro alento.

Quando os dias alegres de verão partem e em seu lugar chega o outono, cobrindo o chão com folhas secas, e o verde exuberante cede lugar ao cinza, nos seus braços encontro harmonia.

Isso se chama aconchego.

Quando você está longe, no espelho da saudade eu vejo refletida a certeza do reencontro.

Nas noites sem estrelas, quando a escuridão envolve tudo em seu manto negro, você me aponta a carruagem da madrugada, que vem despertar o dia com suas carícias de luz...

Isso se chama esperança.

Quando as marés dos problemas parecem tragar em suas ondas as minhas forças, em seus braços encontro reconforto.

Se as amarguras pairam sobre meus dias, trazendo desgosto e dor, sua presença me traz tranquilidade.

Você é um raio de sol, nos dias escuros...

É ave graciosa que enfeita a amplidão azul...

Você é alma e é coração.

É poema e é canção...

É ternura e dedicação...

Nada impõe, tudo compreende, tudo perdoa...

Sua companhia é doce melodia, é convite a viver...

... E tudo isso se chama amor!

Surge depois que as nuvens ilusórias da paixão se desvanecem.

Que a alma se mostra nua, sem enfeites, sem fantasias, sem máscaras...

Enfim, o amor é esse sentimento que brota todos os dias, como a flor que explode de um botão, ao mais sutil beijo do sol...

Isso, sim, se chama amor...


Redação do Momento Espírita.

sábado, 16 de outubro de 2010

Pensamentos Nobres

Toda a sapiência e ensinamentos de Gandhi em uma seleção de frases de sua autoria:


“O amor é a força mais abstrata e também a mais potente que há no mundo.”

“A não-violência á a mais alta qualidade de oração. A riqueza não pode consegui-la, a cólera foge dela, o orgulho devora-a, a gula e a luxúria ofuscam-na, a mentira esvazia-a, toda pressão não justificada a compromete.”

“O ahimsa (amor) não é somente um estado negativo que consiste em não fazer o mal, mas também um estado positivo que consiste em amar, em fazer o bem a todos, inclusive a quem faz o mal.”

“As enfermidades são os resultados não só dos atos como também dos nossos pensamentos.”

“A não-violência é a lei de nossa espécie como a violência é a lei do bruto. O espírito dorme no bruto e não conhece outra lei senão a do poder físico. A dignidade do homem requer obediência a uma lei mais elevada : a força do espírito.”

“Aprendi, graças a uma amarga experiência a única suprema lição: controlar a ira. E do mesmo modo que o calor conservado se transforma em energia, assim a nossa ira controlada pode transformar-se em uma função capaz de mover o mundo. Não é que eu não me ire ou perca o controle. O que eu não dou é campo à ira. Cultivo a paciência e a mansidão e, de uma maneira geral, consigo. Mas quando a ira me assalta, limito-me a controlá-la. Como consigo? É um hábito que cada um deve adquirir e cultivar com a prática assídua.”

“A minha vida é um todo indivisível, e todos os meus atos convergem uns nos outros; e todos eles nascem do insaciável amor que tenho para com toda humanidade.”

“Uma coisa lançou profundas raízes em mim: a convicção de que a moral é o fundamento das coisas, e a verdade, a substancia de qualquer moral. A verdade tornou-se meu único objetivo. Ganhou importância a cada dia. E também a minha definição dela se foi constantemente ampliando.”

“O silêncio já se tornou para mim uma necessidade física espiritual. Inicialmente escolhi-o para aliviar-me da depressão. A seguir precisei de tempo para escrever. Após havê-lo praticado por certo tempo descobri, todavia, seu valor espiritual. E de repente dei conta de que eram esses momentos em que melhor podia comunicar-me com Deus. Agora sinto-me como se tivesse sido feito para o silêncio.”

“Minha missão não se esgota na fraternidade entre os indianos. A minha missão não está simplesmente na liberdade da Índia, embora ela absorva, em prática, toda a minha vida e todo o meu tempo. Por meio da libertação da Índia espero atuar e desenvolver a missão da fraternidade dos homens. O meu patriotismo não é exclusivo. Engloba tudo. Eu repudiaria o patriotismo que procurasse apoio na miséria ou na exploração de outras nações. O patriotismo que eu concebo não vale nada se não se conciliar sempre, sem exceções, com o maior bem e a paz de toda a humanidade.”

“Orar não é pedir. Orar é a respiração da alma.”

“Os louvores do mundo não me agradam; pelo contrário, muitas vezes me entristecem.”

“Se eu tivesse certeza de encontrar Deus numa caverna do Himalaia, iria para lá na mesma hora. Mas sei que Ele não está em parte alguma a não ser no coração da humanidade.”

