terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Destaque: "Jesus, Nicodemus e a Reencarnação"



“E havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.
Este foi ter de noite com Jesus, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.
Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.
Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?
Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.
O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.
Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.
O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
Nicodemos respondeu, e disse-lhe: Como pode ser isso?
Jesus respondeu, e disse-lhe: Tu és mestre de Israel, e não sabes isto?
Na verdade, na verdade te digo que nós dizemos o que sabemos, e testificamos o que vimos; e não aceitais o nosso testemunho.
Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?” (João 3;1-12)


Diálogo de Jesus com Nicodemus


João 3: 1 a 15 narra com pormenores, o diálogo que Jesus teve com Nicodemus, membro do Sinédrio e Mestre em Israel. O texto da oportunidade a várias interpretações. Mais uma vez recorremos a Torres Pastorino, Huberto Rodhen e Edouard Schuré. Embora os três tenham uma visão profunda e completa da missão de Jesus, colocam-se em posições diferentes. Vamos incluir também a interpretação espírita.
Comecemos pelo Espiritismo. Nós, os espíritas, vemos nesta passagem a confirmação da reencarnação. Na verdade podemos interpretar restritivamente assim, mas, é apenas uma face do transcendental diálogo. Ficam, porém, algumas dúvidas. Se Nicodemus era Mestre em Israel, deveria conhecer a reencarnação, pois, o historiador Josefo, escreveu que os fariseus ensinavam que as almas são imortais, e que as justas, passam depois desta vida a outros corpos.
Concordamos que o ponto de vista espírita satisfaz inteiramente o raciocínio, porém, há muito mais a ser explorado, e por isso não vamos parar aqui, mas ir adiante. Contudo, queremos desde já, registrar a absurda tese das igrejas cristãs, que afirmam que Jesus se referia ao Batismo instituído por João. Allan Kardec, em O Evangelho Segundo O Espiritismo, afirma que os antigos acreditavam que a água era o elemento gerador absoluto. "Que as águas produzam animais viventes, que nadem na água, e pássaros que voem sobre a terra e debaixo do firmamento". Deste modo, não quer dizer água do batismo. Todo o capítulo 4º de o E.vangelho Segundo o Espiritismo é voltado para a argumentação da necessidade da reencarnação.
Todos os comentários que lemos, inclusive Rohden e Schuré, concordam que a entrevista de Nicodemus com Jesus, se deu durante as horas avançadas da noite, Porque Nicodemus não queria que o encontro se tornasse público, temendo, possivelmente, o juízo do Sinédrio. Torres Pastorino refuta essa hipótese, mas, isto veremos mais à frente.
O encontro se dá entre dois personagens apenas: Nicodemus e Jesus. Não havia testemunhas. O Senador judeu teria sido covarde? Justamente ele, cujo nome grego, Nicodemus, significa o Vencedor do Povo? Como o jovem João poderia ter tomado conhecimento do fato? Simples! Segundo Torres Pastorino, a entrevista teria se dado no plano extrafísico, isto é, durante o sono, em desdobramento, por isso oculto dos demais homens, e testemunhado por João, também em desdobramento.
O jovem João, tinha grande amor e admiração pelo seu Mestre, por isso gravitava em torno dele, mesmo fora do corpo, e pôde testemunhar esse diálogo transcendental entre Jesus e Nicodemus.
Pastorino, na análise do diálogo coloca coisas muito interessantes. Por exemplo: O que é nascido da carne e o que é nascido do espírito, como dois acontecimentos diferentes. Na carne renascem os espíritos que estão sujeitos ao Carma, ou Lei de Causa e Efeito, individual, grupal, coletivo ou planetário. Precisam renascer da carne porque suas vibrações são densas. O que nasce do espírito se liberta, se eleva a planos superiores. Pastorino coloca um simbolismo interessante dizendo que Adão seria a alma vivente (que vive). Cristo, o espírito vivificante, (que dá a vida). Passou do estado humano ao espiritual. Deixou de ser nascido da carne para ser nascido do espírito.