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Extra - (atualidade): Resgate no Chile



A Inestimável Beleza do Renascer


12 de outubro de 2010, Deserto do Atacama, Mina San José, norte do Chile. Estimativas apontam que cerca de mais de 1 bilhão de pessoas no mundo acompanhavam a transmissão ao vivo pela TV do resgate dos 33 mineiros soterrados por 69 dias naquela localidade a uma profundidade de 700 metros da superfície da terra. Foi uma cobertura impecável por parte da imprensa, digna de uma dessas produções cinematográficas e toda a operação durou pouco menos de 24 horas. Assisti muito comovido e emocionado a grande parte dessa transmissão e pude testemunhar o drama daquelas pessoas, homens, mulheres e crianças que aguardavam ansiosos, cheios de renovadas esperanças pelo retorno dos seus entes queridos e vibrei a cada vez que a “nave Fênix II” trazia de volta a felicidade àquelas famílias.

Junto ao sofrimento de toda aquela gente, mineiros enclausurados sob a terra, desprovidos da luz solar, enfrentando as condições hostis da temperatura, a pouca oxigenação e a fome, devido a pouca quantidade de alimentação que podia chegar até eles e das famílias aflitas que não sabiam qual seria o desfecho daquela inesperada situação, estava também mais uma vez o mundo se solidarizando numa demonstração de fé e amor ao próximo.

Impossível, para os que têm a sensibilidade, deixar de perceber as energias positivas oriundas das correntes vibracionais das orações que foram dirigidas por pessoas das mais variadas religiões existentes no planeta que circulavam e envolviam a todos que ali estavam trabalhando ou auxiliando no resgate. Usando um pouco mais dessa sensibilidade se fez possível também, com toda certeza, testemunhar naquele momento a presença de equipes de amigos espirituais, verdadeiros trabalhadores da seara do bem, acompanhando passo a passo o desenrolar daquela magnífica tarefa socorrista humanitária.

Ao final “a festa”. O sucesso da operação foi total !! Todos comemoraram a vitória da vida. O mundo inteiro comemorou. Mas, como nós sabemos que nada acontece por um mero acaso, convém que façamos as nossas reflexões, por isso mesmo, fiz questão de deixar registrado aqui as minhas impressões e observações sobre o acontecimento.

Que lições esses homens levaram para as suas vidas dessa sofrida experiência ?

Com a compreensão da Doutrina Espírita, é inquestionável que estávamos ali diante de um grande reajuste coletivo da Providencia Divina, através da lei natural de causa e efeito. Chego até mesmo a afirmar, com a mais absoluta certeza que a maioria deles retornou do ocorrido muito mais espiritualizados. Mas, de uma forma metafórica e de um modo bem pessoal, cheguei a uma visão do fato de algo assim como a morte e o renascimento. Era para mim como se eu testemunhasse a beleza inestimável de um parto coletivo em que homens eram retirados daqueles vales sombrios e renasciam renovados das entranhas da terra, cada um trazendo consigo os seus compromissos para uma vida nova.

Algumas imagens do resgate:










Carlos Pereira

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Richard Attenborough – Um Filme e uma Coletânea

Em 1962, Mortilal Kothari, um funcionário público indiano lotado em Londres, sugeriu que eu (Richard Attenborough) fizesse um filme sobre a vida do Mahatma. O que eu sabia a respeito de Gandhi e de seu papel como líder da luta do povo indiano pela independência era apenas o pouco que aprendera na escola. Então resolvi ler uma biografia e alguns de seus escritos.

Aos 23 anos, em 1893, logo depois de ter chegado à África do Sul como advogado de uma empresa exportadora indiana, Gandhi escreveu uma frase que me deixou impressionado: “Sempre foi um mistério para mim como os homens podem sentir prazer em humilhar seus semelhantes.” Ele acabara de ver indianos serem forçados a caminhar na sarjeta para que os brancos pudessem passar sem problemas pela calçada.

Suas palavras me abalaram de tal forma que, naquele momento, me comprometi a tentar fazer um filme sobre Mahatma Gandhi – um compromisso que mudaria os próximos 20 anos da minha vida. A partir de então, todas as decisões que tomei na minha carreira estiveram relacionadas ao meu caso de amor com esse projeto.

O filme Gandhi teve sua estréia mundial em Nova Délhi, em 30 de novembro de 1982.

Mohandas K. Gandhi nasceu em 1869, filho de hindus, no estado de Guzerate, no oeste da Índia. Aos 13 anos, uniu-se a Kasturba Makanji, de mesma idade, num casamento arranjado. Mais tarde, a família o enviou a Londres para estudar Direito e, em 1891, ele se tornou advogado. Na África do Sul, Gandhi foi incansável na luta pelos direitos dos imigrantes indianos. Foi lá que desenvolveu sua doutrina de resistência pacífica contra a injustiça – a satyagraha, ou “o caminho da verdade” – e que muitas vezes esteve preso por causa dos protestos que liderou. Quando retornou a seu país com a família em 1915, já havia mudado radicalmente a vida daqueles imigrantes.