Jesus cita no final do diálogo, a Moisés, que ergueu a serpente no deserto, e que ele também deveria ser suspenso. A serpente, segundo Pastorino, simboliza a inteligência, ou o intelecto. ( veja a tentação de Eva pela serpente). Quando a serpente é elevada verticalmente, significa, a mente espiritual. Jesus foi suspenso na cruz da matéria (horizontal sobre a vertical). Só depois de elevada na cruz, pode essa serpente conquistar o Reino dos Céus. Para viver o Reino de Deus, temos que nascer de novo como filhos de Deus.
Amílcar D.C. Filho, considera o simbolismo da cruz como um dos mais belos ensinamentos de Jesus. A cruz, composta de duas traves, tem na horizontal, os cuidados deste mundo, como, o que comer, o que vestir, onde morar, trabalho, escola, assistência médica, lazer, família e tudo o que compõem a vida material, que não é desprezível, nem condenável, quando conquistados honestamente. Estamos crucificados aos deveres. A trave vertical representa nossas aspirações superiores, a nossa busca do Reino de Deus. Sendo vertical ela aponta para o firmamento e nos leva para o infinito, como a flecha da oração (Caná= caniço). Entretanto, sua base está fixada no solo, pois, podemos ter a mente nas estrelas, mas o nosso lugar, neste momento, é aqui na Terra. Só seremos lançados para o espaço quando as coisas da matéria se tornarem naturais, e não mais mentirmos, roubarmos, matarmos, fraudarmos, odiarmos para possuí-las. Quando compreendermos que tudo pertence a Deus, e somos simples usufrutuários desses bens. Que, quando os recebemos em qualquer quantidade, somos apenas mordomos, desses bens, e devemos aprender a distribuí-los com sabedoria.
Huberto Rodhen, separa o que ele chama Fatos e Valores. Ele situa a reencarnação como fato, mas não como valores. Diz ele que o que nasce da carne é carne, é corpo físico, mas é produzido por terceiros. Para alguém nascer é preciso que um homem e uma mulher produzam um corpo. O Reino de Deus, o nascer espiritual, não pode ser produzido por terceiros. É algo que o ser produz dentro de si, pelo poder do seu livre arbítrio. Diz Rohdem, que a função do Mestre é indicar ao discípulo o caminho para o nascimento espiritual.
Torres Pastorino, na análise deste passo do Evangelho, estranha que os tradutores, traduziram a palavra "pneuma", quatro vezes por espírito, e uma vez por vento. Na verdade, diz ele, o espírito sopra onde quer (atua - age) e não se sabe de onde veio, (sua última reencarnação) nem para onde vai (próxima reencarnação).
Edouard Schuré, em Os Grandes Iniciados, considera que o diálogo de Jesus com Nicodemus se refere ao Batismo, mas esclarece que o Batismo da água representa a verdade percebida intelectualmente, abstratamente, de uma forma geral. A água purifica a alma e desenvolve o seu germe espiritual. A renascença pelo espírito, ou o Batismo pelo fogo (celeste), significa a assimilação dessa verdade, pela vontade, de tal modo que ela se torne o sangue e a vida, a alma de todas as ações. O Batismo pela água é o começo da renascença. O Batismo pelo espírito é a renascença total. São dois graus da iniciação.
Cairbar Schutel, no livro - Parábolas e Ensinos de Jesus, esclarece: Não é bastante nascer da água, não basta tomar um corpo de carne neste mundo e nascer aqui, não basta nos encarnarmos aqui nesta Terra, precisamos principalmente "nascer do espírito"; por isso o Mestre acrescenta no versículo 6: o que é nascido da carne é carne; o que é nascido do espírito é espírito. Quando visitou o Mestre, Nicodemus já havia nascido da água; mas não havia nascido do espírito.


Amílcar Del Chiaro Filho
*Panorama Espírita

3 comentários:

Eliane Moreth disse...

Gostaria de Parabenizar o escritor sobre o trabalho pesquisado, devido as fontes serem de tamanha valia e de historicidade contundente. Mas o texto apresentado nem forçando pode contribuir para ser aceito ou aplicado ao Espiritismo, visto que: "nascer de novo" que Jesus fala não é morrer e a alma voltar, porque se fosse isso, na parábola do rico e lázaro(Lc 16:19-31), os dois teriam voltado à reencarnação. O Nascer de novo que Jesus se refere, é uma mudança de comportamento, uma mudança no Psiqué, onde há transformação de carater, atitudes e coração. E em Hebreus 9:27 diz: Ao homem está ordenado morrer uma só vez, vindo depois disso o juízo... Me desculpe, mas nascer de novo é morrer pro mundo e viver pra Deus, e após a morte vem o juízo de Deus. Você está preparado?