Na Índia, logo passou a liderar a longa batalha com a Grã-Bretanha pela independência. Ele jamais teve abalada sua crença nos protestos não-violentos e na tolerância religiosa. Quando seus compatriotas muçulmanos ou hindus cometiam atos de violência – entre si ou contra os ingleses que governavam a Índia –, Gandhi jejuava até o conflito cessar. A independência, que chegou em 1947, não foi uma vitória militar, mas um triunfo da vontade humana. No entanto, para desespero de Gandhi, o país foi dividido em Índia hindu e Paquistão muçulmano. Ele passou seus últimos meses empenhado em extinguir a terrível violência que se seguiu. Para isso, jejuou até quase a morte, um ato que, finalmente, pôs fim aos conflitos. Em janeiro de 1948, aos 79 anos, Gandhi foi assassinado a tiros por um hindu no momento em que passava por um jardim apinhado de gente, em Nova Délhi, para fazer as preces vespertinas.

Muito já se falou sobre Gandhi, mas as palavras de Albert Einstein parecem traduzir bem a grandeza de sua personalidade: “Será difícil às gerações futuras acreditar que uma pessoa como essa, em carne e osso, andou sobre a Terra.”

Que esta coletânea possa oferecer a você uma boa introdução às idéias e à filosofia do Mahatma. As palavras de Gandhi presentes neste livro foram selecionadas de escritos publicados no período de quatro décadas e representam apenas uma pequena parte de seu volumoso trabalho.











Ao falar sobre o valor das próprias palavras, Gandhi destacava a relevância da ação:

“Nada tenho de novo a ensinar ao mundo. A verdade e a não-violência são tão antigas quanto as montanhas. Tudo o que tenho feito é realizar experiências em relação a uma e à outra, da forma mais abrangente possível. Ao fazê-lo, às vezes cometi erros – e aprendi com eles. A vida e seus problemas tornaram-se para mim experimentos na prática da verdade e da não-violência…”

“Toda a minha filosofia, se é que se pode chamá-la por esse nome pretensioso, está contida no que eu disse. Mas não a chamem ‘gandhismo’; não se trata de ‘ismo’. E não é necessário que haja a respeito qualquer crítica literária ou propaganda. Trechos das Escrituras têm sido citados como argumentos contra minha posição, mas me mantive, mais do que nunca, fiel à posição de que a verdade não pode ser sacrificada pelo que quer que seja. Aqueles que acreditam nas verdades singelas que professei só poderão propagá-las se viverem de acordo com elas.”

“Não tenho a menor sombra de dúvida de que qualquer pessoa, homem ou mulher, pode alcançar o que eu alcancei. Basta fazer o mesmo esforço e cultivar a mesma esperança e a mesma fé.”


Trecho do livro A Sabedoria de Gandhi, de Richard Attenborough.

*Richard Attenborough foi vencedor do Oscar de Melhor Diretor em 1983 pelo magnífico filme Gandhi (vencedor de 8 Oscars, inclusive o de Melhor Filme).

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Música e o Espírito: Ragupathi Ragava

Raguphathi Ragava é um bhajan (canto devocional hindu) que foi entoado por Gandhi e seus seguidores durante a histórica marcha do sal, conhecida também como a “Marcha de Dandi”, espécie de protesto pacífico liderado pelo Mahatma em março de 1930 contra as “Leis do Sal”, leis que proibiam os hindus de fazerem o seu próprio sal. Esse foi o gênero musical favorito de Gandhi e está nessa animação feita em sua homenagem.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Responsabilidade Ambiental e a Paz na Transição Planetária


A Lembrança de Gandhi


*por André Trigueiro

Neste momento de grande perturbação espiritual que assola o mundo, a lembrança da personificação da não-agressão se faz necessária e terapêutica. É urgente que o movimento espírita absorva e contextualize, à luz da doutrina, os sucessivos relatórios científicos que denunciam a destruição sem precedentes dos recursos naturais não renováveis, no maior desastre ecológico de origem antrópica da história do planeta. Os atuais meios de produção e de consumo precipitaram a humanidade na direção de um impasse civilizatório, onde a maximização dos lucros tem justificado o uso insustentável dos mananciais de água doce, a desertificação do solo, o aquecimento global, a monumental produção de lixo, entre outros efeitos colaterais de um modelo de desenvolvimento “ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto”.