Carlos Pereira disse...

Olá Eliane, tudo bem?

Grato pela sua participação com os comentários!

Realmente o texto desse artigo é polemico e incomodo por abordar um tema que mexe com antigos conceitos e crenças, inclusive os da igreja ortodoxa. Não sei a sua religião, mas, de minha parte posso falar como espírita e sendo assim, tenho a minha” visão pessoal” sobre essa passagem do evangelho, o que não significa que eu tenha a pretensão de ser o dono da verdade. Nem mesmo a doutrina espírita se propõe a isso, visto que, o próprio texto já nos evidencia essa questão.

Sabemos que, antes da chegada do Mestre Jesus e mesmo ainda em sua época, as coisas andavam muito confusas em nosso orbe. As leis mosaicas humanizavam a figura de Deus retratando-o como um tirano e repressor que castigava os seus filhos. Jesus veio para mudar conceitos trazendo a mensagem de um Deus Amor, demonstrando-nos que tudo está subordinado a leis naturais, contudo, fazendo uso do nosso livre-arbítrio somos os responsáveis por nossas escolhas e são elas que determinarão o nosso porvir.

Fazendo uma análise mais profunda das palavras de Jesus a Nicodemos, podemos chegar a uma evidencia da revelação da reencarnação. Não discordo da sua afirmação quanto o nascer do novo ser, mas, contudo a reencarnação não é senão o meio de evoluirmos espiritualmente até conquistarmos essa renovação?

Quanto a sua referencia a Hebreus (9:27) recomendo que o leia por completo e faça uma reflexão mais apurada. Observe que a mensagem evidencia que a figura de Jesus aparece como aquele que sacrifica-se em lugar dos rituais e sacrifícios que eram realizados em nome de Deus.

E por fim, chegando à citação de que “Ao homem está ordenado morrer uma só vez”, perceba que ele se refere ao homem (matéria), sim ao homem está ordenado morrer uma só vez, e quanto ao Espírito? Somos seres espirituais vivenciando experiências no corpo físico.
Desejo-lhe muita paz ao vosso coração!


Um abraço fraterno!

Dilermando Nassif disse...

Com o maior amor Jesus nos amou, assim, em Cristo desejo o maior amor entre nós.
Gostaria apenas de dizer que, se Jesus veio ao mundo para cumprir a vontade do Pai, (João 3.16 confirma)ou seja, morrer na cruz para que todo aquele que crer e se arrepender de seus pecados (de metanóia, no Grego, mudar de direção)não pereça, mas tenha vida eterna, como ficaria, então este sacrifício de Jesus, pela humanidade? Se temos que morrer e nascer novamente (seja quantas vezes forem, para nos "salvar"). Na antiguidade quando o homem se arrependia do pecada, levava um cordeiro sem defeitos para que o sumo sacerdote o imolasse e derramasse o seu sangue no altar do Santos dos Santos, como uma simbologia ou ordenança de Deus, e, assim era perdoado do seu pecado. Por isto, o chamado Cordeiro de Deus, Jesus, veio cumprir a vontade do Pai, morrendo como o cordeiro para que o seu sangue "lavasse" o pecado do arrependido. Se a morte entrou no mundo através do pecado de um homem (Adão), também por um homem deveria ser salva a humanidade.
Assim, todo "drama da humanidade" apresentado na Bíblia finalizando com a remissão do pecado e a volta de Jesus, não faria nenhum sentido, se pela própria experiênncia e "existências" humanas, este fosse seu próprio salvador.
Admiro todo aquele que busca a verdade, seja Espírita, Católico, Evangèlico, entre outros. Porém devo dizer que Jesus é a chave de Deus para a salvação. Não há outro nome em que se possa salvar a humanidade.
Que Deus abençoe a todos.

Dilermando Nassif

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