Na pergunta 705 do Livro dos Espíritos, no capítulo que versa sobre a Lei de Conservação, Allan Kardec indaga: “Por que nem sempre a terra produz bastante para fornecer ao homem o necessário?”, ao que a espiritualidade responde: “É que, ingrato, o homem a despreza! Ela, no entanto, é excelente mãe. Muitas vezes, também, ele acusa a Natureza do que só é resultado da sua imperícia ou da sua imprevidência. A terra produziria sempre o necessário, se com o necessário soubesse o homem contentar-se”.

É evidente que em uma sociedade de consumo, nenhum de nós se contenta apenas com o necessário. A publicidade se encarrega de despertar apetites vorazes de consumo do não necessário, daquilo que é supérfluo, descartável, inessencial, renovando a cada nova campanha a promessa de felicidade que advém da posse de mais um objeto, seja um novo modelo de celular, um carro ou uma roupa. Para nós, espíritas, é fundamental que o alerta contra o consumismo seja entendido como uma dupla proteção: ao meio ambiente que não suporta as crescentes demandas de matéria-prima e energia da sociedade de consumo, onde a natureza é vista como um grande e inesgotável supermercado - e ao nosso espírito imortal, já que, segundo a doutrina espírita, uma das características predominantes dos mundos inferiores da Criação é justamente a atração pela matéria.

Nesse sentido, não há distinção entre consumismo e materialismo, e nossa invigilância poderá custar caro ao projeto evolutivo que desejamos encetar. Essa questão é tão crucial para o Espiritismo que, na pergunta 799 do Livro dos Espíritos, quando Kardec pergunta “de que maneira pode o Espiritismo contribuir para o progresso?”, a resposta é taxativa: “Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade”.

Uma das mais prestigiadas organizações não-governamentais do mundo, o WorldWatch Institute, com sede em Washington (EUA), divulga anualmente o relatório “Estado do Mundo”, uma grande compilação de dados e estudos científicos que revelam os estragos causados pelo atual modelo de desenvolvimento. Na última versão do relatório, referente ao ano de 2004, afirma-se que “o consumismo desenfreado é a maior ameaça à humanidade”.

Os pesquisadores do WorldWatch denunciam que “altos níveis de obesidade e dívidas pessoais, menos tempo livre e meio ambiente danificado são sinais de que o consumo excessivo está diminuindo a qualidade de vida de muitas pessoas”.

Aos espíritas que mantêm uma atitude comodista diante do cenário descrito nessas breves linhas, escorados talvez na premissa determinista de que tudo se resolverá quando se completar a transição da Terra (de mundo de expiações e de provas para mundo de regeneração), é bom lembrar do que disse Santo Agostinho no capítulo III do “Evangelho Segundo o Espiritismo”. Ao descrever o mundo de regeneração, Santo Agostinho diz que, mesmo livre das paixões desordenadas, num clima de calma e repouso, a humanidade ainda estará sujeita “às vicissitudes de que não estão isentos senão os seres completamente desmaterializados. Há ainda provas a suportar (...) e que nesses mundos, o homem ainda é falível, e o Espírito do mal não perdeu, ali, completamente o seu império. Não avançar é recuar, e se não está firme no caminho do bem, pode voltar a cair nos mundos de expiação, onde o esperam novas e terríveis provas”. Ou seja, não há mágica no processo evolutivo: nós já somos os construtores do mundo de regeneração, e, se não corrigirmos o rumo na direção do desenvolvimento sustentável, prorrogaremos situações de desconforto já amplamente diagnosticadas.

Não é possível, portanto, esperar a chegada do mundo de regeneração de braços cruzados. Até porque, sem os devidos méritos evolutivos, boa parte de nós deverá retornar a esse mundo pelas portas da reencarnação. Se ainda quisermos encontrar aqui estoques razoáveis de água doce, ar puro, terra fértil, menos lixo e um clima estável sem os flagelos previstos pela queima crescente de petróleo, gás e carvão que agravam o efeito estufa - deveremos agir agora, sem perda de tempo. Depois que a ONU decretou que 2003 seria o Ano Internacional da Água Doce, os católicos não hesitaram em, pela primeira vez em 40 anos de Campanha da Fraternidade, eleger um tema ecológico: “Água: Fonte de Vida”. Mais de 10 mil paróquias em todo o Brasil foram estimuladas a refletir sobre o desperdício, a poluição e o aspecto sagrado desse recurso fundamental à vida. E nós, espíritas? O que fizemos, ou o que pretendemos fazer? O grande Mahatma Gandhi, que afirmou certa vez que toda bela mensagem do cristianismo poderia ser resumida no sermão da montanha, nos serve de exemplo, quando diz “sejamos nós a mudança que nós queremos ver no mundo”.



*André Trigueiro é jornalista, apresentador do programa Cidades e Soluções, da Globo News, e ambientalista.

Extraído do JB Ecológico, abril de 2008.

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